O “fecho” de uma Casa Geral aberta “urbi et orbi”

| 4 Mai 20

Novos superiores dos Missionários Espiritanos Novos superiores dos Missionários Espiritanos, na casa geral da congregação no início deste ano: uma casa fechada, mas sempre aberta ao mundo. Foto © Tony Neves

 

Acabou o encontro dos novos Superiores Maiores dos Missionários Espiritanos vindos dos quatro cantos do mundo a Roma para “aprender” algumas ferramentas de liderança e espiritualidade. Partiram na véspera do “fechamento” do espaço aéreo. Caiu-nos em cima o estado de emergência que nos blindou em casa, com o lock down, a 9 de março. Confinados a quatro paredes, somos 18 de 14 países, o mundo parece que está sempre todo nesta casa aberta urbi et orbi (à cidade e ao mundo). Mandámos o nosso irmão médico para assistir os sem abrigo de Paris. Acompanhámos os passos sofridos e eloquentes do Papa Francisco nas ruas vazias e na Praça de Pedro. Rezámos mais. Vivemos, ao longe, as alegrias e os dramas dos espiritanos espalhados por mais de 60 países. Com o padre Artur Teixeira, comecei o projecto A Quatro Mãos em clave de Fá, que se tornou, no domingo de Páscoa, um projecto em ‘clave de Sol’!

 

Sozinhos em casa

Parece título de filme para entreter às portas do Natal, mas traduz o que a comunidade da Casa Geral dos Missionários Espiritanos viveu após a declaração do estado de emergência em Itália, a 9 de março. Logo depois da China, foi a Itália o primeiro país europeu a ser brindado com um surto enorme de covid-19. Aqui o vulcão vomitou lava e queimou tudo, a partir do Norte. Foi como que um furacão que varreu a estabilidade e a segurança de um país e de um povo. A Lombardia foi o epicentro de um terramoto a rebentar com qualquer escala de Richter! As estatísticas do primeiro mês foram de deitar abaixo qualquer sonho de futuro “normal” para os próximos tempos.

Sendo 18 padres e irmãos de 14 países (Portugal, França, Suíça, Irlanda, Escócia, Polónia, Brasil, Estados Unidos, Camarões, Congo Brazzaville, Congo Kinshasa, Nigéria, Moçambique, Tanzânia) vivemos, mais do que nunca, a riqueza da diversidade.

Diariamente partilhamos as orações, as refeições e muito tempo de informações sobre o andar do mundo e os problemas que vão afectando os nossos confrades presentes em mais de 60 países nos cinco continentes. Estamos com os corpos confinados, mas com o coração sempre a viajar à volta do mundo, graças à força que os media e redes sociais têm de nos fazer entrar informação (verdadeira ou fake) pelos olhos dentro.

 

Quaresma tensa e intensa

Na Quaresma, vivemos com intensidade a Campanha da Fraternidade no Brasil com o tema ‘Viu, sentiu compaixão e cuidou dele’, numa alusão clara à parábola do bom samaritano. E todo o Brasil olhou para a figura emblemática da Santa Dulce dos Pobres, conhecida como o Anjo Bom da Bahia, canonizada pelo Papa Francisco durante o Sínodo da Amazónia.

Um dia ela disse: “Muita gente jogada fora vem bater à nossa porta. Eu não vou jogar fora outra vez!” Escutámos o grito de D. José Ornelas, vindo de Setúbal: “Sem cuidarmos uns dos outros, o mundo vai cair-nos em cima.” D. Tolentino recordou-nos que “os lugares de silêncio são terras de ninguém, como o sábado santo”. E ficamos felizes e tranquilos quando se lê a cantora Carminho a garantir que “nós somos grandes reservas de amor!”

Mas guardamos como sugestão de futuro o alerta lançado por Daniel Nahal: “Depois do coronavírus seria um erro voltar ao sistema económico vigente.” E retivemos o provérbio sufi que Anselmo Borges citou na sua crónica no DN: “O que dás é teu para sempre. O que tens guardado está perdido para sempre!”

 

Os silêncios eloquentes de Francisco

O mais marcante foi acompanhar o Papa Francisco. Primeiro na sua viagem solitária pelas ruas vazias de Roma, habitualmente sempre apinhadas de turistas. Foi à igreja de S. Marcelo, rezar junto do crucifixo que tem “escutado” as orações em tempo de peste, desde o século XVI, para pedir a protecção de Cristo para a cidade e para o mundo. De lá seguiu para Santa Maria Maior para confiar Roma à padroeira.

Mas mais emocionantes foram a grande Oração da sexta-feira antes do Domingo de Ramos, numa Praça de S. Pedro vazia, com um Papa à chuva, a dizer ao mundo que “estamos todos no mesmo barco e que ninguém se salva sozinho!” Depois, a Via Sacra na Sexta-feira Santa e os grandes desafios lançados na Vigília e no Domingo de Páscoa.

Emocionei-me várias vezes ao ver reunidos todos os meus confrades diante da televisão, alguns de joelhos durante os momentos mais provocadores destas celebrações do Papa que teima em ser “pastor com o cheiro das suas ovelhas”, sobretudo das que mais sofrem nas periferias e margens do nosso mundo.

 

Médico enviado às periferias de Paris

Padre Marc Tyrant/Missionário Espiritano. Médecins du Monde Irmão Marc Tyrant, dos Missionários Espiritanos e membro dos Médecins du Monde, na sua acção junto dos sem-abrigo em Paris. Foto LouizArt/Médecins du Monde

 

Uma das maiores seguranças da comunidade estava no nosso “médico residente”, o irmão Marc Tyrant, 2º assistente geral dos Espiritanos. Estudámos juntos em Paris e a nossa amizade tem mais de 30 anos. Confidenciou-me desde o início da pandemia que não queria ficar fechado em casa, mas ardia-lhe o coração para se juntar aos “seus” Médecins du Monde com quem já fez inúmeras missões por esse mundo além.

O superior-geral autorizou a sua saída e tive a alegria de ir levá-lo ao aeroporto para que ele rumasse a Paris num avião praticamente vazio. E ele, discretamente, lá vai partilhando o trabalho arriscado de acompanhar doentes sem-abrigo e nalguns bairros muito pobres das complexas periferias de Paris.

Muitas das pessoas que os Médicos do Mundo estão a tratar passariam ao lado de qualquer possibilidade de atendimento nos hospitais. Dizia-me: “Se, como espiritanos, somos para os mais pobres e mais abandonados, não poderia ter feito melhor opção.”

 

Projecto A Quatro Mãos

O padre Artur Teixeira foi presidente da Conferência dos Religiosos de Portugal (CIRP) e é hoje membro do conselho geral dos Missionários Claretianos. Amigos de longa data, fomos sempre trocando muitas mensagens e ele avançou com a ideia de lançarmos, via Facebook, o projecto A Quatro Mãos em clave de Fá.

A ideia era, de dois em dois dias, publicar uma reflexão que ajudasse a viver estes tempos de pandemia, mas com os olhos já colocados no futuro. O primeiro texto foi dado à luz a 20 de Março e não parou mais.

Tentamos ser provocadores e, desde a Páscoa, entrámos em “clave de Sol”, o Sol da Ressurreição, apontando propostas claras de mudanças a implementar no pós-covid.

A grande sugestão que damos – conscientes da sua utopia – é a da instituição de um Dia de Emergência Mundial. A ideia é de parar tudo um dia por semana, para descanso do planeta e valorização da família nuclear.

Temos consciência da ousadia da petição, mas uma decisão deste género, tomada à escala do planeta, mudaria completamente o estilo de vida das pessoas e defenderia a terra como casa comum, assente na convicção expressa pelo Papa Francisco na Laudato Si de que “tudo está interligado” (LS 240).

 

Cá dentro, mas lá fora!

P. Elson Lopes, Missionários Espiritanos. São paulo, Brasil P. Elson Lopes, dos Missionários Espiritanos, numa manifestação pelo direito à habitação em São Paulo (Brasil). Foto: Direitos reservados

 

Uma casa geral tem por missão animar os missionários espalhados pelo mundo. E mais: deve uni-los em torno de um projecto comum que assenta na Regra de Vida e nas decisões dos capítulos gerais e locais.

Impedidos de viajar fisicamente, a conexão com o resto do mundo tem-se feito com recurso às tecnologias da comunicação. E, desta forma, estamos longe, mas sempre perto.

Das muitas notícias que me chegaram das linhas da frente, marcou-me uma especialmente, vinda de uma das favelas de S. Paulo onde eu passei alguns dias em 2019.

O padre Elson Lopes, cabo-verdiano a morar na favela de Perus, narrava com dor o trabalho que fazem com os “sem-abrigo” da cidade. Parece ironia que sejam os pobres das favelas a entrar na cidade para apoiar os que por lá vivem na rua. Mas, nestes dias de pandemia e de ficar em casa, os sem-abrigo perderam as suas habituais formas de se alimentar… e o padre Elson lá saiu da favela para distribuir alimentação. E contava com humor irónico: “O governo manda ficar em casa. Mas de que serve esta ordem para os sem-abrigo? Fique em casa, lave as mãos… Que casa? Lavar as mãos com quê?…”

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