Peregrinar é rezar com os pés. Vem aí a primavera e muitas pessoas têm boa pedalada e apreciam os ares das montanhas e vales como pretexto para mais saúde física, para espairecer a cabeça e para acrescentar espiritualidade às suas vidas. Por isso, caminhos como os que levam a Fátima e a Santiago são muito percorridos por todas as gerações. Mas partilho uma peregrinação original e diferente. Antes de mais porque os quinze peregrinos eram de três continentes e de nove países: Angola, Camarões, Congo Brazzaville, França, Ilha Maurícia, Moçambique, Paraguai, Portugal e Rep. Democrática do Congo.
De S. Pedro a S. Paulo…

A peregrinação começou na basílica de S. Pedro. Foto: Direitos reservados
“Era uma vez, em 1553, um homem chamado Filipe de Néri…” assim poderia começar a história da peregrinação às sete igrejas de Roma, que marca a quaresma desta Cidade Eterna.
Cinco séculos depois, em sábado de quaresma, pus-me a caminho com alguns espiritanos, diocesanos e irmãs. Não precisamos de apps de telemóvel, porque os cerca de 27 kms da peregrinação estão bem registados na cabeça, resultado de peregrinações anteriores. Começamos na basílica de S. Pedro, com uma reflexão e uma curta oração feita diante do Monumento aos Migrantes, inaugurado pelo Papa Francisco. Andamos muito até ultrapassarmos, junto à pirâmide, as muralhas da cidade e avançamos para a segunda Igreja, a basílica de S. Paulo fora dos Muros, construída sobre o lugar onde está sepultado este missionário de elite, a quem alguns biblistas chamam o ‘maior missionário da história da Igreja’.

A basílica de S. Paulo fora dos Muros, construída sobre o lugar onde está sepultado S. Filipe de Néri. Foto: Direitos reservados
Quase no início deste longo percurso, atravessando as ruas estreitas do Trastevere, paramos para uma curta oração em frente à igreja de Santa Maria, aos cuidados pastorais da Comunidade de Santo Egídio. Atravessamos o rio, transpiramos e chegamos então a S. Paulo, na Via Ostiense. Ali paramos, refletimos e rezamos, como o faremos nas sete Igrejas.
Das Catacumbas a Santa Maria Maior…

Caminhando pela ‘Via delle Sette Chiese’. Foto: Direitos reservados
O ‘giro’ continua através de um percurso antigo que se chama mesmo ‘Via delle Sette Chiese’, para que não restassem dúvidas. Um longo caminho, quase sempre em contexto rural, passando por três das catacumbas mais famosas: Domitila, S. Sebastião e S. Calisto. Estes ‘cemitérios romanos’ guardam testemunhos de resistência e de coragem das primeiras comunidades cristãs e são, por isso, locais de peregrinação obrigatória para quem vem a Roma. Tive a alegria de uma visita guiada a S. Calisto, já no decurso desta quaresma. Foi uma experiência forte de encontro com vidas que apostaram no testemunho radical do Evangelho. Ao lado das Catacumbas de S. Sebastião está a 3ª Igreja do ‘giro’, dedicada a este santo que foi martirizado a golpe de flechas, segundo tradição popular muito antiga.
Percorrer a ‘Via Appia Antica’ é missão arriscada, porque ela é muito estreita e tem muitos carros a circular. E agora com tantos carros elétricos que são silenciosos, o perigo aumenta! Passamos junto à pequena igreja do ‘Quo Vadis’ onde, segundo a tradição, S. Pedro foi questionado sobre as razões da fuga de Roma e voltou atrás, sendo martirizado com outros cristãos. Chegamos à quarta igreja, a de S. João de Latrão, catedral da diocese de Roma. Rezamos fora.

Estes ‘cemitérios romanos’ guardam testemunhos de resistência e de coragem das primeiras comunidades cristãs. Foto: Direitos reservados
O calor aperta, os músculos doem e são quase 14h00 quando paramos para atacar umas fatias de pizza e avançar para a basílica seguinte, a de Santa Cruz de Jerusalém. Ali estão, segundo a tradição, bocados da cruz onde Cristo morreu, bem como outras relíquias ligadas à Paixão. Tem uma réplica do chamado ‘Santo Sudário’, cujo original está em Turim. Paramos, partilhamos uma curta reflexão, rezamos e continuamos o caminho que nos obriga a passar no cemitério mais antigo e central de Roma, ‘Campo Verano’. Ali ao lado está a sexta basílica deste ‘giro’, dedicada ao mártir S. Lourenço que – segundo conta a tradição ancestral – morreu queimado, torturado pelo fogo.
A última etapa leva-nos até Santa Maria Maior, basílica que tem o ícone de Nossa Senhora, a ‘Salvadora do Povo Romano’. Antes e depois de cada viagem pastoral, o Papa Francisco vinha ali confiar-se à Mãe e, no regresso, agradecer. Nós, como peregrinos, juntamos na mesma visita a confiança e a gratidão a Maria, Mãe da Igreja.

A igreja de Sta. Maria Maior. Foto: Direitos reservados
Pés em Roma, coração no mundo inteiro…
Na hora de organizar este ‘giro’ quaresmal, choveram ideias de toda a espécie e uma delas saiu vencedora: evocar em cada Igreja uma situação missionária de alto risco, lá onde os missionários trabalham e o povo sofre. Assim foram selecionadas sete: o Haiti, um país mergulhado num caos total, à mercê de gangues que tudo destroem ou pilham; o Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo que continua marcado por ódios étnicos que não ajudam a construir futuro; a Papuásia-Nova Guiné, onde os povos nativos continuam a ver os seus direitos espezinhados; a Argélia, onde as minorias cristãs não têm vez nem voz; a Bolívia, terra sem mar, com índices de pobreza e instabilidade política muito elevados; a Serra Leoa, muito marcada pelas desigualdades sociais e a pobreza da maioria do povo; e Taiwan, a Ilha Formosa que vive a tensão de uma permanente cobiça e ameaça de invasão por parte da China.
Peregrinação ‘ecológica’…

O grupo de peregrinos junto ao Monumento aos Migrantes, na Praça de S. Pedro. Foto: Direitos reservados
Mas voltemos à história. No longínquo século XVI, só os ricos podiam peregrinar. S. Filipe de Néri pensou num esquema que permitisse aos pobres fazer esta experiência de fé e de encontro com os outros cristãos. Naquele tempo, os pobres não tinham liberdade, não tinham dinheiro, trabalhavam noite e dia sem parar. Ora, S. Filipe, ao propor dois dias de peregrinação para os mais pobres, ‘obrigava’ os senhores e dar dois dias de férias aos seus trabalhadores, por razões de fé. Além de disso, Roma era uma cidade de maus ares, de tão poluída que estava. Esta peregrinação às raízes da Fé cristã, permitia aos mais pobres passear pelo campo, descansar, rezar e confraternizar. Os senhores sentiam-se ainda obrigados a dar alimentos para os piqueniques que se faziam durante esta ‘peregrinação ecológica’ que se tornou uma tradição muito querida dos romanos, abrangida pela indulgência plenária. Os tempos mudaram, mas estes caminhos continuam cheios de peregrinos.
Sete é um número bíblico de perfeição. Visitar, a pé, estas sete basílicas em tempo de quaresma deve traduzir a vontade dos peregrinos serem mais santos, ecológicos e desprendidos, inspirados por Maria, Pedro, Paulo, João Baptista, João Evangelista, Lourenço e Sebastião… e todos os outros cujas vidas são lembradas à passagem pelas catacumbas, esse enorme símbolo de uma fé à prova de tudo.










