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Almoço do Papa Leão XIV com os pobres na Sala Paulo VI, 16 novembro 2025. Foto Vatican Media
No domingo, a Sala Paulo VI foi transformada num grande refeitório. Foto © Vatican Media

No Vaticano

O fim de semana do Papa entre estrelas de cinema e pessoas carenciadas: todos eles “testemunhas de esperança”

| 17/11/2025

Foi um fim de semana preenchido para Leão XIV: no sábado, 15 de novembro, recebeu atores, realizadores e produtores cinematográficos no Palácio Apostólico, e no domingo, 16, almoçou com mais de 1.300 pessoas carenciadas na Sala Paulo VI. Dois encontros muito diferentes, mas com pontos em comum: em ambos, o Papa ofereceu uma experiência de acolhimento, e encontrou “testemunhas de esperança”.

“Saúdo-vos com alegria, queridos amigos e amigas, e saúdo com gratidão o que o cinema representa: uma arte popular no sentido mais nobre, que nasce para todos e fala a todos”, começou por dizer Leão aos participantes na audiência de sábado, entre os quais se encontravam Cate Blanchett, Viggo Mortensen, Monica Bellucci e Spike Lee.

“Conforta-me pensar que o cinema não é apenas moving pictures: é colocar a esperança em movimento”, partilhou depois, reconhecendo que o cinema dialoga “com quantos procuram leveza, mas também com quem traz no coração uma inquietação, uma busca de sentido, de justiça, de beleza”. E essa beleza, sublinhou o Papa, “não é apenas evasão, mas sobretudo invocação”, pois “quando é autêntico, o cinema não só consola: interpela. Chama pelo nome as perguntas que habitam em nós e, às vezes, até as lágrimas que não sabíamos que devíamos expressar”.

Leão XIV manifestou, por isso, o seu apoio à indústria cinematográfica mundial, lamentando a “erosão preocupante” da frequência das salas de cinema.

Encontro do Papa com personalidades do mundlo do cinema. Monica Belucci. Foto Vatican Media

A atriz Monica Bellucci estava entre os participantes na audiência. Foto © Vatican Media

“No ano do Jubileu, em que a Igreja convida a caminhar rumo à esperança, a vossa presença de tantas nações e, sobretudo, o vosso trabalho artístico quotidiano, são sinais luminosos”, disse Leão XIV, perante o grupo de personalidades da sétima arte presente na Sala Clementina.

E assegurou: “A Igreja olha com estima para vós, que trabalhais com a luz e o tempo, com o rosto e a paisagem, com a palavra e o silêncio”. Depois, citando a mensagem do Papa Paulo VI aos artistas, no final do Concílio Vaticano II, a 8 de dezembro de 1965, em que este disse “Se fordes amigos da verdadeira arte, sereis nossos amigos”, Leão XIV manifestou querer “renovar essa amizade, pois o cinema é um laboratório de esperança, um lugar onde o homem pode voltar a olhar para si mesmo e para o seu destino”.

E instou os cineastas a não se esquivarem daquilo que chamou de “feridas do mundo”. “A violência, a pobreza, o exílio, a solidão, as dependências, as guerras esquecidas são feridas que pedem para serem vistas e narradas”, disse o Papa. E o cinema, ao “dar voz aos sentimentos complexos, contraditórios e às vezes obscuros que habitam o coração do ser humano, é um ato de amor”, concluiu.

 

A “cultura da atenção” como antídoto para a “globalização da impotência”

No domingo, seria o próprio Leão XIV a dar visibilidade à ferida da pobreza, ao assinalar o IX Dia Mundial dos Pobres – este ano subordinado ao mote “Tu és a minha esperança” – com a celebração de uma missa na Basílica de São Pedro, à qual se seguiu o almoço com mais de 1.300 pessoas carenciadas na Sala Paulo VI.

“Quantas pobrezas oprimem o nosso mundo!”, lamentou o Papa na homilia, referindo-se às pobrezas materiais, mas também morais e espirituais, que afetam sobretudo os mais jovens. Para Leão, todas têm um elemento em comum, que é a solidão, a qual pode ser superada se os fiéis forem capazes de desenvolver uma “cultura da atenção”, isto é, a capacidade de olhar para o lado e se tornar “testemunha da ternura de Deus” na família, nos locais de trabalho e de estudo, nas comunidades e até no mundo digital.

O Papa considera que a “cultura da atenção” pode ser um antídoto para a “globalização da impotência”, isto é, da crença de que a história sempre foi assim e não há como mudar. Até porque o Evangelho diz que é precisamente no meio dos grandes tumultos da história que Deus salva. E a tarefa da comunidade cristã é ser sinal vivo dessa salvação no meio dos pobres.

Leão XIV pediu então a todos os fiéis presentes na missa que se comprometessem com esta atenção, pois a “questão dos pobres remete ao essencial da nossa fé”. “Eles são a própria carne de Cristo e não apenas uma categoria sociológica”, afirmou o Papa, citando a sua exortação apostólica Dilexi te: “A Igreja, como mãe, caminha com os que caminham. Onde o mundo vê ameaça, ela vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes”.

E deixou a garantia: “Sim, diante da nossa pobreza e pequenez, Deus olha-nos como mais ninguém e nos ama com amor eterno. E a sua Igreja, ainda hoje, talvez especialmente neste nosso tempo tão ferido por velhas e novas pobrezas, quer ser ‘mãe dos pobres, lugar de acolhimento e justiça'”.

Depois da missa e da oração do Angelus, dirigiu-se à sala Paulo VI, que havia sido transformada num grande refeitório. O almoço foi organizado pela Congregação da Missão em nome de todos os missionários vicentinos do mundo, que celebram este ano o 400º aniversário do nascimento de seu fundador, e das Filhas da Caridade, que também fazem integram a família vicentina.

O menu incluía lasanha, frango à milanesa com batatas e o tradicional doce italiano babà, servidos por voluntários daquelas organizações católicas. E não foram utilizados pratos de plástico ou descartáveis, mas sim louça de qualidade, talheres e toalhas de mesa, como sinal de respeito e proximidade para com os mais necessitados. Desta forma, tratou-se não apenas de uma refeição, mas de uma experiência de dignidade e cuidado.

Almoço do Papa Leão XIV com os pobres na Sala Paulo VI, 16 novembro 2025. Foto Vatican Media 2

Tratou-se não apenas de uma refeição, mas de uma experiência de dignidade e cuidado. Foto © Vatican Media

“Com grande alegria nos reunimos esta tarde para este almoço, no Dia Mundial dos Pobres, que o meu amado predecessor, o Papa Francisco, tanto amava”, disse Leão XIV num curto discurso, despertando um caloroso aplauso de todos os presentes.

Tal como nos anos anteriores, a Santa Sé, por intermédio do esmoleiro papal, o cardeal polaco Konrad Krajewski, convidou um grupo de pessoas transgénero residentes na cidade romana de Torvaianica para o almoço.

No final, voluntários da Família Vicentina de Itália entregaram a cada convidado a “Mochila de São Vicente”, contendo alimentos e produtos de higiene, como gesto de proximidade e sinal de que haverá continuidade neste acompanhamento da Igreja aos pobres.

 

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