O fascismo recauchutado

| 5 Mar 2024

Nazismo. Berlim. Memorial. Holocausto

Memorial Gleis 17, (Cais 17) junto à estação de S-Bahn de Grunewald, Berlim. Daqui partiam muitos judeus para os campos de concentração ou extermínio. Foto © Helena Araújo

 

A hostil ideologia fascista está de regresso, depois de algumas décadas de adormecimento letárgico, fruto da catástrofe que as suas ideias e práticas provocaram na Europa da primeira metade do século XX. Com a sua derrota no final da Segunda Guerra Mundial, todos julgávamos que o seu espetro sinistro estava definitivamente afastado. Infelizmente, estávamos enganados. Ei-lo que volta a atormentar a velha Europa, cansada e desiludida.

Parece que o recrudescimento dos fascismos é fruto da desilusão dos cidadãos em relação ao rumo da Europa. Durante décadas, o Velho Continente prosperou. As ideias social-democratas e democratas-cristãs deram-lhe um impulso humanizador, tanto na defesa intransigente das liberdades individuais e do direito dos povos a participar na vida política das nações, como na promoção dos direitos sociais e do bem-estar dos seus cidadãos. A partir dos anos setenta, sobretudo, a globalização económica, comercial e financeira, a par das violentas investidas das correntes neoliberais vieram desmantelar o estado social e empobrecer as populações, ao mesmo tempo que promoviam a acumulação da riqueza nas mãos de um pequeno número de pessoas. Em virtude disso, as gritantes desigualdades sociais e económicas são o cancro das sociedades contemporâneas. Foi este caldo perigoso de ameaças ao bem-estar dos cidadãos que provocou, em boa medida, o apoio a ideologias extremistas que prometem modificar, com mão de ferro, as estruturas da sociedade.

Mas o remédio, quando desadequado, pode matar o paciente, em vez de o curar. Os fascismos extremistas que pululam um pouco por toda a Europa, embora prometam o que sabem não poder nem querer cumprir, levam o Velho Continente para o beco sem saída do ódio, do autoritarismo, da negação dos direitos básicos de cada cidadão e da atrofia da democracia liberal que tanto nos custou a conquistar. Com todos os seus defeitos, a democracia liberal é, até ao momento, o único sistema que promove o respeito fundamental pela dignidade da pessoa humana, seja ela qual for. Em sentido inverso, os fascismos são matricialmente autoritários, reduzindo ao mínimo as liberdades individuais e cerceando qualquer oposição política. Fudam-se na ideia de que um determinado líder, endeusado pelo partido do sistema, tem em si a solução para todos os problemas da nação, não podendo as suas propostas ser sujeitas à crítica dos demais. O líder é um deus que dirige com punho cerrado os destinos da nação. Como qualquer deus, não admite o contraditório nem a oposição às suas políticas por mais calamitosas que possam vir a revelar-se.

Os fascismos defendem a ideia da desigualdade fundamental entre as pessoas: o líder é superior aos demais e essa superioridade é indiscutível, os membros da comunidade LGBT+ são seres inferiores e doentes que urge tratar ou eliminar, determinadas etnias ou “raças” são subalternas em relação à etnia dominante, o macho, enquanto esteio da vida familiar e social, é superior à mulher… Uma tal visão assimétrica das relações sociais pretende remover as conquistas que as últimas décadas vieram oferecer às sociedades abertas. De uma penada, pretendem recuperar ideais patriarcais atualmente em declínio e instaurar uma profunda divisão de poderes fundada no sexo, na “raça”, na ideologia partilhada, etc.

O terceiro eixo que constitui o ideário fascista é o nacionalismo extremo. Não se trata do natural amor à terra onde se nasceu, mas da afirmação da superioridade incontestável da própria nação por comparação com as demais, produzindo, assim, relações tensas e beligerantes nas relações internacionais com vista a uma eventual conquista de novos territórios no mapa do mundo. O expansionismo fascista foi o rastilho para o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, com todas as consequências calamitosas incluindo a própria destruição das sociedades europeias.

Os fascismos constituem, portanto, ideologias agressivas e violentas. Fomentam o ódio entre as pessoas em vez do amor e da compreensão mútua. Ao erigirem o outro — seja ele estrangeiro, imigrante, judeu, cigano ou qualquer um que se diferencie da massa indistinta — como inimigo, estimulam fraturas no tecido social e provocam injustiças inaceitáveis.

Se há ideologia contrária ao ideário cristão é exatamente o fascismo, pelo seu desprezo pela dignidade inalienável de todas as pessoas, qualquer que seja a sua origem e a sua pertença, bem como pela promoção permanente do ódio e do desprezo pelo outro.

O princípio fundamental do cristianismo é o princípio do amor. E não se trata apenas do amor circunscrito a um determinado grupo ou fação. É o amor universal e sem limites. Todos os seres humanos, pelo facto de terem sido queridos por Deus, são sua imagem e semelhança, sendo, portanto, todos iguais em dignidade e direitos. Todos somos irmãos. Não há, entre os homens, diferenças que lhes imponham limites ao convívio pacífico com os demais. Somos chamados a construir uma grande fraternidade de pessoas que se amam e se respeitam. Que relação existe entre esta visão da vida e das relações humanas e a demonização dos imigrantes, dos grupos racializadas, dos estrangeiros, dos membros da comunidade LGBT+? É, por isso, surpreendente que pessoas que advogam a sua pertença ao cristianismo possam assumir conceções fascistas ou afins. Foi surpreendente no passado. É surpreendente no presente.

Porém, muitos do que defendem ideologias neofascistas recorrem a uma certa imagem do “cristianismo” — retrógrada, ultraconservadora, legalista, opressora — para fazer valer os seus pontos de vista. E o problema é que alguma hierarquia religiosa se deixa deslumbrar pelo seu discurso encantatório, sobretudo no que se refere à suposta defesa dos “valores da família” (o que quer que isso possa ser), à oposição intransigente ao aborto e à eutanásia, à ostracização dos membros da comunidade LGBT+, etc. Tal como no passado, uma certa hierarquia sonha ainda com a repristinação da cristandade medieval, como se essa sociedade tivesse alguma vez cumprido o ideal da vida autenticamente cristã.

Vejo com muita preocupação o crescente apoio da população portuguesa ao Chega. Aberta ou encapotadamente, o Chega é um partido de filiação fascista. Todo o seu discurso o sugere. Apela aos nossos medos mais primários e defende sociedades autoritárias fundadas em valores ultrapassados e decadentes. Ao contrário do que diz o Chega, o imigrante não é o culpado da situação a que chegou o país, bem pelo contrário. Como o não é o cigano. É com políticas de inclusão ativa que se resolvem os problemas sociais, não é com apelos ao ódio e à expulsão do outro.

A democracia é um tesouro em vasos de barro. Com todos os defeitos que tem, é o único sistema que nos permite introduzir alterações sempre que lutarmos por elas e fizermos valer, no respeito pela liberdade dos outros, os nossos pontos de vista. Nada disto nos é permitido nas ditaduras. Porém, é também um sistema frágil, uma flor que precisa de ser regada todos os dias. Os problemas da democracia não se resolvem com a sua supressão, mas com o seu aprofundamento. Mais democracia é a solução para as crises das sociedades democráticas, não menos.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

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