
Ticiano, Simão Cireneu. Pintura exposta no Museu do Prado, via Wikimedia Commons.
Os evangelhos descrevem com muita brevidade um episódio curioso que integra o relato da Paixão de Cristo. É a cena da Via Dolorosa, quando um tal Simão Cireneu ajuda Jesus a carregar o madeiro até ao Monte do Gólgota, à ordem do centurião que receava que o nazareno condenado à sua guarda desfalecesse antes de ser executado, tendo em conta a tortura a que já tinha sido submetido e o estado de clara vulnerabilidade física em que se encontrava.
“E logo os soldados do presidente, conduzindo Jesus à audiência, reuniram junto dele toda a coorte. E, despindo-o, o cobriram com uma capa de escarlate.
E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e em sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus. E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e batiam-lhe com ela na cabeça.
E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-lhe a capa, vestiram-lhe as suas vestes e o levaram para ser crucificado.
E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, a quem constrangeram a levar a sua cruz” (Mateus 27:27-32).
Não sabemos se este homem – Simão Cireneu – vivia em Israel ou se tinha vindo em peregrinação desde a sua terra especificamente para assistir às celebrações da Pessach, a Páscoa judaica, no Templo de Jerusalém, à semelhança do que sucedia com milhares de forasteiros simpatizantes do Deus do povo da Aliança, que todos os anos acorriam às principais festas do judaísmo.
Podemos comprovar essa prática de, chamemos-lhe assim, turismo religioso, nos textos lucanos de Actos dos Apóstolos, por ocasião do Dia de Pentecostes, onde vamos encontrar o registo de cerca de dezasseis regiões diferentes do Império Romano representadas na cidade pelos peregrinos: “Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia. E Frígia e Panfília, Egipto e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos. Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus” (Actos 2:9-11).
O evangelista Marcos diz-nos que este personagem chamado Simão era “pai de Alexandre e de Rufo” (15:21), Mateus afirma que o homem foi obrigado a carregar a cruz (“constrangido”, 27:32), Lucas que “puseram-lhe a cruz às costas, para que a levasse após Jesus” (Lucas 23:26), e em Actos 13:1 informa que “tinha por sobrenome Niger” (do latim: negro).
Uma questão que se coloca é tentar entender o que estaria na cabeça de Simão Cireneu na Via Dolorosa, enquanto ajudava a carregar a cruz de Jesus de Nazaré. A nosso ver seriam sobretudo motivos que lhe provocaram espanto. Mas espanto porquê?
Espanto, desde logo, pelo contraste brutal percebido entre a beleza das festas judaicas no Templo, a que teria pretendido presenciar, e a crueza da paixão de Cristo, desde a tortura à sua morte ignominiosa por crucificação. Sim, ignominiosa porque era indigna de uma pessoa decente: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13).
E será que todos percebemos hoje, mas também ao longo da história, o contraste brutal entre a beleza das palavras de alguns cristãos e a crueza dos seus actos?
Outro motivo de espanto seria o contraste entre a mansidão de Jesus face ao ódio religioso presente. Isaías di-lo profeticamente: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (53:7). Mas Lucas confirma-o historicamente: “E o lugar da Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca” (Actos 8:32).
E qual é a postura do cristão face ao ódio religioso, seja ele verificado contra a sua fé como contra uma fé religiosa diferente ou a falta dela?
Finalmente, podemos considerar o espanto pelo perdão oferecido a quem não o merecia: o ladrão na cruz. Este elevado acto de misericórdia e graça, a partir duma situação de sofrimento profundo, é impressionante.
O espanto de Simão Cireneu leva-nos a compreender a loucura dos homens, o imenso amor de Deus, e a rendermo-nos perante tal amor. A loucura do mundo com a guerra, o ódio, a mentira e a destruição, realça ainda mais o amor de Jesus, e exige-nos uma resposta a tal amor, já que “o amor de Cristo nos constrange” (2 Coríntios 5:14).
Que nesta Páscoa sobressaia a convicção de que, aquilo que prendeu Jesus à cruz não foram os pregos mas o muito amor com que nos amou.
Santa Páscoa.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.







