
Pessoas sem-abrigo na missa com o Papa. Foto captada da transmissão vídeo do Vaticano.
“Os pobres estão no centro do Evangelho” e “o Evangelho não se compreende sem os pobres”, disse o Papa Francisco, na homilia da missa deste domingo, 15, que desde 2017 o próprio instituiu como Dia Mundial dos Pobres. “A personalidade dos pobres é igual à de Jesus que, sendo rico, aniquilou-Se a Si mesmo, fez-Se pobre, fez-Se pecado, a pior pobreza”, acrescentou.
Na missa deste IV Dia Mundial, celebrada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, participaram cem pessoas pobres ou sem-abrigo. São pessoas como essas, disse, que estão no “centro” da mensagem cristã. Por isso, o Papa recusou que se desperdice a vida pensando apenas em si mesmo: “Nestes tempos de incerteza, nestes tempos de fragilidade, não desperdicemos a vida pensando só em nós mesmos, assumindo uma atitude de indiferença. Não nos iludamos dizendo ‘paz e segurança!’ (1 Ts 5, 3). São Paulo convida-nos a olhar a realidade de frente, a não nos deixarmos contagiar pela indiferença.”
Os cristãos, acrescentou, são desafiados a não se ficarem pela ilusão do ‘quem dera’, que impede “de ver o bem e faz-nos esquecer os talentos que possuímos”. Muitas vezes, disse, “olhando para a nossa vida, vemos só o que nos falta e lamentamo-nos daquilo que nos falta”. Então cedemos à tentação do ‘quem dera…’: quem dera que eu tivesse aquele emprego, quem dera que eu tivesse aquela casa, quem dera que eu tivesse dinheiro e sucesso, quem dera que eu não tivesse tal problema, quem dera que eu tivesse pessoas melhores ao meu redor!”
Momentos antes, tinha sido lida a parábola em que Jesus conta a história do patrão que distribui pelos seus servos diferentes talentos, uma moeda do tempo que correspondia a vinte anos de salário: enquanto um corre a enterrar a moeda recebida, para não a perder, os outros colocam a render os dois ou cinco talentos recebidos. O centro da parábola é “a actividade dos servos, isto é, o serviço”, disse o Papa. “E serviço é também a nossa actividade, aquilo que faz frutificar os talentos e dá sentido à vida: de facto, quem não vive para servir, não serve para viver.” E insistiu: “Devemos repetir isto e repeti-lo muito: quem não vive para servir, não serve para viver. Devemos meditar nisto: quem não vive para servir, não serve para viver.”
Mas qual é o estilo do serviço? – perguntou Francisco na homilia. “Servos bons, no Evangelho, são aqueles que arriscam. Não se mostram exageradamente cautelosos e precavidos, não conservam intacto o que receberam, mas usam-no. Com efeito o bem, se não se investir, perde-se, já que a grandeza da nossa vida não depende de quanto amealhamos, mas do fruto que produzimos. Quantas pessoas passam a vida só a acumular, pensando mais em estar bem do que em fazer bem! Como é vazia, porém, uma vida que se preocupa com as próprias necessidades, sem olhar para quem tem necessidade! Se temos dons, é para nós sermos dom para os outros (…) perguntemo-nos: preocupo-me só com as necessidades, ou sou capaz de olhar para quem tem necessidade? Para quem passa necessidade?” E ainda: “A minha mão é assim [perguntou, abrindo a mão] ou assim [mão fechada]?”
Contra a “mumificação da alma”
Na mesma perspectiva, o Papa Francisco criticou “as pessoas que estão de tal modo atentas a si mesmas que nunca arriscam”. Começam na vida “um processo de mumificação da alma, e acabam como múmias”, disse. “Isto não basta! Não basta observar a regras; a fidelidade a Jesus não consiste apenas em não cometer erros; esta é a parte negativa. Assim pensava o servo preguiçoso da parábola: desprovido de iniciativa e criatividade, esconde-se atrás dum medo inútil e enterra o talento recebido. (…) não fez nada de mal… É verdade! Mas, de bom, também não fez nada. Preferiu pecar por omissão do que correr o risco de errar.”
Referindo-se ao período de Natal que se aproxima, Francisco afirmou que a pergunta que “muitas vezes as pessoas se colocam é: ‘O que posso comprar? Que mais posso ter? Preciso de ir às lojas comprar’.” Mas é preciso que a pergunta seja diferente: “‘O que posso dar aos outros?’ Para ser como Jesus, que Se deu a Si mesmo e até nasceu naquele presépio.”
No fim da vida, que corresponde ao final da parábola, disse o Papa, “haverá quem tenha em abundância e quem tenha malbaratado a vida ficando pobre: (…) declinará a ficção do mundo – segundo a qual o sucesso, o poder e o dinheiro é que dão sentido à existência –, enquanto o amor, aquilo que tivermos dado, surgirá como a verdadeira riqueza”. Citando São João Crisóstomo, teólogo do século IV que foi arcebispo de Constantinopla, acrescentou: “Assim acontece na vida: quando chega a morte, acaba-se o espectáculo; todos tiram a máscara da riqueza e da pobreza ao deixarem este mundo. E são julgados apenas com base nas suas obras, resultando uns realmente ricos, outros pobres.”
O Papa concluiu referindo o exemplo de “tantos servos fiéis de Deus, que vivem assim, servindo, e de quem não se fala” e exemplificando com o padre Roberto Malgesini, morto em Setembro por um sem-abrigo a quem apoiava: “Este padre não fazia teorias; simplesmente, via Jesus no pobre; e o sentido da vida, em servir. Enxugava lágrimas com mansidão, em nome de Deus que consola. O início do seu dia era a oração, para acolher o dom de Deus; o centro do dia, a caridade para fazer frutificar o amor recebido; o final, um claro testemunho do Evangelho. Aquele homem compreendera que devia estender a sua mão aos inúmeros pobres que encontrava diariamente, porque em cada um deles via Jesus.”
Nos três anos anteriores, o Papa assinalou este Dia Mundial almoçando no Vaticano com cerca de 1500 pessoas sem-abrigo. Desta vez, por causa da pandemia, a decisão foi a de oferecer testes de covid-19 a instituições que apoiam pessoas carenciadas e distribuir cinco mil cabazes de alimentos para ajudar famílias em 60 paróquias de Roma, além de outras iniciativas, como o 7MARGENS noticiou.
No vídeo a seguir, com a gravação da missa presidida pelo Papa, a homilia pode ser escutada, em italiano, a partir dos 21’30”:









