O exemplo de Maria João Sande Lemos

| 21 Jun 2024

“Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e de
grande alegria, correram a dar a notícia aos discípulos.
Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: ‘Deus vos salve’”.
Mateus, 28, 8-9.


Maria João Sande Lemos, Nós Somos Igreja

Maria João Sande Lemos, fundadora do núcleo português do Nós Somos Igreja, que morreu dia 4 Junho 2024. Foto: Direitos reservados.

 

Se há exemplo de ativismo religioso e cívico enquanto impulso permanente em prol da solidariedade, da dignidade humana e das boas causas é o de Maria João Sande Lemos (1938-2024), que há pouco nos deixou. Conheci-a, por razões familiares, antes de nos encontrarmos no então PPD, sempre com o mesmo espírito de entrega total. Alfreda Ferreira da Fonseca, companheira no Centro de Reflexão Cristã, disse com acerto que ela era “Um vulcão de criatividade militante nas causas da justiça em Portugal ou em África, na luta contra as discriminações nomeadamente das mulheres na sociedade ou na Igreja”. E lembro especialmente nesses tempos já recuados a presença constante e fraternal de António Sande Lemos, seu marido, ele também exemplo de generosidade, de entrega e de ânimo militante. E ao longo de décadas, fomo-nos encontrando em muitas circunstâncias e causas comuns.

A Maria João era alguém que visava o futuro e que não regateava esforços na defesa apaixonada das suas ideias. Foi sempre uma amiga. Muitas vezes, deparou-se com incompreensões, mas nunca desistia, ia em frente. A sua coerência e a determinação eram sempre mais fortes do que os contratempos, servidas por uma coragem e por uma vontade inabaláveis. Tudo o que abraçava encarava com um grande entusiasmo. Os primeiros tempos da construção da democracia contaram com o seu compromisso, essa era uma palavra que lhe soava especialmente bem, ao lado de Francisco Sá Carneiro, Joaquim Magalhães Mota e Francisco Balsemão, nas Mulheres Sociais-democratas, nas estruturas laborais e sindicais, na UGT. O seu amor por África levou-a à defesa da Paz e da Democracia em Angola e Moçambique (sua terra natal). Como afirmou um dia: “Um dos maiores desafios enfrentados pelas sociedades africanas que buscam a democracia, como sistema de governação participativo é a formação e consolidação do espaço da sociedade civil”. Nessa exigência estava sempre disponível. E mais do que palavras eram os factos que prevaleciam, conhecendo melhor que ninguém as dificuldades e as resistências. Nada de importante podia ser construído sem suscitar desconfianças e entraves.

Na defesa dos direitos humanos, trabalhou, desde muito cedo, quando o Estado de Direito o permitiu, na Comissão da Condição Feminina e depois na Comissão para a Igualdade dos Direitos da Mulheres, tendo integrado as delegações de Portugal à Conferência das Nações Unidas para a Década da Mulher em Copenhaga (1980) e nas Conferências de Bagdad (1984) e de Pequim (1995). Com Ana Vicente e Leonor Xavier, saudosas amigas, participou ativamente no Movimento “Nós Somos Igreja”, sempre na primeira linha da reflexão e da mobilização de vontades. Como referiu em nota a direção do Centro de Reflexão Cristã: “Sempre viveu e lutou pelas causas em que acreditava”. Todos nos lembramos do entusiasmo que punha na defesa dos seus argumentos. Com grande determinação, sempre esteve atenta à reforma da Igreja e à necessidade de uma participação efetiva do Povo de Deus nesse compromisso, na linha das Constituições do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes e Lumen Gentium. E tantas vezes repetia as palavras do Concílio Vaticano II: “É verdadeiramente de lamentar que os direitos fundamentais da pessoa não sejam garantidos, de forma devida, por toda a parte. É o que acontece quando se nega à mulher o direito de escolher livremente o marido e de abraçar o estado de vida que quiser, ou de ter acesso a uma educação e cultura semelhantes às que se reconhecem ao homem” (GS, 29).

Os sinais no sentido de reconhecer em todas as consequências o papel insubstituível da mulher, levaram, aliás, o Papa Francisco a pedir para que tenham de ser reconhecidas em cada cultura a dignidade das mulheres e a riqueza do seu contributo, de modo que cessem as discriminações de que são vítimas ainda em várias partes do mundo. É preciso tirar consequências e Maria João não cessava de insistir com desassombro neste tema, que deveria exigir mais audácia, reconhecendo que os passos que vão sendo dados, designadamente do Sínodo em curso são essenciais e não podem ser sujeitos a hesitações. De facto, há um longo caminho a percorrer.

O exemplo que nos deixa obriga a fazer de uma prática de persistência e de responsabilidade a consagração do exemplo que nos é dado nos Evangelhos por Marta e Maria. Todos somos chamados à coragem. Em cada passo da sua vida, nos pequenos gestos que partilhava, compreendendo a necessidade de não esquecermos a responsabilidade para com os outros, a Maria João Sande Lemos representou bem a recordação das duas fases da vida que nos são apontadas nesse extraordinário episódio da Boa Nova, naturalmente completado pela descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres, após a morte de Jesus. Foram, de facto, as mulheres as primeiras testemunhas da Ressurreição. Que melhor demonstração dessa fé inabalável que Maria João sempre defendeu e que não poderemos esquecer?

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This