Não posso negar que as primeiras impressões de viver no centro da Europa foram desoladoras no que diz respeito à vivência da fé. O espírito comunitário é anémico; a privatização da fé é dominante; e a tolerância, tantas vezes celebrada, significa mais relativismo do que verdadeira aceitação das diferenças – essa que exige troca, proximidade e envolvimento, o que aqui muitas vezes não passa de uma miragem.
Da ausência de relação, ou da sua superficialidade, resulta uma cidadania aparentemente polida e correta. Mas o lastro que fica é frieza, distância, ligeireza nos vínculos e ausência de afeto, desafios para os cristãos de todos os tempos.
A privatização da fé faz-nos, muitas vezes, sentir sós e raros. E assim vamos aprendendo a ler a procura de Deus nos olhares e nas vidas dos outros. Porque o despojamento faz-nos livres e ávidos – uma avidez que reconhece a avidez dos outros e a ela se junta.
E assim o círculo alarga-se e o inesperado acontece: as almas peregrinas atraem-se mutuamente, reconhecem-se sem palavras, antes por uma forma de estar que revela mais aquilo que se busca do que o lugar que se ocupa no mundo.
No encontro das sedes – histórias pessoais, buscas discretas, fidelidades silenciosas – pisa-se um solo comum, partilhado por todos os cristãos, todos eles. As diferenças doutrinais não desaparecem, mas perdem centralidade. O essencial impõe-se. E assim, viver no centro da Europa revelou-se uma experiência inesperada: o ecumenismo ao pé da porta.
Entre viagens e encontros “fortuitos” convergimos no tempo e no espaço com protestantes e ortodoxos, sedentos como nós. É impossível não reconhecer neles, uns e outros, tanto de nós, cada um ao seu modo: a procura incessante, o conhecimento, para os protestantes; a reverência, o sentido do mistério, uma fé vivida mais com o corpo e com o tempo do que com explicações, para os ortodoxos. Aquilo que parecia distante revelou-se familiar. Aquilo que julgávamos outro mostrou-se irmão.
E entre os católicos participamos na primeira pessoa numa nova aculturação. O sangue sul-europeu aqui presente empresta piedade física e calor de proximidade a um cenário culturalmente tímido nestas manifestações, rejuvenescendo, sem infantilizar, comunidades locais cansadas, mas fiéis e ainda vivas.
O sinal justo deram-no os pagãos ao olhar para os primeiros cristãos: “Vede como se amam.” Sim, amamo-nos: toda a cristandade, vasos de barro carregando, de forma inábil, a graça que nos é dada.
Em certo sentido, viver no centro da Europa catapultou-nos para um percurso espiritual feito de rostos concretos, todos a caminho: homens e mulheres que vivem a fé e amam a Deus “às apalpadelas”, cheios de bons desejos e pureza de alma. Uma pureza que, no quotidiano, torna tudo mais claro e límpido, revelando ao seu modo o rosto de Deus.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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