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Editorial 7M

O funeral de Ratzinger e a herança de Bento XVI

Francisco de visita a Bento XVI, em agosto de 2022, quando do consistório de cardeais. Foto © Vatican Media, via Ecclesia.

Francisco de visita a Bento XVI, em agosto de 2022, quando do consistório de cardeais: o ex-secretário de Ratzinger já afirmou que ele deve ser declarado santo rapidamente.  Foto © Vatican Media, via Ecclesia.

 

Nesta quinta-feira, 5, ocorre no Vaticano um acontecimento inédito na história do catolicismo: um papa preside ao funeral do seu antecessor. Isso deve-se ao caminho aberto por Joseph Ratzinger em 2013, quando abdicou do pontificado para que havia sido eleito em 2005. Nesse gesto exprimiu-se a sabedoria de quem assume a limitação de ser humano, ao mesmo tempo enriquecendo a visão e o exercício da função do Papa na Igreja Católica, que Francisco prosseguiu e aprofundou.

Ao contrário da opinião comum, que facilmente carimba as pessoas – e os papas, no caso – como conservadoras ou progressistas, Bento XVI não é uma figura fácil de catalogar; a profundidade e riqueza do seu pensamento e a complexidade da sua trajetória na Igreja mostram exatamente o contrário.

Nessa linha, importa considerar todo o percurso do que foi a sua vida e cujo complexo e vasto legado o 7MARGENS tem tentado recordar.

Não se pode enfatizar uma faceta do seu trajeto multiforme, esquecendo as restantes: o professor, o perito conciliar; o bispo de Munique; o cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF); e o Papa Bento XVI, que teve o gesto profético e profundamente pastoral da sua abdicação.

A linha de relativa continuidade teológico-pastoral entre João Paulo II e Bento XVI levou os setores eclesiais (e políticos) que claramente o apoiavam a resistir silenciosa, mas também ativa e expressivamente ao pontificado do Papa Francisco. Em alguns casos, esses grupos, com o apoio da extrema-direita financeira, tentaram criar o cenário dos “dois papas” ou mesmo do “papa verdadeiro” (Bento) e do “falso papa” (Francisco). Este quadro não pode ser desligado da afirmação de dinâmicas e de políticas populistas antidemocráticas, xenófobas e racistas, que criaram pontos mais ou menos visíveis com os setores eclesiais que procuraram instrumentalizar nomeadamente o Papa Bento XVI para a sua causa.

As tentativas de aproveitamento do legado Bento XVI irão prosseguir. Vários cardeais começaram já a pedir que Ratzinger venha a ser declarado santo e “doutor da Igreja”, a par de outros 36 nomes da história do catolicismo em vinte séculos (entre os quais apenas quatro mulheres).

O ex-secretário de Ratzinger veio já a público dizer que o pedido para a declaração de santidade pode ser feito em breve. Mas seria bom dar tempo ao tempo, tanto mais que hoje se considera que pode ter sido apressada e prematura a declaração de santidade de João Paulo II (na sequência do pedido de “santo súbito” logo no seu funeral), se tivermos em conta que foi depois dela que se começaram a saber pormenores sobre as falhas do Papa Wojtyla (ou, pelo menos, dos seus colaboradores mais directos) no combate à praga do abuso clerical.

É perante todos estes elementos que haverá que acompanhar com atenção o que poderá vir a significar a morte do Papa Bento XVI no campo eclesial, o que depende também da forma como se vier a consolidar no terreno a visão e a prática da sinodalidade proposta pelo Papa Francisco. E este é o nó górdio com que o catolicismo se confronta hoje em dia: perante uma das crises mais devastadoras da história da Igreja, só uma lógica em que a comunidade evangélica predomine sobre a instituição pode vir a ser solução e caminho para que o catolicismo sobreviva. Se não, ao invés de ser uma minoria que seja sal e fermento (para usar a expressão do Evangelho), será uma minoria absolutamente irrelevante para as nossas sociedades.

Aliás, é interessante notar que, se houve palavras que desapareceram nestes dias, nas notícias e análises sobre a morte de Bento XVI, elas são “sínodo” e “sinodalidade” – com outro pormenor: são raríssimas as mulheres que surgem a comentar ou, de alguma forma, a intervir no espaço público sobre o desaparecimento de Ratzinger.

Num momento em que se percebe o desgaste do próprio Papa Francisco com a oposição surda e de bastidores que lhe tem sido feita, é cedo ainda para avaliar o que será a herança de Ratzinger/Bento XVI. Tendo sido eleito para um pontificado de transição, ele acabou por assumir mais do que essa condição. Mas será o devir próximo do resto do pontificado de Francisco e de quem venha a seguir que permitirá perceber de quem terá sido o funeral deste dia 5 no Vaticano.

Requiescat in pace.

 

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