Ainda encantados com a ternura entranhável das celebrações litúrgicas e humanas do Natal, a meio do tempo festivo que se conclui com o Baptismo de Jesus, continuamos a meditar o mistério que o envolve.
Desde o primeiro atestado histórico da celebração do Natal de Jesus no dia 25 de Dezembro, proveniente do ano 354, a evolução da festa oferece agora aos comentadores um grandioso quadro díptico:
– Num painel contam a cores garridas que o comércio usurpou o tempo do Natal para os seus próprios interesses, económicos, antecipando a despropósito o ‘tempo de Natal’ em função do lucro. Um chefe de Estado até decretou que «desde o 1 de Outubro arranca o Natal» no seu país (ao mesmo tempo que, contra o verdadeiro espírito de Natal, mantém as pessoas na prisão pelas suas ideias políticas!). Argumentam que o comércio, mesmo sem algoritmos que denunciem os desejos naturais das pessoas e das crianças, transformou a festa do Natal numa feira mercantil e consumista, levando-a a perder o seu tom festivo. O verdadeiro tempo do Natal parece estar a ser substituído por um tempo comercializado, com uma árvore e motivos neutros. Alguns até dizem que o Natal é hoje o negócio que mais lucro dá àqueles que Jesus terá expulsado do templo. Outros observam que o núcleo da festa se foi polarizando à volta da figura de um Pai-Natal a distribuir os presentes caros e os brinquedos ricos que o comércio quer que sejam comprados. O Jesus nascido pobre «numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2,7), tem hoje uma celebração rica, abrilhantada por luzes artificiais e por embrulhos envoltos em laçarotes reluzentes. Os teólogos registam nas celebrações do Natal das sociedades ocidentais o contraste entre a pobreza do acontecimento original e o consumo desenfreado oferecido pelos ricos supermercados: que resta da paz cantada, desejada e oferecida pela transcendência dos anjos «aos homens de boa vontade»? A indiferença religiosa face ao acontecimento dá-lhes a impressão de que aquele que é o verdadeiro centro e originador do “espírito de Natal”, Jesus, fica esquecido: no momento em que uma comunidade lhe canta louvores, gratidão, vilancicos, outros abafam pensamentos profundos que o Natal suscita. Grande dissonância em relação à festa cristã da Bondade sem limites, do «aparecimento da graça do Deus salvador a todos os homens» (Carta a Tito 2,11)!

Iluminações de Natal em Lisboa: “Não há tantas razões para alguns cristãos se queixarem do chamado “sequestro do Natal” por parte de uma sociedade mercantilizada ou capturada pelo comércio.” Foto © António Marujo/7MARGENS.
– Mas, se pararmos a pensar, não há tantas razões para alguns cristãos se queixarem do chamado “sequestro do Natal” por parte de uma sociedade mercantilizada ou capturada pelo comércio. A realidade, matizada, presta-se a outra visão, num segundo painel do díptico do Natal. Até podem dizer que no Ocidente, oficialmente cristão, as maiores festas do ano civil, especialmente a do Natal, são festas cristãs (em Espanha e noutros países junta-se-lhes a natalícia Festa dos Reis, a 6 de janeiro), numa espécie de alargamento da piedade litúrgica ao âmbito político. Esta constatação, porém, não é sobretudo motivo de orgulho cristão. É antes oferta de sentido a todo o tempo do ano civil, como se nas celebrações festivas o humano abraçasse o religioso e o religioso se deixasse impregnar pelo humano: odescanso do trabalho no tempo do Natal brinda, a todos os que param, uma quietude sagrada, solene, que «une em si a intensidade da vida e a contemplação» (K. Kerényi, Antike Religion, citado por B.-Ch. Han, Vita contemplativa [Relógio D’Água 2023] 12). A festa do Natal celebra uma forma intensiva e esplendorosa da vida. Promove, não só a família cristã, mas qualquer comunidade. Dá origem a um nósfestivo, integral, integrado e afectuoso. Com a alegria que contagia todas as áreas e classes da sociedade, adverte-nos de que não podemos esquecer o melhor da vida. É parteira do novo: tendo Jesus nascido «humano demasiado humano» (F. Nietzsche) e igualmente divino, dá a todos os humanos a nova possibilidade de conviverem bem entre si e com Deus.
Esse fulgor do Natal é pintado numa página admirável, lírica e metafísica dos evangelhos apócrifos – expansões meditativas dos canónicos. Conta que, quando Jesus nasceu, toda a vida parou, para admirar o acontecimento absolutamente novo. Maria sente as dores do parto. José introdu-la numa gruta e vai procurar uma parteira hebraica. Enquanto a procurava, nasce Jesus:
«Eu, José, estava a andar e já não andava. E ao levantar o olhar para o ar pareceu-me que o ar estava estremecido de assombro; e quando fixei o olhar no firmamento vi-o estático e os pássaros do céu imóveis; e, ao dirigir o olhar para a terra, vi um recipiente no chão e trabalhadores deitados em atitude de comer, com as mãos na escudela. E os que estavam a mastigar já não mastigavam…: todos tinham o rosto a olhar para o alto. Também havia ovelhas a serem conduzidas a pastar; mas não davam um passo e ficaram paradas… E, ao dirigir o meu olhar para a corrente do rio, vi cabritos que punham nela o focinho, mas não bebiam. Numa palavra, todas as coisas, num momento, ficaram paradas no seu curso normal» (Proto-evangelho de Tiago, [séc. II], XVIII, 2).

Jacob de Backer, O Nascimento (The Nativity), Domínio público, via Wikimedia Commons.
Se este motivo densamente poético do silêncio cósmico que acompanha o grande acontecimento do Nascimento do Salvador com a suspensão do curso da vida está presente na tradição do nascimento de personagens religiosas, aqui é um trepidante momento contemplativo. Assemelha-se ao presépio. Um e o outro tentam fazer uma fotografia ao momento preciso do Natal de Jesus. Na paisagem de tudo parado, as coisas da vida desposam-se em sinfónica harmonia umas com as outras no relato apócrifo e no presépio: a árvore de Natal sempre verde – que do seu simbolismo originário de vida perpétua, de esperança e de renovação sazonal foi convertida pelo cristianismo em símbolo de vida definitiva em Jesus – casa-se bem com o presépio, que capta a Incarnação do Filho de Deus na vida de cada comunidade; as luzes da árvore associam-se à luz da estrela que conduziu os magos a Jesus; a Santa (Ni)Klaus juntam-se os reis magos a repartir presentes; os anjos do presépio associam-se às renas voadoras; o burro e o boi congraçam com os pastores que afagam a Vida nascente. Pela meditação do mistério do Natal, tudo aparece mais estreitamente ligado e nenhuma coisa se demarca da outra, fechada em si. Todas as coisas da vida se interpenetram, ‘estando lá’ numa relação aberta, fazendo o que devem fazer, sendo o que devem ser de forma complementar. Uma verdade de fundo do Natal de Jesus é a harmonia de todos os seres com os humanos, harmonia dos contrastes, opostos e complementares. O silêncio e a paragem do movimento e da actividade dão carácter divino ao humano genuíno. A quietude põe termo à barbárie. O silêncio contribui para compor «a música calada, a solidão sonora» (S. João da Cruz, Cântico espiritual, canção 15), que vence o barulho. O silêncio e a música do Natal enquanto festa oferecem à vida o seu esplendor e reflectem o mundo em estado de redenção e de reconciliação. Se qualquer festa enquanto tal é a forma resplandecente da existência humana, a do Natal eleva-se acima das outras na medida em que vê o filho de Deus a vir conviver com o homem.
Portanto, o fausto da festa não é problema. Esse é bem-vindo, como tudo o que gera alegria. O que se pode pedir é que o Natal seja também festa de Jesus e segundo a mensagem que ele deixou já como jovem adulto: que gere uma sociedade inclusiva, fraterna, benevolente, em que o bem integral das pessoas, crentes ou descrentes, seja critério supremo de acção. O Natal de um mundo que não quisesse aprender nada do Nascimento de Jesus não seria digno dele, porque atraiçoaria essa história que ele quis para a humanidade. O mais importante do Natal é a sua intenção original: ser uma história de transformação activa, ocasião única para refazer a existência com alegria, a maior festa para os que levam às costas o fardo da vida e no coração a esperança como única bagagem.
Ano jubilar de S. João da Cruz
Salvador Dalí, Cristo de São João da Cruz: “O Filho de Deus a entrar no tempo e na história humana.”
O encanto do Natal, representado nos presépios ao longo de séculos, exerceu particular influência na poesia, culta e popular, como a dos vilancicos. Os aturdidos com o delírio de comunicação têm na poesia da festa do Natal uma oferta para a contemplação, que introduz no Mistério da Vida que nasce e renasce. A partir do Natal, os que têm sede de encontrar Deus procuram-no em Jesus, ainda que – sempre – de noite, como cantava Luis Rosales na sua poesia «Retablo de Navidad»:
«De noche iremos, de noche,
sin luna iremos, sin luna,
que, para encontrar la fuente,
solo la sed nos alumbra».Bem o sabia o padroeiro dos poetas espanhóis, S. João da Cruz (Poesia 4):
«Que bien sé yo la fonte que mana y corre:
aunque es de noche…
El corriente que nace de esta fuente
bien sé que es tan capaz y omnipotente,
aunque es de noche».Na masmorra de Toledo, que lhe tirava a liberdade de anunciar a Palavra em terras de Castela por querer fundar com Teresa de Jesus a nova Ordem do Carmelo, escreveu a romança da libertação da Humanidade no corpo e no espírito. Poetizando a história bíblica da salvação libertadora desde «o princípio» até ao Natal de Jesus, termina a romança numa salva de louvores ao Deus-Esposo que enviou o Filho salvar a Esposa-Humanidade:
«Já sendo chegado o tempo
Em que de nascer havia,
Assim como desposado,
Do seu tálamo descia,
Abraçado à sua esposa,
Que em seus braços a trazia;
O qual a Mãe graciosa
Em um presépio estendia,
No meio de uns animais
Que na altura ali havia.
Diziam cantos os homens
E os anjos melodia,
Festejando os esponsórios
Que entre eles os dois havia:
Deus, porém, nesse presépio
Ali chorava e gemia,
Que eram joias que a esposa
Aos esponsórios trazia.
E estava a Mãe assombrada
Da troca que ali se via:
Em Deus o pranto do homem
E no homem a alegria».No Natal cintila o espírito de contemplação. O místico carmelita, que contempla o Filho de Deus a entrar no tempo e na história humana, canta o admirável intercâmbio que ilumina a noite escura da fé: o Amor divino dá-se no amor humano do menino nascido. E sublinha o paradoxal intercâmbio de presentes, que causa o assombro da Mãe: a pobreza e o pranto do menino-Deus eram causa de gozo e alegria dos humanos.
Armindo Vaz é biblista e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica; publicou, entre outros, Em vez de «história de Adão e Eva»: O Sentido último da vida projectado nas origens (Edições Carmelo) e Criação Divina sem pecado humano (Paulinas Editora). Este texto foi inicialmente publicado no Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas. O 7MARGENS reprodu-lo por acordo do seu autor e dos responsáveis do Boletim.











