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António Banderas e Leão XIV
António Banderas com o Papa Leão XIV. Foto © Vatican News

Leão XIV em Madrid

O feitiço de Deus: o malaguenho Banderas a falar com o Papa

| 10/06/2026

 

Ouvi com algum fascínio, confesso, o discurso de Antonio Banderas ao Papa em representação dos artistas de Espanha no passado dia 7 de junho.

Vimos na comunicação social um Antonio Banderas envelhecido, sem dúvida, mas com a força anímica e corajosa de um grande artista. Os meus preconceitos ligavam-no a Hollywood, à sua casa apalaçada em Los Angeles, à fortuna que deve ter feito, imagino que planando no mundo com seu avião particular, deslocando-se de um lado ao outro do oceano… Um galã romântico do cinema americano, semelhante a tantos outros, um homem bonito, sem dúvida, bem latino.

“Um grave acidente cardíaco aos 62 anos fê-lo parar na sua corrida: Uma epifania, uma revelação. Algo de inesperado que o fez pensar no sentido da vida que levava, correndo em busca de quê… Mas para o grande mistério foi o facto de Banderas ter decidido regressar às origens, à família que o criara, à terra malaguenha que o viu crescer, à cultura local e mesmo religiosa que provavelmente nunca abandonou por completo.” Foto retirada do vídeo no youtube.

Reconheço a sua ousada teimosia em se guindar aos olimpos da fama, com o seu sotaque espanhol e tez trigueira. Sabia da grande e antiga amizade com Almodóvar, realizador com raízes andaluzas comuns. Por exemplo os filmes O Quarto ao Lado (2024), Dor e Glória (2019, também uma espécie de regresso às origens), Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), qualquer um deles filmes comoventes e abordando as chamadas “questões fraturantes”.

Mas Banderas deixou-se seduzir por Hollywood e por lá foi ficando. Um grave acidente cardíaco aos 62 anos fê-lo parar na sua corrida: Uma epifania, uma revelação. Algo de inesperado que o fez pensar no sentido da vida que levava, correndo em busca de quê… Mas para o grande mistério foi o facto de Banderas ter decidido regressar às origens, à família que o criara, à terra malaguenha que o viu crescer, à cultura local e mesmo religiosa que provavelmente nunca abandonou por completo. James Joyce chamar-lhe-ia uma “epifania” e nós sabemos bem a raiz cristã dessa palavra: uma manifestação de Deus: a manifestação divina de Jesus, o Cristo, aos povos gentios.

De regresso “à terra” Banderas retoma a dedicação ao seu amado teatro fundando o próprio teatro, o Teatro del Soho. É proprietário dessa sala, onde atua, produz e acompanha espetáculos. Mantém-se em contacto com as suas raízes e cria cultura e sentido de vida para si e para os outros, especialmente atores, dançarinos, encenadores. Faz filantropia: apoia a luta contra o cancro no pâncreas – o cancro mais silencioso – apoiando a investigação do cientista espanhol Mariano Barbacid. No discurso a Leão XIV fala na sua mais recentemente encenada peça musical Godspell que, segundo explicou, é “o feitiço de Deus” (Hechizo de Dios). “Encarar a morte fez-me refletir e perceber que, na realidade, sou um ator de teatro”, explica. “Nunca fui tão feliz”, concluiu ele.

 

O feitiço de Deus

António Banderas

‘Que feitiço é esse a que Banderas se refere quando diz “Estou aqui hoje [confessando] ter sido vítima do feitiço de Deus”?’ Foto Retirada do vídeo no youtube.

Regresso ao discurso. Que feitiço é esse a que Banderas se refere quando diz “Estou aqui hoje [confessando] ter sido vítima do feitiço de Deus”? Um feitiço indica algo de “mágico”, um encantamento, uma premonição, um destino, um fado, como que “o rogar de uma praga”: lembramo-nos do feitiço da fada má no conto tradicional “Cinderela” ou o da “Gata Borralheira”.

Não ouso uma interpretação cabal e rigorosa para este “feitiço de Deus”. Mas intuo que o feitiço de Deus será algo que acompanhou Banderas toda a vida – dada a religiosidade da sua família – e que foi deixado em estado de latência dadas as escolhas de vida que foi fazendo. Mas a “epifania” que viveu com a sua doença súbita fê-lo parar para repensar o sentido daquilo que ia escolhendo fazer. Qual o sentido da vida? Qual o sentido da finitude, da inevitabilidade da morte? O que está para além de tudo? O que é o amor? Aí Banderas toca o transcendente: que Deus é esse que “está em cada partícula, em cada molécula de cada gota d’água, de cada mar, de cada pétala de rosa, de cada batida de coração, de cada suspiro”?

 

Um Cristo que ama

Banderas revisita um Cristo – esse que nos veio ensinar a amar – “a figura mais representada na história da arte”, (…) “o grande protagonista da história de vida” (incluindo a sua). A Semana Santa em Málaga, afirma, não é mais que revisitar esse “ícone de paz, amor e sacrifício, envolto em um mistério inexaurível”. Que significa verdadeiramente amar o seu próximo como a si mesmo”? interroga. O Cristo crucificado da Semana Santa. Ou o Cristo vivo, o da Ressurreição, o da vida eterna. O Cristo que é “revolução” e Amor. Jesus o Cristo de todos nós, humano como nós: Jesus o Cristo que é Bondade, Verdade, Justiça… a Beleza Suprema. Deus.

 

Uma Virgem-Mãe da Esperança

“A Virgem da Esperança de tanta devoção em Málaga, é uma Maria, uma doce Nossa Senhora, que traz esperança apesar das lágrimas, da dor, da perda.” Foto: Virgem da esperança. Basílica de Macarena, Sevilha.

Banderas refere a sua infância e os olhos da sua mãe enquanto “ela fixava o olhar e o coração devoto na Virgem da Esperança que passava em seu trono naqueles anos distantes”. A Virgem da Esperança de tanta devoção em Málaga, é uma Maria, uma doce Nossa Senhora, que traz esperança apesar das lágrimas, da dor, da perda. É uma Senhora de compaixão (cum-passio), daí não ser uma Senhora triunfante: é uma Senhora que escuta as nossas lágrimas, que sofre connosco e por isso chora, que nos ampara e sustenta, e intercede pelas nossas vidas sinuosas no caminho para Deus. Podemos contemplá-la e chamá-la de Virgen de Lágrimas y Favores, ao jeito dos andaluzes: mas o favor é o dom gratuito, daí que, a meu ver, não seja necessário pagar-lhe favores. Antes contemplá-la como a um ícone cujos olhos nos vão acompanhando quando nos movemos no espaço. As vozes que acompanham a Senhora Malaguenha lembram-nos a “esperança por algo mais”.

Confiamos que não estamos sós porque ela também chorou e chora connosco. Há tradições ligadas a esta Virgem concreta – foi salva, em 1936, pelos populares durante a guerra civil espanhola – tendo sido abençoada pelo Papa João Paulo II. O transporte nas procissões da Virgem de cinco toneladas exige mais de 270 homens e, segundo alguns, o movimento cadenciado do seu transporte sugere as ondas do mar [Banderas é um dos que, anualmente integra esse grupo]. Penso que é bonita a imagem desta devoção partilhada por homens e mulheres em conjunto, remando sincronizados.

 

A arte que nos salva

A Arte “não é apenas beleza”. “A arte é uma pergunta”, lembra Banderas, é “o espelho que reflete vidas que passam desapercebidas por nossos semelhantes feridos”, (…) “é um alerta para sociedades que se acostumaram à injustiça”. A arte aparece como “uma alternativa à violência”. E continua:

(…) “Assim como o próprio Cristo, o artista deve viver com coragem e não deixar de ser um agente crítico da sociedade, da própria arte e da própria religião”: o artista comprometido, engagé, transformador da vida, como tantos têm sido ao longo da sua existência. A arte “é uma revolução”. A arte [nos] salva.

Leão XIV não é apenas um Papa que visita Espanha: “é um gesto”, afirma Banderas: “um gesto de escuta, de proximidade, de diálogo com a sociedade civil, e a sociedade civil sem dúvida lhe é grata”. É a visita do vigário de Cristo na terra. Um pastor que semeia arte que “é obrigado a olhar, a ver, a tentar compreender as complexidades da alma humana”. Relembro o saudoso Papa Francisco que abriu tantos caminhos para nos ajudar a encontrar “o sentido da vida e da dor “, a recuperar “a profundidade da alma”, que abriu caminho a Leão XIV para continuar o seu legado: “um caminho que nos pode conduzir ao espiritual, que nada é mais do que a fraternidade que pulsa no coração de cada ser humano e no misterioso coração de Deus”.

 

Antonio Banderas ao Papa: “Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus”

Santo Padre.

Autoridades.

Caros amigos.

Existem encontros que não são medidos apenas pelo tempo, mas também pelo seu significado.

Sua presença em Madrid hoje, Santo Padre, não é apenas uma visita. É um gesto. Um gesto de escuta, de proximidade, de diálogo com a sociedade civil, e a sociedade civil, sem dúvida, lhe é grata.

Esse diálogo, por vezes, precisa ser reforçado através do uso de uma linguagem comum.

Essa linguagem é, e tem sido em muitas ocasiões ao longo da história, arte. A relação entre a Igreja Católica e a arte não só tem sido frutífera: tem sido decisiva. Não temos receio de errar ao afirmar que a Igreja foi a maior produtora de arte na história da humanidade.

No cerne desse impulso criativo está aquele que transcende séculos, estilos e culturas, e que, sem dúvida tem sido a figura mais representada na história da arte: Jesus Cristo. O grande protagonista da história da vida. Em todas as artes, Cristo é uma presença constante. Não como uma imagem repetida, mas como um ícone de paz, amor e sacrifício, envolto em um mistério inexaurível.

Eu poderia reduzir minha intervenção simplesmente a listar os grandes artistas que, com suas obras, amplificaram a mensagem da palavra de Jesus.

Eu poderia simplesmente apresentar uma série de fatos que ilustram o caminho percorrido entre a Igreja, os artistas, os intelectuais, os filósofos… mas hoje, Santo Padre, sinto uma certa obrigação de oferecer uma breve reflexão em voz alta sobre a minha própria experiência.

Para isso, preciso voltar no tempo das celebrações da Semana Santa na minha amada Málaga, na década de 1960.

Essas manifestações populares tomam as ruas, desdobrando um majestoso ritual de arte e fé, de raízes e devoção. Um poliedro multicolorido de elegante beleza, uma liturgia teatral que a cada ano transforma a cidade em um espaço onde o artístico e o espiritual se fundem.

A arte não é apenas beleza. A arte é questionamento. É reflexão. É contraste. É revolução.

E foi ali, Santo Padre, dentro desse contexto de arte popular anónima, quando eu tinha apenas 4 ou 5 anos, que nasceu em mim uma pergunta que continha apenas uma palavra: Deus?

Aos poucos, encontrei respostas, algumas tão simples quanto aquela que reconheci nos olhos da minha mãe enquanto ela fixava o olhar e o coração devoto na Virgem da Esperança, que passava em seu trono naqueles anos distantes. Ou através das vozes que cortavam o ar límpido da primavera, cantadas pelos grupos de saeta (tradicional música religiosa espanhola, muito associado à Andaluzia e à Semana Santa). Ou entre as pessoas humildes e boas da minha cidade que todos os anos saíam, e ainda saem, às ruas com o seu bairro nos ombros, carregando as imagens que as ajudam a encontrar a si mesmas enquanto buscam a Deus. E fazem isso deixando para trás o “eu”, para se apegarem ao “nós”… do “nós” passam para o “eles”, do “eles” para o “todos”, do “todos” para o mundo, do mundo para o universo, do universo para Deus, para então retornarem à terra, sentindo que Deus pode estar em cada partícula, em cada molécula de cada gota d’água, de cada mar, de cada pétala de rosa, de cada batida de coração, de cada suspiro.

Mas a arte não é apenas beleza. A arte é uma pergunta. É reflexão. É o contraste. É uma revolução É uma tensão entre o que sabemos e o que intuímos.

A arte tem sido — e deve continuar a ser — o espelho que reflete vidas que passam despercebidas por nossos semelhantes feridos. É também uma denúncia de credos vazios que se esqueceram do amor. É um alerta para sociedades que se acostumaram à injustiça.

A arte deve ser uma alternativa à violência. A todas as formas de violência.

Assim como o próprio Cristo, o artista deve agir com coragem e não deixar de ser um agente crítico da sociedade, da própria arte e da própria religião.

Santo Padre… temos uma obrigação comum. Somos obrigados a olhar, a ver, a tentar compreender as complexidades da alma humana.

Todos os seres humanos enfrentam as grandes questões da nossa existência: Quem somos nós?

Qual é o sentido da vida e da dor? O que significa amar verdadeiramente o seu próximo como a si mesmo? O que existe além?

E nessa busca, todos nós nos aproximamos, talvez sem saber, do transcendente.

Santo Padre, Num mundo acelerado, fragmentado e, por vezes, excessivamente simplificado, a arte ajuda-nos a recuperar a profundidade e a alma que nos são roubadas pelas inteligências artificiais, que deveriam estar ao serviço dos seres humanos e não o contrário.

Uma alma que nos sussurra que existe algo mais. O sussurro constante da esperança por algo mais.

Este encontro entre a Igreja e a sociedade civil não é apenas oportuno: é necessário. Precisamos continuar criando e compartilhando. Precisamos continuar fazendo perguntas.

Continuar buscando a beleza, sim… mas também a verdade. Porque onde quer que ousemos perguntar em profundidade, sempre surge um caminho, um caminho que pode nos conduzir ao espiritual, que nada mais é do que a fraternidade que pulsa no coração de cada ser humano e no misterioso coração de Deus.

“Você diz que os tempos estão difíceis. Seja melhor e os tempos melhorarão. Você é os tempos.” disse Santo Agostinho.

Santo Padre, estou aqui por causa de Godspell. Godspell é uma peça de teatro musical criada em seu país de origem. A tradução de Godspell para o espanhol é “El Hechizo de Dios” (O Feitiço de Deus). Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus.

Muito obrigado.

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante do Movimento do Graal; t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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