Aproveitando o facto de a exposição permanente se encontrar encerrada devido às obras de requalificação que decorrem no edifício, a equipa do Museu Nacional Machado de Castro presenteou, agora, o seu público com duas exposições bem diversas que partilham, porém, um traço que vem sendo comum: a aposta em ancorar o seu trabalho nas “funções fundamentais dos museus” [1]: a preservação do património, o estudo dos acervos, a comunicação (interpretação e disseminação ativa do conhecimento sobre as coleções) e a educação.
Teatro de Mistérios: temas da Natividade nas coleções do MNMC é a exposição que está patente até ao próximo dia 11 de janeiro de 2026 e, por isso, objeto deste primeiro texto; e, ainda, Diálogos: a coleção Calouste Gulbenkian no Museu Nacional de Machado de Castro, a que conto regressar em breve.
Desde que realizou, em 2022, o comissariado científico da exposição Resgatar a Ordem – iconografias [s]em reserva[s], Sandra Costa Saldanha (então como colaboradora, agora enquanto diretora) não se tem cansado de tirar peças das reservas desta importante instituição museológica, mantendo esse rumo: estudar e dar a conhecer as múltiplas coleções do MNMC.

André Gonçalves, Adoração dos Reis Magos (1750-1762); óleo sobre tela; Prov. Real Colégio Ursulino das Cinco Chagas, Vila de Pereira; Col. Museu Nacional de Machado de Castro. Foto © Paulo Pereira Bastos.
Em Teatro de Mistérios ela e a sua equipa provocam um diálogo entre algumas das coleções do MNMC, propondo-nos, assim, um olhar diferente sobre um conjunto de peças do ciclo da Natividade: das 45 em exposição, 42 saíram das reservas! Trata-se de obras de pintura (sobre madeira e tela), escultura (em pedra, madeira e barro) e um livro, numa cronologia que nos faz viajar do início do século XVI ao final do século XVIII, com peças de seis coleções resultantes de aquisições ou doações, bem como provenientes de diversas instituições religiosas de Coimbra, Évora, Lisboa, Louriçal e Tentúgal.
Desta última localidade chegou-nos o livro, acima registado, produzido em 1665 na oficina de Plantin-Moretus (hoje Museu e bem inscrito na lista do património mundial da UNESCO), em Antuérpia. Destaco esta peça, por me parecer reveladora do conhecimento, da capacidade económica e do gosto do encomendante (evidenciando um dos modos de circulação dos modelos iconográficos): a oficina, fundada no século XVI por Christophe Plantin e seu genro Jan Moretus, rapidamente se transformou num importantíssimo centro impressor europeu, o primeiro com escala industrial [2] .

Missal In Nativitate Domini. Antuérpia: Oficina Plantiniana Balthasar Moretus, 1665; papel; veludo, prata branca relevada, recortada e vazada. Prov. Convento de Nossa Senhora do Carmo, Tentúgal; Col. Museu Nacional de Machado de Castro. Foto © Maria do Céu Ferreira
O ciclo da Natividade é o tempo que, grosso modo, vai do Advento até à Epifania [3] , marcando o início do ano litúrgico católico, que terá o seu auge nas celebrações da Páscoa: o facto de serem momentos tão marcantes da vida de Cristo, transpostos para a história da Igreja como momentos charneira de cada ano litúrgico explicará a importância que ganharam no discurso catequético ao longo dos séculos. É, também, essa centralidade que faz com que sejam convocados todos os recursos possíveis para a transmissão da mensagem que, neste caso, a Igreja Católica entende como fundamental. De entre esses recursos, os theatrales ludi, teatros de “mistérios”, interessam-nos sobremaneira, dada a sua longa tradição dramática, bem como a sua plasticidade, que terá inspirado muitos artistas, dos mais populares aos mais eruditos, em todos os tempos.
Luiz Francisco Rebello, referindo-se à relevância do teatro de “mistérios”, afirma que, na segunda metade do século XIII, Afonso X, o Sábio (rei de Castela e Leão entre 1252 a 1284), pela “[…] «Lei das Sete Partidas», do mesmo passo que vedava aos clérigos fazerem «jogos de escárneo», assistirem a eles ou consentirem que se fizessem nas igrejas, autorizava a representação do «nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, em que se mostra como o anjo veio aos pastores e lhes disse como era Jesus Cristo nascido; e outrossim de como os três reis magos o vieram adorar; […] tais coisas como estas, que movem o homem a fazer bem e a haver devoção na fé, podem fazê-las, mas devem fazê-las compostamente e com grande devoção». Daqui resulta que a condenação dos theatrales ludi se não estendia à evocação dramática […] dos dois grandes mistérios da cristandade: a Incarnação e a Ressurreição.” [4] Rebello acrescenta ainda que, dadas as relações próximas entre as coroas castelo-leonesa e portuguesa, o mais natural seria que tais representações tivessem também lugar nas catedrais e nos mosteiros lusitanos.[5]

António Ferreira (atr.), Presépio, 1700-1750; Terracota policromada; Prov. Convento do Salvador, Évora, Col. Museu Nacional de Machado de Castro. Foto © Nuno Saldanha.
Nestes “dispositivos cenográficos cada vez mais elaborados”, como se afirma na folha de sala da exposição, têm lugar de destaque “[…] os presépios – uma das manifestações mais originais da arte portuguesa […]”. Assim, espelhando “práticas devocionais e dinâmicas de encomenda que moldaram a criação artística e o imaginário cristão – particularmente significativas no contexto das Ordens Religiosas”, Teatro de Mistérios propõe ao visitante uma leitura crítica das peças expostas, mostrando-nos, pelo “confronto de diferentes épocas, linguagens plásticas, suportes e materiais”, o quanto elas são testemunhas “da circulação de modelos iconográficos e da persistência de esquemas formais, [e] traduzem ainda a constante reinvenção de um tema intemporal, fruto de novas sensibilidades e diretrizes litúrgicas ao longo da História.”
Uma nota final: fico sempre desapontado, quando exposições com esta qualidade (apesar de pequena, por só ocupar uma sala) não têm um catálogo, por simples que seja, a acompanhar e se ficam por uma folha de sala: bem sei das dificuldades económicas das instituições, mas eu preferiria pagar um bilhete (ainda que um valor quase simbólico) e ter catálogo que pudesse comprar, do que ter entrada gratuita e não poder usufruir, de modo mais pleno, do conhecimento acumulado pela investigação que suportou a preparação de uma exposição como esta.

Regresso do Egito (1775-1800); Terracota policromada, cera, vidro e madeira; Prov. Convento do Desagravo do Santíssimo Sacramento, Louriçal; Col. Museu Nacional de Machado de Castro. Foto © Sandra Costa Saldanha.
Notas
[1] UNESCO. Recomendação relativa à proteção e promoção dos museus e das coleções, da sua diversidade e do seu papel na sociedade – Aprovada em 17 de novembro de 2015 pela Conferência Geral da UNESCO em sua 38ª sessão. Paris: UNESCO, 2015. (©2017, Instituto Brasileiro de Museus), consultada em linha a 29 de dezembro de 2025, em https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000247152
[2] https://museumplantinmoretus.be/fr
[3] “Advento: Do adventus latino (vinda, chegada). Diz-se do tempo de preparação do Natal, que constitui uma unidade dinâmica com o próprio Natal e Epifania, celebrando assim a manifestação do Senhor na nossa história” cf. Aldazábal, José – “Advento”, in: Dicionário elementar de liturgia. Consultado em linha a 23 de dezembro de 2025, em https://www.liturgia.pt/dicionario/dici_ver.php?cod_dici=9
[4] Rebello, Luiz Francisco – O Primitivo Teatro Português (Biblioteca Breve – volume 5). Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa – Secretaria de Estado da Investigação Científica. 1977, pp. 18-19.
[5] cf. Idem, Ibidem, p. 19.
Teatro de Mistérios: temas da Natividade nas coleções do MNMC
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
Terça-feira a domingo, 10h00-18h00.
Última entrada: 17h30; Encerramento da loja: 17h45
Até 11 de Janeiro










