Um filme com este título está presentemente num dos nossos cinemas e pretende contar-nos a actuação de Dietrich Bonhoeffer durante a Segunda Guerra Mundial. Bonhoeffer é alguém que muito admiro e sobre quem tenho escrito.[1] Daí espantar-me com algumas infidelidades na história que nos é contada e, sobretudo, com o título dado ao filme, pelo qual somos levados a pensar que se poderá tratar de um tema de espionagem quando o personagem em causa foi um eminente teólogo que se insurgiu contra o nazismo, denunciando a sua crueldade e o seu ataque aos valores cristãos.
Note-se que a infância de Bonhoeffer está bem retratada – é apresentado como pertencendo a uma família alemã de classe média alta, na qual todos os seus membros vivem em harmonia, numa casa linda onde nada lhes falta e onde cada um tem a atenção que lhe é devida. É-nos também dada informação sobre a estadia de Bonhoeffer nos Estados Unidos da América, onde foi estudar teologia e onde se presume que tenha sido feliz.
Nessa altura, bem como posteriormente, escreveu textos de teologia e pretendeu iniciar um movimento de renovação dentro da Igreja Evangélica – o movimento Bekennende Kirche [Igreja Confessante]. O filme retrata bem a atmosfera de chumbo que reinava na Alemanha na altura da ascensão de Hitler e faz-nos partilhar do medo e da angústia de todos os que se opunham ao regime. Os ideais de pureza de sangue então propagados, levaram à perseguição dos judeus, dos ciganos e dos deficientes físicos, sendo estes conduzidos para campos de extermínio onde a maior parte morreu nas câmaras de gás.
A estadia do teólogo nos Estados Unidos da América é bem retratada, ficando nítido o contraste entre a liberdade de pensamento da qual gozou nesse país, e a atmosfera sinistra com a qual se deparou no seu regresso à Alemanha. Espanta-me que no filme não haja qualquer referência ao seu noivado, uma época da sua vida bem retratada na correspondência que o teólogo trocou com a noiva e onde se evidenciavam bem os planos que ambos esperavam de uma vida em comum.
A pergunta “como viver?” foi uma constante nas suas reflexões. A ela respondeu em múltiplos escritos, recorrendo ao Evangelho e denunciando situações com ele incompatíveis. O seu inconformismo ficou expresso em textos e no seu modus vivendi que nada teve de “espionagem.” Os textos que então escreveu são de cariz teológico e político, textos que provocaram a ira dos dirigentes nazis e que o levaram inexoravelmente à morte. Porque, diferentemente de muitos dos seus contemporâneos, Bonhoeffer ousou desobedecer.
Reflectindo sobre o tema da coragem, o teólogo considerou que ao longo da história os alemães aprenderam o valor da obediência encontrando no dever cumprido um sentido para as suas vidas. Mas a ideologia nazi veio mostrar que a obediência tem efeitos perversos, transformando em conformismo e cobardia aquilo que até então fora entendido como coragem. Dietrich Bonhoeffer não pactuou com esse status quo, insurgindo-se nos textos que escreveu. E a sua voz teve eco, mesmo que não tenha sido imediato. Foi em nome de convicções profundas e enraizadas que arrostou as perseguições, o cativeiro e a forca. Não morreu glorificado como herói, mas a sua morte impôs-se-nos como uma etapa em sintonia com a vida que, segundo ele, merecia ser vivida na defesa de valores mais altos do que o pragmatismo e a eficácia.
O primeiro ponto de viragem situa-se entre 1931-32, depois de uma estadia de um ano no Union Theological Seminary, em Nova Iorque. Marca-o nessa data um chamamento, um apelo que o teria levado a uma consciência mais funda do cristianismo e, consequentemente, à intensificação do seu trabalho pastoral em comunidades de base. É também por esta altura que se inicia no combate à incipiente ameaça nazi. A denúncia que faz da iniquidade das leis anti-semitas então proclamadas, é por ele justificada não só do ponto de vista ético e político mas sobretudo por razões teológicas: a segregação e perseguição de determinados indivíduos deveria ser entendida como segregação e perseguição do próprio Cristo.
Bonhoeffer foi um personagem multifacetado, que nos interessou pelos contributos no campo da ética, da teologia, da política e da acção concreta. Mas que sobretudo se impôs pela capacidade de resistir, pela fortaleza de ânimo e pela coragem, aspectos bem presentes nos seus escritos. Nele se fundem de um modo coerente, o cidadão e o crente, o teólogo e o investigador, o pastor que fala em nome da fé e o rebelde que se indigna com certas atitudes da Igreja Luterana e delas se demarca. Mas nada do que escreveu nos permite classificá-lo como espião, tal como aparece no título do filme que nos pretende retratar a sua vida. Lamento que neste caso concreto os espectadores sejam motivados por uma temática alheia à obra de Dietrich Bonhoeffer – admirável nas suas vertentes éticas, políticas e teológicas.
[1] Vj. “Pensar a fé no cativeiro. Dietrich Bonhoeffer”, Revista Internacional Católica Communio, (1998), ano XV, nº 5, (A virtude da fortaleza) pp. 434-448, bem como “Quando se morre por Deus: Dietrich Bonhoeffer e as consequências de uma religião sem Deus” em A Questão de Deus na História da Filosofia, coord. Maria Leonor Xavier, Sintra, Zéfiro, vol II, pp. 943-955.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










