A 60 quilómetros a norte da Faixa de Gaza, pela costa do Mediterrâneo, a capital israelita fervilha de vida, num quotidiano em que os céus por vezes se iluminam com projéteis vindos de Gaza. A partir dos telhados de Telavive, um homem entrevista sob anonimato 24 antigos operacionais de uma unidade de elite do Exército de Israel, e aquelas palavras estilhaçam o encanto da cidade moderna que passa em fundo.
NAZA, o filme dos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
O título do filme vem da gíria militar hebraica (nezek agavi) para “danos colaterais”, civis que têm de morrer para ser atingido um alvo do Hamas, mesmo que seja um combatente quase desconhecido. É sempre melhor dizer que morreram 20 “nazas” do que dizer que morreram 20 pessoas, incluindo mulheres e crianças, esclarece um dos homens ouvidos. Outro argumenta que os “alvos” são mortos na sua casa, com a família, e não em combates. Foi assim que o exército israelita decidiu: matá-los em casa, com a família, à noite. “É mais fácil”, atira um dos antigos operacionais.
Nos apartamentos, filmados em noites límpidas ou com poucas nuvens, enquanto passam aviões, há quem limpe a mesa de jantar, quem estenda roupa ou fume à varanda, e quem veja televisão, naqueles dias centrada no massacre de 7 de outubro, no qual o Hamas matou cerca de 1200 israelitas, e na guerra lançada por Israel contra o pequeno enclave palestiniano, que resultou no genocídio em curso.
O contraste é evidente: as cenas domésticas daquelas casas, as ruas entupidas de automóveis e as esplanadas cheias de gente chocam com os episódios que aqueles militares, nos telhados dos prédios vão contando a Yuval Abraham (filmados por Rachel Szor e um “anónimo”). Eles ouviam os choros, os risos, as conversas banais de fim de dia de uma família – antes de matarem mulheres, crianças, velhos, novos.
Um dos antigos militares assume que aquilo que está a ser feito é genocídio, que ele colaborou nesse genocídio. E não há dúvidas nenhumas, como define a Convenção de Genebra: o sistema montado por Israel, demonstram-no de forma clara estes militares israelitas, visa destruir deliberadamente uma parte ou o todo do povo palestiniano, que vive encurralado em Gaza. Outro entrevistado recorda a visita que fez à Polónia, na escola, quando criança, e pergunta-se como é que o povo alemão pôde agir daquela forma. “Ainda vejo os nazis como o mal”, diz, “Mas o que é que isso significa que eu sou?”
Um dos homens fala em como se divertiam, entusiasmados pela adrenalina: “A intenção é matar. E até pode ser divertido. Cumprir missões é fixe.” Sem que as suas consciências pesassem. “Não, porque não se falava sobre isso.”
O sistema montado vive da inteligência artificial e de algoritmos que rastreiam telemóveis, mensagens e fotos dos telefones para melhor matar os membros do Hamas. Mas também seguem os telemóveis de crianças, como a filha de 12 anos de um combatente palestiniano que é o alvo espiado para perceber quando o homem chega a casa. Uma “naza”, entre os muitos milhares de “nazas”, danos colaterais, que estes 24 ex-operacionais admitem ter matado. “Ninguém se importava” com aquelas casas cheias de crianças.
Estreado em Veneza há um mês, Naza recebeu uma ovação de 25 minutos em pé, no último festival da cidade dos canais, e começou a ser visto por todo o mundo. Exceto em Israel: nenhuma distribuidora se compromete a mostrá-lo e o Governo de Netanyahu lançou a sua fúria sobre os realizadores, prometendo retirar-lhes a nacionalidade israelita.
O filme produzido pelo jornal inglês The Guardian (e outras duas produtoras) será distribuído gratuitamente em novembro no YouTube, e os realizadores esperam que assim os seus concidadãos possam ver o filme. E para entenderem que o que o seu governo está a fazer em Gaza se chama genocídio.
NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor
Documentário, Guerra, GB/EUA, 2026
80 minutos, M/14










