O funeral da mãe do meu amigo

| 30 Nov 2023

“No funeral da mãe do meu amigo, vou chorar com ele as lágrimas que lhe sobrarem por dentro dos olhos esgotados. E vou fazer silêncio sentada no banco da capela.” Foto: Catedral de Colónia © KNA/ Theodor Bart

 

O que dizer a um amigo no enterro da sua mãe?

Talvez opte por ignorar as palavras e me fique pelo abraço apertado.

Ou talvez o abraço com palavras, sim, porque haveria de escolher um ou outro? Os dois. Não é possível que ainda não tenha sido descoberta a palavra certa para se dizer a um amigo no dia da morte da sua mãe. Qual será?

Porque é que todas as palavras parecem estúpidas em dias de funeral?

“Que Deus a tenha”, como se um filho ficasse mais aliviado ao pensar que Deus lhe roubou a mãe.

“Já descansou”. Ah, sim? Que arrogância não é a nossa em afirmar que sabemos o que é a morte. Que na morte se descansa. E se se descansar, que novidade há na frase? Que sentido faz?

E o mesmo digo para a popular frase fúnebre “Pelo menos não sofre mais.”

“Tens de ser forte, pensa em ti”; raios me partam. Tens de ser forte? Já agora, o que é ser forte? É fingir que perder quem se ama não nos dilacera até ao tutano? É a isso que se referem com a frase batida tirada dos livros de autoajuda?

Não… talvez nem o abraço, nem as palavras.

O abraço calado é tão estúpido quanto as palavras mal ditas. É como se uma pessoa fosse ao funeral picar o ponto. “Dei-lhe um abraço. Missão cumprida, ah!” Não, não, não.

Nem o abraço, nem as palavras. Nem o abraço, nem as palavras. Nem o abraço, nem as palavras.

Talvez só chore, sentada no banco da capela. Talvez só sinta a dor do meu amigo como se lhe penetrasse o peito. É que importa tão pouco o que eu faça no funeral da sua mãe. Quando é que as pessoas vão perceber que nos funerais o que conforta não são as palavras comuns repetidas e enjoadas, não é o abraço forçado aos ombros cansados do enlutado. Nos funerais, o que conforta é o silêncio. No máximo o gemido e o fungar. É mais sincero o lenço de papel a desfazer-se na mão do que a mão que dá a palmadinha nas costas a cumprir calendário.

No funeral da mãe do meu amigo, vou chorar com ele as lágrimas que lhe sobrarem por dentro dos olhos esgotados. E vou fazer silêncio sentada no banco da capela.

Vou ficar o dia inteiro, sem relógio e com prioridade.

O meu silêncio há de servir para que os nossos corações comuniquem, sem o protagonismo do abraço e da frase poucochinho. Estar sem invadir é o respeito e a noção do meu lugar. Do lugar que qualquer um devia ter no funeral da mãe de um amigo.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.

 

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