O texto bíblico começa assim: “No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Génesis 1:1-3).
Todas as grandes religiões usam o elemento água como símbolo de purificação (hindus), ou de dignificação para entrar na presença de Deus, como o judaísmo (abluções, baptismo dos prosélitos, baptismo de João), e o Islão. O baptismo cristão, porém, vai mais longe. De acordo com diferentes teologias cristãs, nuns casos é também um testemunho perante o mundo físico e espiritual de uma mudança de vida e de um propósito de seguir a Cristo, noutros casos trata-se dum sacramento.
O elemento água é fundamental na vida

“A terra precisa de água para frutificar. Sem a chuva, o planeta não seria habitável.” Foto © Herbert Goetsch / Unsplash
Ninguém sobrevive sem água potável para beber, homens ou animais. A terra precisa de água para frutificar. Sem a chuva, o planeta não seria habitável. O planeta é essencialmente água (oceanos, rios, lagos e lençóis freáticos). Mais. O bebé é gerado no útero da mãe dentro de “água” (líquido amniótico) e quando nasce é quando “rebentam as águas”. O nosso corpo é composto por 70% de água, daí o perigo da desidratação.
Deus é perfeito e por isso criou a terra perfeita
Pensa-se que terá sido a revolta de Lucifer e seus seguidores, lançados sobre a terra que destruíram essa perfeição inicial. A rebelião traz sempre destruição.
Provavelmente a recriação do planeta aconteceu numa fase posterior. Passado não se sabe quanto tempo depois do cataclismo cósmico vamos encontrar um planeta desfigurado: sem forma, vazio, em trevas: o retrato da devastação. Mas Deus não abandonou a sua criação (v2): “E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”
Apesar de tudo Deus não ficou parado, Ele movia-se sobre o caos (a face das águas): Deus move-se sobre o caos. Por isso Deus nunca nos abandona. Ele move-se sempre sobre o caos da vida de quem o busca. E vai recriar o que ficou destruído.
O dilúvio

“Mais tarde, a humanidade afastou-se profundamente de Deus, e veio o dilúvio. Mas também no dilúvio Deus estava presente.” Foto © Vyacheslav Argenberg / Wikimedia Commons
Mais tarde, a humanidade afastou-se profundamente de Deus, e veio o dilúvio. Mas também no dilúvio Deus estava presente. E a certa altura um vento (sopro ou espírito) de Deus soprou sobre as águas e elas baixaram: “E lembrou-se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas. Cerraram-se também as fontes do abismo e as janelas dos céus, e a chuva dos céus deteve-se” (Génesis 8:1,2). Deus estava presente no dilúvio e a certa altura fez baixar as águas. Deus faz sempre baixar as águas dos dilúvios na nossa vida.
A plasticidade simbólica das águas
Os cientistas dizem que grande parte da vida na terra veio das águas. Então, elas podem representar tanto a destruição como a criação, assim como muitas outras coisas: a água é um dos símbolos bíblicos do Espírito Santo: “rios de água viva correrão do teu ventre” disse Jesus à samaritana. Mas também da operação da Palavra de Deus: “vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado” Mas também é símbolo de santificação e renascimento: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4). Mas também da criação do novo homem (pós-diluviano). Mas também de algo que mata a sede espiritual: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Salmo 42:2). Mas também frutificação (alimento e cura): “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará” (Salmo 1:3). O fruto alimenta e as folhas sugerem o princípio da cura.
Um Deus sempre presente e activo
O quer importa reter, acima de tudo, é que Deus está sempre presente (a pairar) sobre o eventual caos da vida dos seus filhos, e disposto a intervir para trazer ordem e harmonia. E também não há águas que resistam ao vento que Deus faz passar sobre os possíveis dilúvios na sua vida. Tenhamos fé.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










