O exemplo da “Brotéria”

| 6 Mar 20

Capa do último número da “Brotéria”

 

Em 1965, quando a revista Brotéria passou a assumir-se como uma revista de cultura, inspirada na “grande abertura conciliar”, o padre Manuel Antunes, S.J. afirmou: “Procurando sentir e fazer sentir que somos de uma pátria e que ao seu sentido estamos ligados, a Brotéria não ignorará que o facto cultural, constituindo um sistema de valores suscetíveis de difundir-se, transcende as condições de espaço e duração. Procurando alimentar a grande esperança que os novos tempos e o Concílio dos novos tempos sopraram sobre o mundo, a Brotéria não poderá esquecer que o homem não saiu da sua condição e que o mal vive connosco”.

O tempo passou e esse apelo forte dos “sinais dos tempos” continua bem vivo, não podendo ser repetido como se fosse uma rotina. Por isso a revista publicada pelos jesuítas portugueses desde 1902 continua por novos caminhos. E assim nasce o Centro Cultural, dirigido pelo padre Francisco Sassetti Mota, que afirma: “Acreditamos que o cristianismo pode e deve contribuir para a construção do bem comum, apelando para a justiça e para o respeito pela vida das pessoas, das culturas, das sociedades e do próprio planeta. (…) Estamos abertos a todos os que queiram encontrar-se com a Igreja e com esta linguagem que alia arte e espiritualidade, a sociedade e as pessoas que a compõem.

Como o diretor da revista Brotéria, P. António Júlio Trigueiros, bem recorda, importa ter presente o que o Papa Francisco disse há pouco à Cúria: “nas grandes cidades, precisamos de outros ‘mapas’, outros paradigmas, que nos ajudem a situar novamente os nossos modos de pensar e as nossas atitudes. Já não estamos na cristandade! Hoje, já não somos os únicos que produzem cultura, nem os primeiros, nem os mais ouvidos”. Eis por que razão a construção do bem comum tem de se fazer de um fecundo encontro de diferenças e convergências – como no-lo ensinava S. João XXIII em Mater et Magistra. E nessa experiência da Brotéria devemos lembrar ainda o que disse o P. Luís Archer, em 1999: “Se considerarmos como cultura o sistema simbólico que cada povo constrói para dar sentido à sua história, à sua vida, à sua comunidade e ao seu universo, concluiremos que é pela cultura que o ser humano se realiza plenamente como pessoa”.

Neste sentido, o novo projeto da Brotéria corresponde à preocupação de tornar viva a Palavra de Jesus Cristo, num contexto de liberdade, de abertura, de diálogo, de encontro, de respeito mútuo e de paz. Infelizmente, há dificuldade em debater ideias, a partir da liberdade de consciência. Prevalecem os preconceitos, o desconhecimento e a indiferença. Em lugar de uma troca de experiências prevalecem os diálogos de surdos, em que cada qual se limita a repetir o que julga ser a verdade que possui. Acontece, porém, que somos limitados e imperfeitos e que, de facto, “o mal vive connosco”. Precisamos, por isso, de conhecer os outros e de assumir a modéstia necessária para ter resposta e ser responsáveis. Temos de saber colocar-nos no lugar do outro, e o confronto de ideias apenas pode ser fecundo se o conhecimento for o caminho que Paul Claudel nos propôs, ao dizer que connaître deve ser nascer com o outro.

Se virmos o longo caminho da revista Brotéria, compreendemos que houve uma preocupação de rigor e de conhecimento. A revista foi fundada por três professores do colégio de S. Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), especializada nas ciências naturais (1902), tendo sido subdividida em três séries independentes (1907) – Botânica, Zoologia e Vulgarização Científica. De 1907 a 1924, os jesuítas portugueses publicaram cerca de 350 recensões e 450 artigos de divulgação na agricultura, geografia, física e química, medicina e higiene. Em 1925 nasceu a revista cultural (com o subtítulo Fé, Ciências, Letras), afirmando o P. Joaquim Silva Tavares, fundador em 1902 e seu reformador, que urgia investigar a verdade no campo religioso e aumentar os conhecimentos científicos e literários dos leitores.

E qual a razão da escolha do nome da revista – Brotéria? A homenagem à figura extraordinária de Félix da Silva Avelar (1744-1828), que adotou em Paris o nome de Brotero, que significa em grego “amante dos mortais”. Brotero foi capelão da Sé Patriarcal de Lisboa, frequentou o curso de Direito Canónico em Coimbra, foi amigo do padre Francisco Manuel do Nascimento, o célebre Filinto Elísio, tendo-o acompanhado no exílio em França. Formou-se em Medicina em Reims e dedicou-se ao estudo da Botânica, seguindo Lineu e criando a terminologia portuguesa na obra-prima Flora Lusitanica. Foi Professor de Agricultura e Botânica na Universidade de Coimbra e diretor do Jardim Botânico, sucedendo a Domingos Vandelli, sendo o verdadeiro modernizador das suas áreas de especialidade. A influência científica, o seu prestígio académico e o resultado efetivo do seu trabalho levaram a que fosse eleito para a Assembleia Constituinte de 1821, na sequência da Revolução liberal. Foi em razão do seu prestígio, da sua atitude ética, do apego à liberdade de consciência e ao rigor no conhecimento que os fundadores da revista científica da Companhia de Jesus adotaram o seu nome, que persiste até aos dias de hoje.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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