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O futuro só a Deus pertence

| 28/02/2022

The Fountain of Exhaustion. Acqua Alta, de Pavlo Makov.

The Fountain of Exhaustion. Acqua Alta, de Pavlo Makov. Apresentação fotográfica do projeto do Pavilhão da Ucrânia na 59ª Bienal de Arte de Veneza, que terá início a 27 de Abril de 2022. Exposição. Foto: Direitos reservados.

 

Em vez de fazer a cama, em vez de abrir o frigorífico, em vez de abrir o armário à procura de uma caneca de café, em vez de colocar os cereais numa taça, em vez de tomar banho, em vez de arrumar o quarto, em vez de dar os bons dias a quem acordou mais tarde em casa, em vez de sair com a mochila e fechar a porta de casa, em vez de tudo o que é normal antes de sair de casa para o trabalho, num território compreendido por uma área de mais de 600.000 km2, na Europa de Leste – na Ucrânia –, a população vê-se assoberbada de agonia e horror perante uma visão de um cenário de guerra dentro das suas casas. Fugir para bunkers, para parques de estacionamento, para lugares ditos seguros passou a ser a norma diária, de acordo com as indicações que têm recebido nos últimos dias, nas últimas horas.

“O futuro só a Deus pertence” – não saberia quantificar o número de vezes que esta frase tem ecoado junto dos meus pensamentos. À medida que a invasão russa na Ucrânia se intensifica, rezo – rezamos – rezemos para que se alcance a paz, para que não deixemos morrer a esperança de que é possível viver num mundo seguro. O futuro é incerto.

Ainda mais incerta acaba por ser a participação da Ucrânia num acontecimento a uma escala internacional na qual todos os agentes culturais se encontram. Falo da Bienal de Veneza de 2022, que havia sido adiada devido à pandemia e será inaugurada em Abril deste ano.

Porque é que este evento é tão importante no mundo das artes? Além de se ter iniciado em 1895 e trazer uma pesada carga histórica de pavilhões nacionais e das primeiras exposições internacionais ou mundiais, é essencial porque acaba por refletir sobre as grandes questões, as grandes temáticas, as grandes dificuldades que surgem. É importante porque procura encontrar soluções através de obras de arte, através da reflexão histórica e filosófica dos projetos em exposição. Nunca nos esqueçamos de que são os artistas que sentem este “peso do mundo” e o procuram retratar ou questionar em forma de pintura, escultura, instalação, dança, música, em suma, em forma de arte.

A preparação desta exposição por parte dos curadores e artista ucranianos foi suspensa. Suspendeu-se o ato “normal” de acordar, beber café, tomar banho, responder aos emails, … e suspendem-se assim, também, porém, os trabalhos de produção e concretização de obras.

O artista Pavlo Makov, juntamente com os curadores Lizaveta German, Maira Lanko e Borys Filonenko anunciaram que não estão em perigo imediato, mas referem que a situação é crítica e muda a cada minuto. “Atualmente,” explicam, não podem “continuar a trabalhar no projeto do pavilhão devido ao perigo” para as suas vidas. Não conseguem dizer se o projeto irá para a frente, mas prometem que irão fazer tudo ao seu alcance para salvar a obra de arte produzida por Pavlo Makov, que representa o seu país no mundo da arte contemporânea internacional. Nascido em 1958 em São Petersburgo, na Rússia, ele é um artista conceptual, que se assume como ucraniano, e continua a trabalhar em Kharkiv, na Ucrânia.

Pavlo Makov estaria a criar uma nova versão da sua obra “The Fountain of Exhaustion” / “A Fonte da Exaustão” (1955), como resposta do artista à fraca gestão de água na sua cidade. Um conceito que critica as ações climáticas, fortemente presentes em Veneza, cujos canais têm alternado entre secas e inundações, no fenómeno largamente conhecido como acqua alta.

A obra será construída por uma pirâmide de 12 camadas de funis de aço com água a fluir para o que está no topo. Cada funil divide-se em dois. Ao passar pelos vários níveis, o fluxo vai abrandando e passa a gotejar, para que, no final, estas gotas encontrem um reservatório. É uma crítica ao esgotamento dos recursos da Terra, que revela o contexto sociopolítico da própria cidade onde habita o artista e onde as fontes já não brotam água.

A Bienal de Veneza enviou já uma palavra de solidariedade e de apoio à equipa curatorial da Ucrânia, reafirmando que a exposição é um “lugar onde todas as pessoas se encontram na arte e na cultura”, rejeitando todas as formas de guerra e violência, procurando, em todas as circunstâncias, a paz. Este diálogo é valioso, no sentido em que a diplomacia se faz inclusivamente através de organizações culturais centenárias estabelecidas no seio da comunidade internacional. É um ato extremoso, um ato de amor, um ato de apoio importantíssimo na História da Arte.

O futuro a Deus pertence.

O que nos cabe a nós hoje é rezar e zelar pela paz.

 

Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.

 

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