Ensaio

O fio cristão que prende a Ucrânia e a Rússia

| 27 Fev 2022

Publicado inicialmente no Jornal de Notícias de 25 Dezembro 2004, este texto, da autoria do jornalista Silas Oliveira, explica algumas das razões da divergência, também religiosa, entre Rússia e Ucrânia. Pelo interesse da contextualização que faz, o 7MARGENS publica-o aqui, por cedência do seu autor, que é também nosso colaborador, assinalando apenas, entre parêntesis rectos, algumas actualizações mais importantes.

O Patriarca Ecuménico Bartolomeu entrega o Thomos de autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia ao metropolita Epifânio, primaz da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em 6 de Janeiro 2019. Foto © President.gov.ua, via Wikimedia Commons

 

 

O milénio da conversão da Rússia foi solenemente celebrado [em 1988] – por toda a Rússia, decerto, mas com um significado muito especial na Ucrânia. Porque o facto que esta efeméride comemora é o baptismo do Príncipe Vladimir e do seu reino, o povo Rus’, de Kiev. Segundo a tradição, o soberano e todos os habitantes da cidade mergulharam no rio Dniepr, em 988, num grande baptismo colectivo que marca o início histórico da Ortodoxia russa.

Moscovo ainda não tinha dimensão, e era com esse povo Rus’, estabelecido ao longo da bacia do Dniepr, bem no centro da actual Ucrânia, que o Imperador de Bizâncio tinha interesse em estabelecer relações de aliança. Como noutros casos, aproximação política e conversão religiosa oficial vieram juntas.

Depois da invasão mongol de 1240, os metropolitas de Kiev começaram a mudar-se para Moscovo e o centro de gravidade da Ortodoxia eslava deslocou-se com eles. Em meados do século XV, Moscovo assume-se como “a Terceira Roma”. Este conceito é bem expresso numa famosa carta do monge Filotei ao Grande Príncipe Basílio III: “A Igreja da velha Roma caiu por causa das heresias; as portas da segunda Roma, Constantinopla, foram destruídas pelos machados dos Turcos infiéis; mas a Igreja de Moscovo, a nova Roma, brilha mais do que o Sol sobre todo o universo. Vós sois o soberano ecuménico, vós deveis segurar as rédeas do governo com temor de Deus; temei-O a Ele que vos confiou essas rédeas. Duas Romas caíram, mas a terceira ergue-se forte; uma quarta não pode haver. O vosso reino cristão jamais será dado a outro governante.”

Por outras palavras: os russos foram ucranianos antes de serem russos. O berço sagrado da Ortodoxia russa é a Ucrânia, assim como o berço sagrado da Ortodoxia sérvia é o Kosovo. O Ocidente devia prestar mais atenção à delicadeza destes laços.

Na passagem do século XVI para o XVII, em pleno desenvolvimento da Contra-Reforma, a Ortodoxia é fracturada pela instituição das Igrejas Uniatas, e a primeira de todas com este nome é precisamente a da Ucrânia, que nasce em 1596 no Sínodo de Brest-Litovsk. Kiev e a Ucrânia ocidental estavam então sob domínio polaco, e os missionários jesuítas são os artífices de uma solução que se revelou duradoura, mas persiste, até hoje, como o maior espinho nas relações entre os Ortodoxos e a Igreja de Roma. Na Europa, as Igrejas Uniatas são cisões que mantêm o rito bizantino, o calendário litúrgico juliano e o clero casado, como as Igrejas Ortodoxas de que provêm… mas aceitam submeter-se à autoridade do Papa.

O termo “uniata” é hoje evitado, como desnecessariamente agressivo, embora seja o mais antigo (foi em Brest-Litovsk que se celebrou a primeira “unia”, ou acto de adesão deste tipo). O título oficial, neste caso, é o de Igreja Ucraniana Greco-Católica.

Nos termos de um trabalho sobre esta realidade difícil, publicado, em Janeiro de 1988, pela revista francesa L’Actualité Religieuse dans le Monde (depois Actualité des Religions), o problema é que “aos olhos dos herdeiros de Bizâncio, o católico oriental não é apenas um trânsfuga, é também um representante da latinidade disfarçado de oriental.”

 

“Fronteira” incómoda entre duas forças
Bairro de Andriyivskyy Descent, em Kiev. Foto © Ilya Cher | Unsplash

Bairro de Andriyivskyy Descent, em Kiev. Foto © Ilya Cher | Unsplash

 

A Ucrânia (nome que pode ser traduzido por “fronteira”) herdou ao longo dos séculos uma posição incómoda entre duas poderosas forças de gravitação: a leste, a sua “filha” Rússia cresceu, tornou-se um gigante que já não pode levar ao colo; deste lado, vários impérios sucessivos a têm cobiçado, repartido ou tentado seduzir.

A sua identidade religiosa sofreu o mesmo destino. É verdade que em 1941 houve, entre os Greco-Católicos, quem recebesse os invasores nazis com pão e sal, tomando-os como libertadores. Foi um equívoco de curta duração, porque mesmo esses não deixaram de ser brutalizados pelo novo poder. Em 1946, Estaline cobrou o preço da traição, deportou toda a hierarquia desta Igreja e impôs aos seus crentes o “regresso” à Ortodoxia e ao Patriarcado de Moscovo. Depois do colapso da URSS, os Greco-Católicos recuperaram existência legal, mas o clima com os Ortodoxos vinha cheio de suspeitas recíprocas, agora agravadas por querelas do género de saber a quem pertence, legalmente, esta basílica ou aquele mosteiro…

A identidade religiosa do país é hoje repartida por várias igrejas que disputam o mesmo espaço, ou espaços contíguos. A Igreja Ortodoxa Ucraniana histórica, dependente do Patriarcado de Moscovo, com as suas mais de 10.300 paróquias, reclama a adesão da maioria do povo ucraniano, mas o seu número declarado de mais de 30 milhões de fiéis é contestado pelos Greco-Católicos como sendo irrealista e excessivo.

A Igreja Ucraniana Greco-Católica que, como vimos, se confunde em quase tudo com uma igreja ortodoxa (de rito oriental e clero casado, mas de obediência romana), tem como números oficiais cerca de 3.300 paróquias e um total de 5,5 milhões de fiéis.

Há depois duas Igrejas Ortodoxas nacionais, ambas nascidas no século XX e consideradas em situação canónica “irregular”, por não serem reconhecidas nem por Constantinopla nem por qualquer outro dos Patriarcados históricos. São a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala, com mais de mil paróquias, e a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev, com quase 2.800. A primeira nasceu na década de 1920 e, à semelhança da Igreja Greco-Católica, foi dissolvida pelo poder soviético por suspeita de “nacionalismo” e integrada no Patriarcado de Moscovo em 1930; é hoje a menor de todas elas. A segunda pode ser considerada uma cisão da primeira, formalizada em 1993 e hoje dirigida pelo Patriarca Filaret, excomungado pelo Patriarcado de Moscovo. [Em 2018, na sequência de um processo de aproximação, estas deram origem à Igreja Ortodoxa da Ucrânia, dirigida pelo metropolita Epifânio que, em 2019, recebeu do Patriarca Ecuménico Bartolomeu, o thomos que lhe concede a autocefalia.]

Há depois a Igreja Católica Romana propriamente dita, de clero celibatário e rito latino, com pouco mais de 800 paróquias. Seguem-as as minorias protestantes e, já fora do espaço cristão, as de confissão judaica, muçulmana e outras.

 

O Leste, “terra de missão”
A Catedral de Nossa Senhora de Kazan, em São Petersburgo, Rússia. Foto © Dennis Jarvis

A Catedral de Nossa Senhora de Kazan, em São Petersburgo, Rússia: a imagem de Nossa Senhora de Kazan foi um dos ícones que trocou de mãos entre ucranianos e russos. Foto © Dennis Jarvis

 

Depois de 1989, muitas igrejas do Ocidente partiram à conquista das almas do Leste, agora considerado “terra de missão”. Esta sobranceria não podia deixar de irritar os ortodoxos, que se consideram outra vez invadidos no seu “território canónico”. O projecto de elevação da Igreja Greco-Católica da Ucrânia ao estatuto de Patriarcado próprio, a criação de novas dioceses católicas em repúblicas da ex-URSS e outros gestos semelhantes são rotulados pelo Patriarcado de Moscovo como “proselitismo” inamistoso e invocados como razão para o “congelamento”, até hoje, de uma visita desejada por João Paulo II à Rússia [e são ainda um dos escolhos numa eventual visita do Papa Francisco].

É evidente que algumas missões protestantes têm um proselitismo muito mais agressivo e uma taxa de crescimento superior mas, na medida em que dão origem a igrejas de um tipo totalmente diferente, não se confundem com a cultura tradicional e não são vistas como “cavalos de Tróia”. Da Igreja Católica, como “Igreja irmã”, os Ortodoxos têm uma expectativa mais exigente.

Assim, o receio da “agenda escondida” de Roma e as ambiguidades da “conversão da Rússia”, incluída na mensagem de Fátima, permanecem e não são apaziguadas nem pela devolução de relíquias: as de São Valentino [em 2003], o ícone de Nossa Senhora de Kazan no final de Agosto [de 2004] e, mais recentemente, ao Patriarca de Constantinopla, os restos de São Gregório Nazianzeno e São João Crisóstomo, pilhados em Abril de 1204 pelos soldados da quarta cruzada.

A propósito: essa imagem de Nossa Senhora de Kazan (que já não é o ícone original, de 1579, mas uma das suas várias cópias posteriores) é a que foi adquirida pelo movimento católico norte-americano Exército Azul, no princípio dos anos 1960, e colocada numa capela de estilo bizantino [no edifício da organização] em Fátima à espera da “conversão da Rússia”, tendo sido oferecida ao Papa João Paulo II em 1993.

Tanto o Vaticano como os responsáveis católicos russos mantêm que tal “conversão” não tem de ser entendida como uma transferência maciça para a Igreja de Roma, mas não é esse o ponto de vista da “ala direita” católica – que temos visto em incidentes relacionados, precisamente, com o uso de Fátima. E, em última instância, o primado do bispo de Roma é o horizonte inegociável deste “ecumenismo de retorno”.

 

A mistura explosiva
Oração pela paz na Ucrânia, na Capela de Santo André, em Viana do Castelo, domingo, 27 de Fevereiro. Foto © João Basto

Oração pela paz na Ucrânia, na Capela de Santo André, em Viana do Castelo, domingo, 27 de Fevereiro. Foto © Pe. João Basto

 

Mesmo John Allen Jr., o correspondente no Vaticano do influente jornal católico norte-americano National Catholic Reporter [hoje no Crux], não disfarça o modo displicente como em Roma se vêem estas coisas. Em Novembro [de 2003], a propósito da segunda visita do Presidente Vladimir Putin ao Papa João Paulo II, a reportagem incluía uma entrevista com o padre jesuíta Robert Taft, do Pontifício Instituto Oriental, onde se discute a necessidade de uma nova geração de dirigentes ortodoxos russos, e o padre Taft admite candidamente: “Há uma certa compreensão de que a linha dura é contraproducente. A Igreja Católica, no mundo da religião, é como os Estados Unidos no mundo da política – a única super-potência. Não se pode agredi-la sem sofrer as consequências.” A frase original é: “You kick it around at your peril.”

E no seu texto de balanço do ano de 2003 é o próprio jornalista John Allen Jr. que diz: “O destino das relações entre o Catolicismo e a Ortodoxia Russa é relevante, não só devido ao apego sentimental eslavo de João Paulo, mas porque poderia desempenhar um papel importante em trazer o bloco de 250 milhões de crentes dos povos Ortodoxos do Leste, centrados na Rússia e nos Balcãs, mais firmemente para a órbita ocidental. (… / …) Em último caso, João Paulo II pode estar destinado a um papel semelhante ao de Moisés nas relações entre Católicos e Ortodos Russos; ele dirigiu as duas comunidades na travessia do deserto, mas pode caber a outrem a entrada na terra prometida.”

São estas, entre outras, as forças que dividem a Ucrânia. Uma leitura do mapa mostra que a Igreja Ortodoxa fiel ao Patriarcado de Moscovo e as populações russófonas estão claramente a leste do Dniepr e na península da Crimeia. A Igreja Greco-Católica tem a sua principal implantação a ocidente, junto da fronteira com a Polónia.

É por esta linha que passam também as divisões políticas reveladas nos últimos actos eleitorais, com o ambiente degradado até ao ponto de já se ouvirem acusações de intuitos “separatistas”. A identidade religiosa pode não ser sempre o motivo autêntico destas guerras civis, mas, uma vez desencadeadas, é aí que elas vão buscar militância e capacidade de martírio. Esta mistura é explosiva. O Ocidente devia recordar a história do Líbano, bem como a da ex-Jugoslávia, antes de seduzir os ucranianos com uma terra prometida que pode não ser tão doce como nos textos bíblicos.

Isto não nos deve fechar os olhos para o que se está a passar. As violências antigas não justificam as recentes. As fraudes eleitorais são muito graves, e a tentativa de assassínio do candidato “pró-ocidental” Yushtchenko é gravíssima. A tracção oposta destes dois centros de gravidade está a fazer dos ucranianos personagens de uma tragédia grega, caminhando para o duelo divididos entre paixão e destino.

As coisas complicam-se, na Europa, com a tendência para sobrepor as duas adesões, à UE e à NATO. Independentemente dos regimes políticos, a Rússia histórica, aquela que venceu Napoleão e Hitler (e em ambos os casos veio depois até Paris e até Berlim), nunca aceitará que a aliança militar das potências do Ocidente leve os seus tanques até às portas de Moscovo. É pedir-lhe demais.

 

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