António Montes Moreira

O franciscano que perdeu 10 jogos de futebol e chegou a bispo

| 15 Out 21

António Montes Moreira fotografado em 2019 no Seminário Franciscano da Luz, em Lisboa, para o livro Teologia Como Resistência. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

A memória de António Montes Moreira, frade franciscano, bispo emérito de Bragança e primeiro secretário da Faculdade de Teologia, que sexta-feira, 15 de Outubro, é homenageado em Lisboa, recorda que, em 1968, havia vários seminários dos institutos religiosos em Lisboa. Os alunos não se conheciam entre eles. A primeira grande oportunidade de convívio foi um torneio de futebol entre seminários, organizado pela Associação de Futebol de Lisboa, cuja classificação era publicada às terças-feiras no Diário Popular. 

Durante dois anos, António Montes foi o responsável desportivo da equipa do Seminário da Luz. Dez derrotas em dez jogos foi o palmarés de um ano. Na lógica evangélica, os franciscanos da Luz foram os primeiros classificados… 

O padre Montes, como era conhecido, agora bispo emérito, será o centro da homenagem que a Ordem Franciscana, a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP) e o Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da mesma Universidade, promovem na noite deste dia 15, assinalando o 20º aniversário da sua ordenação como bispo, a um dos “fundadores” da Faculdade de Teologia, que foi também provincial dos Franciscanos e bispo de Bragança-Miranda.

O sarau académico, presidido pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, incluirá a apresentação do volume Suplicantes veram sapientiam. Homenagem a Dom António Montes Moreira. Esta obra reúne, em mais de 600 páginas, 35 estudos de investigadores amigos, bem como uma carta do Papa Francisco e uma outra do seu antecessor, Bento XVI. A sessão, diz uma nota enviada ao 7MARGENS, abrirá e encerrará com um momento musical, com o pianista Tiago Mileu, num “velhinho piano que há décadas aguardava, silencioso, na Sala do Capítulo” do seminário da Luz, “por este momento”.

Investigador da História da Igreja em Portugal, devem-se a António Montes Moreira os melhores estudos sobre Potâmio, primeiro bispo conhecido de Lisboa, que terá vivido no século IV, entre 300 e 360. “Pensei num assunto que interessasse a Portugal e numa época em que havia vários problemas relacionados com o arianismo, uma das figuras que emerge é a do bispo de Lisboa, Potâmio”, dizia ele há dois anos, numa entrevista para o livro Teologia Como Resistência (ed. Universidade Católica)

O nó do problema

“As gandes figuras do arianismo são do Oriente, no Ocidente há poucas pessoas. As obras de Potâmio são todas ortodoxas, mas há testemunhos de que ele tinha passado ao arianismo.”

António Montes Moreira diz que no trabalho do seu doutoramento, defendido na Bélgica em 1964, “não resolve o nó do problema, mas concluí que era possível admitir um regresso dele à ortodoxia.” Mas há vários testemunhos que atestam que Potâmio foi um importante nome do arianismo, a corrente que negava a divindade de Jesus. 

Primeiro escritor cristão da Lusitânia, apesar das suspeições sobre o seu arianismo, Potâmio deixou várias obras “ortodoxas” e apenas esses testemunhos laterais o apontam como ariano – e também politicamente incapaz de resistir às pressões do Império. 

“Há uma carta de santo Atanásio e um testemunho de santo Hilário, que diz que ele participou num concílio ariano e ajudou a redigir uma declaração de fé ariana.” A polémica sobre Potâmio durou mais de dois séculos, e não foi dirimida pela investigação do bispo-historiador franciscano que ficou, no entanto, como um trabalho fundamental para compreender a personagem daquele bispo e o seu contexto.  

Depois de fazer Teologia no Seminário da Luz entre 1954-58, Montes Moreira foi ordenado padre em 1958. Trabalhou directamente com o primeiro reitor da Universidade Católica, o jesuíta José Bacelar Oliveira – o “grande construtor” da universidade, diz. “A FT começou em circunstâncias muito difíceis em relação ao recrutamento de pessoal, professores e alunos”, sintetiza Montes Moreira sobre essa fase. Os alunos, por exemplo, só começaram a chegar perto dos 200 em 1975-76, quando abriu o Curso de Ciências Religiosas. 

Esse crescimento não se faria sem polémica com o Instituto Superior de Estudos Teológicos, escola das congregações religiosas, que a criação da FT da Católica viria a extinguir em 1975: para se implantar e crescer, a FT precisava dos alunos dos institutos religiosos que, progressivamente, também com a insistência do Vaticano e dos bispos, foram colocando os seus seminaristas na UCP. “O ISET reclamava uma dimensão de liberdade teológica, mas também não era viável haver duas escolas de Teologia num país como Portugal”, diz D. António, que acompanhou ambas as escolas. 

(Alguns dos elementos biográficos deste texto são adaptados do livro Teologia Como Resistência; acerca da sessão de homenagem, podem ler-se mais informações na página do CEHR.)

 

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