O futuro por (re)fazer

| 18 Set 2022

(Dos fragmentos que nos escapam à totalidade* daquilo com que “lidamos”)

Abraço-te, simplesmente

Abraço-te, não mereces!
Abraço-te para não mais semear dor
É de amor que precisas
…de cuidado e de afagos… mimos
Conheço-te as vulnerabilidades
Ignorei os avisos…

a sabedoria ancestral
Abraço-te para que façamos as pazes
Por um futuro com alacavumas

anunciando o devido
Por um futuro no qual os teus cheiros falem e eu escute, aceite e aja!
Abraço-te, simplesmente abraço-te
Porque o amor cura!
(Tchanaze. Inédito.)

 

Refugiados do ciclone Idai: “Andamos a provocar a terra”. Foto © Daniel Rocha, cedida pelo autor.

 

Temos estado a viver momentos de pouca menção ao coronavírus e às infecções que causa. Em Moçambique, por exemplo, depois de um período no qual se apelava à manutenção de cuidados para que não haja infecções, há poucos dias foram alargados os espaços nos quais se pode circular sem máscara. Tem sido um alívio para as pessoas, a julgar pelos comentários gerais que há nos últimos dias. O preocupante é não termos informação alguma sobre a varíola dos macacos, entre outras doenças derivadas do toque.

Conversava sobre esses dois assuntos com uma amiga que a dado momento disse: “Sabes, provocamos muito a terra.” E é verdade! Isso fez-me recordar do poema que se encontra em epígrafe: a terra anseia pelo nosso carinho, pelo nosso cuidado; entretanto, pouco parámos para agir sobre isso. E estamos todos doentes, nós e a terra.

Este texto é escrito um mês depois de termos discutido, no programa Tertúlias de sábado, no Centro do Graal, em Moçambique, o livro Arca de Não é (crónicas – 2021), da autoria de Bento Baloi. Há dias, a obra foi lançada na Feira do Livro de Lisboa. É um livro com um pano de fundo sobre o ciclone Idai, que fustigou a província de Sofala, em 2019, e cujas consequências e sequelas ainda estão à vista e por resolver: cuidar das pessoas e da terra.

Conheço Bento Baloi, desde que o li e apresentei a sua primeira obra literária Recados da Alma (romance – 2016). Ele é autor da obra No verso da cicatriz (romance – 2021). Já tinha escrito algumas peças de teatro, nomeadamente Lágrimas, Grito Humano, Adão e Eva, Amém, Alarme, Katina P, o flagelo, que relatam a sua preocupação com os problemas de Moçambique. Escreveu também os bailados intitulados O Filho do povo e Raízes e percursos.

Recados da Alma foi, para mim, uma obra surpreendente, por me ter levado a visitar a teoria literária e a (re)aprender sobre os géneros literários. Esta obra fez-me saber que existe a ficção jornalística. Até então eu não sabia. E desafiou-me nesse sentido, no de ir aprender mais sobre géneros literários e no de adquirir mais conhecimento sobre lugares e factos sociais que desconhecia sobre Moçambique. Bento Baloi aborda com mestria a cor local do meu país. Nesse míster, coloco-o a par de dois autores moçambicanos que escrevem “memórias” sobre Moçambique. Um do ponto de vista cultural, baseado nas diferentes identidades moçambicanas, Aldino Muianga e outro, João Paulo Borges Coelho, autor de romances históricos, muitos dos quais são representações de Moçambique

Capa livro Sara LEm Arca de Não é, Bento Baloi volta a surpreender-me, pelo facto de abordar as consequências do ciclone Idai, de um modo que muitos de nós descuramos: os fragmentos vividos por cada vítima desse fenómeno. Todos sabemos e, provavelmente, tenhamos participado em acções de solidariedade, visando salvar uma “massa” populacional como um todo, a totalidade. Massa, no sentido de grupos de pessoas. Pouco pensamos sobre as individualidades, sobre a pessoa em si. E Baloi, nessa obra faz-nos reflectir no quão é importante salvar o grupo, prestando, também, a atenção a algumas particularidades.

Nessa obra, na crónica intitulada “A Bolsa”, o autor narra que, em decorrência do ciclone Idai foi necessário que algumas instituições realizassem operações de salvamento da população de um determinado lugar. Diz uma das suas passagens:

[…] a menina Neta […] , de dez anos […]. “Não quer os brinquedos com que (os doadores) a encheram. Não quer as tendas que se estendem à sua frente. Não quer o pão e leite que lhe dão todas as manhãs. Quer a mãe. Quer o pai. Quer os irmãos. Chora. A pequena bolsa sempre protegida pelo sovaco.”

No contexto da operação de apoio às vítimas, uma senhora observou Neta. Constatou que ela não largava a bolsa e perguntou-lhe porque razão é que tanto chorava, sem largar a bolsa; ao que a menina respondeu, que a sua mãe, “antes de ser levada pelas águas”, disse-lhe que deveria tomar os comprimidos que nela estavam, “todos os dias”. “Se parar de os tomar, vou morrer. […]. Estão quase a acabar. Vou morrer dentro de poucos dias”, disse a menina. E, a meio da conversa entre ambas, a senhora prometeu-lhe que passariam a tomar juntas os dela. Tratava-se de antirretrovirais…

Há nessa crónica um convite para desautomatizar o olhar sobre as coisas, sobretudo, como no caso, a criar-se condições para que nos grupos das grandes equipas de salvamento, haja repartição de tarefas, de molde a captar particularidades como a de Neta, que para além do flagelo a todos visível (perda dos pais, deslocamento, fome, entre outras coisas), era portadora do vírus do sida.

A crónica faz lembrar um projecto real (pós-Idai) que existe em Moçambique desde 2019, designado Panela Aid. Segundo se conta, durante o período de re-assentamento das pessoas, em Mutarara, um grupo de pessoas que colaborou no socorro das vítimas, perguntou a um régulo o que é que era mais urgente receber como ajuda, ao que o régulo respondeu que seriam panelas, pois, segundo ele, seria digno que cada família cozinhasse e comesse da sua própria panela. Foi daí que nasceu o projecto, que conta com o apoio de moçambicanos e de portugueses, na sua maioria, mas também de pessoas de vários países do mundo, que entre outros kits, tem tentado suprir essa necessidade especificamente referida por quem precisava de ajuda.

A crónica também nos faz reflectir sobre a natureza cíclica da vida e dos fenómenos naturais. Está estudado e sabido que, na região na qual Moçambique se localiza, mais ou menos com intervalos de 20 ou 25 anos ocorrem ciclones ou depressões tropicais, mas ainda não existe uma organização institucionalizada ou da parte dos próprios cidadãos para fazer face a essa manifestação da natureza. Faltam meios, mas carecemos todos de mudança de mentalidade, face ao modo como lidamos com a terra, porque, sábia que é, até nos informa sobre alguns prováveis “imprevistos”. Além desses avisos, “provocámo-la”, claro. Cada vez mais a ionizamos e nos espantamos quando ela se revolta. Estamos todos doentes. Nós e ela…

 

* O título e subtítulo deste texto são inspirados na obra de Francisco Noa: Perto do fragmento, a totalidade: olhares sobre a literatura e o mundo.

 

Sara Jona Laisse é docente de Técnicas de Expressão, na Universidade Católica de Moçambique e membro do Graal, movimento internacional de mulheres cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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Em matéria de teologia, tendo a sentir-me mais próxima do meu neto X, 6 anos, do que da minha neta F, de 4. Ambos vivem com os pais e uma irmã mais nova em Londres. Conto dois episódios, para perceberem onde quero chegar. Um dia, à hora de deitar, o X contou à mãe que estava “desapontado” com o seu dia. Porquê? Porque não encontrara o cromo do Viktor Gyokeres, jogador do Sporting, um dos seus ídolos do futebol; procurou por todo o lado, desaparecera. Até pedira “a Jesus” para o cromo aparecer, mas não resultou. [Texto de Ana Nunes de Almeida]

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