
Cátia Mazari Oliveira, A Garota Não, com Ana Sofia Brito (cronista do 7MARGENS). Foto: Direitos reservados
Estive uma vez, em certa iniciativa, à conversa com Rita Blanco e elogiei-lhe o número de Globos de Ouro que havia já conquistado. Ela limitou-se a responder, por debaixo de um sorriso quase desdenhoso: “Se as pessoas soubessem como é que se ganham Globos…” Eu não sei, Rita, nem nunca vou saber. O que eu sei é que, seja como for, há forças maiores e incontornáveis. Haja o que houver por detrás das nomeações, chega sempre a hora em que o manda-chuva é abafado pela evidência. Foi o que aconteceu no caso da Garota. Nos últimos dois anos esgota tudo o que é sala por onde passa e fingir que se não vê não é opção.
A Garota é um fenómeno que nos resgata meia esperança do fundo do poço. Não se trata do Globo (mero objecto), trata-se de um povo rendido a uma mulher que fascina pelo pensamento, que fala dos abusos sem rédeas e sem vergonhas.
Não foi só a Garota que ganhou um prémio, fomos todos nós.
Os outros – os músicos riscados – falam para nós; a Garota fala através de nós, e parece-me que nos faz perder certos medos. Fala das mulheres e da violência da imagem padronizada; fala dos bairros renegados e das demagogias que nos enlaçam a garganta. Fala-nos do amor como uma novidade, livre de clichês bolorentos.
O Globo da Garota não vale nada comparado com o poema para o qual foi pretexto. O Globo passou mas ficaram-nos as palavras – as dela ficam-nos sempre – a lembrar que não estamos sozinhos contra os gatos debaixo das mesas, contra os ofendidos com as mini-saias, contra os assassinatos do Mediterrâneo, contra a capital que é igual a qualquer outra. A favor das canções sem final sob fortes dilúvios, a favor do livre pensamento, a favor das mães, do amor e da vida hoje, a favor da querida liberdade.
Obrigada, Cátia e parabéns – não pelo Globo – pela coragem de levares aos ombros as súplicas de toda esta gente que é Portugal.
Estamos tão cansados e o espelho tem razão, mas tu ressuscitas-nos.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; Depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em breve, meu amor” e ” O Homem do trator”.










