
The Fountain of Exhaustion. Acqua Alta, de Pavlo Makov. Apresentação fotográfica do projeto do Pavilhão da Ucrânia na 59ª Bienal de Arte de Veneza, que terá início a 27 de Abril de 2022. Exposição. Foto: Direitos reservados.
Em vez de fazer a cama, em vez de abrir o frigorífico, em vez de abrir o armário à procura de uma caneca de café, em vez de colocar os cereais numa taça, em vez de tomar banho, em vez de arrumar o quarto, em vez de dar os bons dias a quem acordou mais tarde em casa, em vez de sair com a mochila e fechar a porta de casa, em vez de tudo o que é normal antes de sair de casa para o trabalho, num território compreendido por uma área de mais de 600.000 km2, na Europa de Leste – na Ucrânia –, a população vê-se assoberbada de agonia e horror perante uma visão de um cenário de guerra dentro das suas casas. Fugir para bunkers, para parques de estacionamento, para lugares ditos seguros passou a ser a norma diária, de acordo com as indicações que têm recebido nos últimos dias, nas últimas horas.
“O futuro só a Deus pertence” – não saberia quantificar o número de vezes que esta frase tem ecoado junto dos meus pensamentos. À medida que a invasão russa na Ucrânia se intensifica, rezo – rezamos – rezemos para que se alcance a paz, para que não deixemos morrer a esperança de que é possível viver num mundo seguro. O futuro é incerto.
Ainda mais incerta acaba por ser a participação da Ucrânia num acontecimento a uma escala internacional na qual todos os agentes culturais se encontram. Falo da Bienal de Veneza de 2022, que havia sido adiada devido à pandemia e será inaugurada em Abril deste ano.
Porque é que este evento é tão importante no mundo das artes? Além de se ter iniciado em 1895 e trazer uma pesada carga histórica de pavilhões nacionais e das primeiras exposições internacionais ou mundiais, é essencial porque acaba por refletir sobre as grandes questões, as grandes temáticas, as grandes dificuldades que surgem. É importante porque procura encontrar soluções através de obras de arte, através da reflexão histórica e filosófica dos projetos em exposição. Nunca nos esqueçamos de que são os artistas que sentem este “peso do mundo” e o procuram retratar ou questionar em forma de pintura, escultura, instalação, dança, música, em suma, em forma de arte.
A preparação desta exposição por parte dos curadores e artista ucranianos foi suspensa. Suspendeu-se o ato “normal” de acordar, beber café, tomar banho, responder aos emails, … e suspendem-se assim, também, porém, os trabalhos de produção e concretização de obras.
O artista Pavlo Makov, juntamente com os curadores Lizaveta German, Maira Lanko e Borys Filonenko anunciaram que não estão em perigo imediato, mas referem que a situação é crítica e muda a cada minuto. “Atualmente,” explicam, não podem “continuar a trabalhar no projeto do pavilhão devido ao perigo” para as suas vidas. Não conseguem dizer se o projeto irá para a frente, mas prometem que irão fazer tudo ao seu alcance para salvar a obra de arte produzida por Pavlo Makov, que representa o seu país no mundo da arte contemporânea internacional. Nascido em 1958 em São Petersburgo, na Rússia, ele é um artista conceptual, que se assume como ucraniano, e continua a trabalhar em Kharkiv, na Ucrânia.
Pavlo Makov estaria a criar uma nova versão da sua obra “The Fountain of Exhaustion” / “A Fonte da Exaustão” (1955), como resposta do artista à fraca gestão de água na sua cidade. Um conceito que critica as ações climáticas, fortemente presentes em Veneza, cujos canais têm alternado entre secas e inundações, no fenómeno largamente conhecido como acqua alta.
A obra será construída por uma pirâmide de 12 camadas de funis de aço com água a fluir para o que está no topo. Cada funil divide-se em dois. Ao passar pelos vários níveis, o fluxo vai abrandando e passa a gotejar, para que, no final, estas gotas encontrem um reservatório. É uma crítica ao esgotamento dos recursos da Terra, que revela o contexto sociopolítico da própria cidade onde habita o artista e onde as fontes já não brotam água.
A Bienal de Veneza enviou já uma palavra de solidariedade e de apoio à equipa curatorial da Ucrânia, reafirmando que a exposição é um “lugar onde todas as pessoas se encontram na arte e na cultura”, rejeitando todas as formas de guerra e violência, procurando, em todas as circunstâncias, a paz. Este diálogo é valioso, no sentido em que a diplomacia se faz inclusivamente através de organizações culturais centenárias estabelecidas no seio da comunidade internacional. É um ato extremoso, um ato de amor, um ato de apoio importantíssimo na História da Arte.
O futuro a Deus pertence.
O que nos cabe a nós hoje é rezar e zelar pela paz.
Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.










