O estado dos portugueses

| 13 Jan 21

Era bom que todos entendessem que a presente situação pode ser ainda pior do ponto de vista emocional do que uma guerra, pelo menos num aspecto. É que a guerra implica um inimigo a combater, com um rosto, uma intenção e uma identidade, contra quem se podem dirigir as nossas energias, o que não é possível numa pandemia causada por um vírus que não se vê a olho nu e cuja presença não se sente nem percepciona.

“Era bom que todos entendessem que a presente situação pode ser ainda pior do ponto de vista emocional do que uma guerra,..”. Foto: Becky Wetherington / Wikimedia Commons

 

Um estudo realizado entre 22 de Maio e 14 de Agosto do ano passado, pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge, revelou que sete em cada dez portugueses que estiveram em quarentena ou já recuperados da covid-19 acusaram sofrimento psicológico e mais de metade apontou sintomas de depressão moderada a grave. Nada que não se esperasse. Dos que estiveram internados o estudo demonstrou que 92% relataram sintomas de ansiedade moderada a grave e 43% sintomas de perturbação de stresse pós-traumático.

É bom lembrar que Portugal já era um dos países cujos cidadãos mais consumiam ansiolíticos e antidepressivos muito antes da presente pandemia. Além disso, múltiplas investigações académicas internacionais a situações idênticas no passado revelaram que a pressão psicológica sobre quem fica sujeito a quarentena é imensa, e os efeitos perturbadores sobre a saúde mental e emocional, contraídos pelos indivíduos nessa fase, perduram muito para lá do fim da situação.

Mas não conheço estudos mais em detalhe que permitam avaliar os efeitos realmente projectados sobre os diversos enquadramentos da população face à crise sanitária. Por exemplo, não se conhece a condição emocional dos negacionistas, dos infectados, e dos familiares e amigos chegados dos falecidos de covid-19.

À partida presume-se que os negacionistas serão os menos afectados por factores de stress, pelo menos até ao momento em que descobrirem o perigo deste coronavírus, face a um eventual choque de realidade. Já quanto aos que foram infectados com evidência de sintomas, imaginemos o desconforto e o medo do agravamento do seu estado de saúde, da possibilidade da morte ou mesmo de sequelas graves que perdurem. Por maioria de razão os que perderam familiares ou amigos terão sido afectados psicologicamente de forma significativa, não apenas pela perda, mas pela impossibilidade de os ter podido visitar no hospital ou acompanhar mais de perto no funeral.

Era bom que todos entendessem que a presente situação pode ser ainda pior do ponto de vista emocional do que uma guerra, pelo menos num aspecto. É que a guerra implica um inimigo a combater, com um rosto, uma intenção e uma identidade, contra quem se podem canalizar as energias da comunidade, o que não é possível numa pandemia causada por um vírus que não se vê a olho nu e cuja presença não se sente nem percepciona.

As medidas profilácticas implantadas a partir de Março “vieram alterar os estilos de vida individuais, bem como os relacionamentos interpessoais”, e de algum modo potenciaram o “medo e incerteza crescentes de infectar ou ser infectado”, mas também os receios de degradação das condições económicas devido à persistência da doença, sendo que daí resultou “a manifestação de sintomas e comportamentos ligados ao sofrimento psicológico”.

Como se disse acima, os efeitos psicológicos das pandemias estão relativamente bem estudados, quer durante a quarentena quer na fase posterior, em que os sintomas por vezes demoram meses até se extinguir. O que falta mesmo é estudar psicologicamente a aberração negacionista.

O que leva uma pessoa a negar a existência do coronavírus, mesmo face ao número comprovado de quase dois milhões de mortos? Por que razão estes indivíduos se negam a observar as medidas profilácticas de uso de máscara, afastamento físico e higienização das mãos? O que os leva a justificar a sua atitude com as mais descabeladas teorias da conspiração, como afirmar que as vacinas inoculam o HIV, ou um chip de controlo, ou que os governos estão apenas a controlar as populações de modo a que se resignem? O que leva esta gente a desacreditar a ciência de forma tão infantil, baseando-se em obscuros textos e vídeos disponíveis na internet, de autoria anónima ou não certificada?

Bem sei que ainda há idiotas que proclamam que o planeta é plano e que há uma conspiração de pedófilos que o heróico Trump quer combater. Mas um bocadinho de bom senso não fazia mal nenhum.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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