O elogio do concreto em tempos de covid

| 17 Mai 21

Nas Margens da Filosofia – XXXIII

 

“As mentes politizadas não vêem indivíduos concretos que estão vivos, que amam e que são amados.
Só vêem abstracções: capitalismo, comunismo, globalização.”

(Rob Rieman, Nobreza de Espírito, Lisboa, Bizâncio, 2015, p. 115)

 

 “Os filósofos parecem ignorar como os homens são feitos, não conhecem o que eles comem, as casas que habitam, os fatos que usam, o modo como morrem, as mulheres que amam, o trabalho que fazem (…). Esta espantosa ignorância não perturba o curso preguiçoso da filosofia. Os filósofos não se sentem atraídos pela terra, são mais ligeiros que os anjos, não têm aquele peso dos vivos que amamos, nunca experimentam a necessidade de caminhar entre os homens.”

(Paul Nizan, Les chiens de garde, Paris, Maspéro, 1974, p. 30).

“Habituámo-nos a ver desfilar nos nossos écrans centenas de pessoas a serem injectadas, outras tantas transportadas em macas, outras ainda entubadas e sujeitas a tratamentos que nos arrepiam”. Foto: @Murai / Unsplash

 

A pandemia trouxe muitas alterações às nossas vidas. E uma delas é o novo modelo dos telejornais. Habituámo-nos a ver desfilar nos nossos écrans centenas de pessoas a serem injectadas, outras tantas transportadas em macas, outras ainda entubadas e sujeitas a tratamentos que nos arrepiam.

É um desfile de gente, irmanada no estatuto comum de doentes, actuais ou possíveis, dos quais nos pretendemos demarcar, situando-nos no grupo dos não infectados, ou daqueles que, por enquanto, ainda não o foram. Somos diariamente informados quanto ao número de recuperados, de novos doentes e de mortos. Obviamente que ouvimos as notícias com preocupação e tristeza. Mas enquanto dizem respeito a desconhecidos recebemo-las com algum desprendimento. Lamentamos os infectados, experimentando para com eles sentimentos opostos de insegurança e de alívio pois a doença não nos bateu à porta nem à dos nossos familiares mais próximos.

Sejamos honestos: o grau da nossa angústia com a covid é proporcional à relação pessoal, familiar e de amizade que temos com os enfermos. Solidarizamo-nos com o pessoal médico e de enfermagem, lamentando as condições desgastantes em que trabalham e louvando a sua resiliência. Mas além das entradas e saídas dos doentes a que assistimos nos noticiários, nada sabemos do que acontece “intramuros”, pois os que saem dos hospitais pouco contam publicamente do que lá se passa. E esse desconhecimento do que acontece às pessoas, do modo como são tratadas, do sofrimento e da angústia que experimentam, da sua capacidade de luta e de recuperação, dos cuidados que recebem por parte de médicos e de enfermeiros, é todo um mundo que nos é vedado, o que aumenta grandemente os nossos medos.

A todas as horas ouvimos e vemos a entrada de ambulâncias. E assistimos também pela televisão às saídas dos recuperados, no meio de aplausos e manifestações de alegria. Contudo, nada se diz sobre os cuidados prestados, uma ignorância que certamente angustia quem se vê na situação de entrar num hospital, infectado com covid. Daí a importância dos relatos concretos dos pacientes, relatos esses que deveriam ser divulgados, não só para que as pessoas tomem consciência da gravidade da pandemia, como também pela confiança que lhes deverá ser incutida quanto à eficácia das terapias aplicadas, bem como à excelência dos cuidadores.

Nestas circunstâncias, foi por demais importante a entrevista que o Professor Daniel Sampaio deu ao jornal Expresso no dia 17 do passado mês de Abril. É um testemunho que simultaneamente nos alerta, nos esclarece, nos dá confiança e nos comove. Alerta-nos porque por vezes tendemos a menorizar certos sintomas, o que aconteceu com ele: “(…) tenho de assumir que fui displicente. Estava muito preocupado com o que o isolamento faria à saúde mental das pessoas e pensei que a doença não era tão grave, que não me aconteceria nada. Descuidei-me, e é preciso dizê-lo porque é necessário respeitar as regras.”

Esclarece-nos porque ficamos cientes do modo como a doença se manifesta, bem como da morosidade dos tratamentos. Nada é ocultado quanto aos efeitos nocivos da covid quer a nível do corpo quer da mente: “Quando tiraram os tubos e comecei a respirar, não mexia nem braços nem pernas. Estava um corpo completamente inerte. Só mexia as mãos. (…) A experiência foi muito dura porque há um barulho terrível e permanente provocado pelas máquinas a que os doentes estão ligados, com apitos e alarmes constantes, e é impossível sossegar. Nesta altura eu estava confuso.”

Anima-nos quando nos informa sobre a competência excepcional dos cuidadores e quando lembra a solidariedade que se estabelece entre os pacientes de uma mesma enfermaria. Comove-nos quando refere o papel da família ao longo do seu internamento e da festa que foi a sua chegada a casa. Destrói estereótipos quando fala de Deus, assumindo-se como não crente: “Eu tenho muito respeito pela ideia de Deus, não sou crente, mas confesso que muitas vezes pensei em Deus e se ele me podia ajudar. Tive imensa gente a dizer que estava a rezar muito por mim, eu agradecia e foi muito reconfortante. Nunca minimizei a fé dos outros e a ideia de que Deus eventualmente me poderia estar a ajudar foi uma ideia boa.”

O testemunho de quem sofreu na pele os malefícios da covid é mais eficaz do que as centenas de conferências, notícias e alertas com que diariamente somos confrontados. Tendemos a esquecer aquilo que se repete e que é enunciado abstractamente, as mais das vezes através de números e de estatísticas. Mas interpela-nos, ajuda-nos, e dá-nos esperança, o relato concreto de quem partilhou connosco o modo como viveu e superou a sua doença.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

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