[Olhar de teóloga]

O grande inquisidor

| 2 Abr 2022

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A lenda de ‘O Grande Inquisidor’, de F. Dostoievski, está inserida na sua grande obra Os Irmãos Karamazov, e é uma parábola que alude à fé e ao ateísmo, que sempre andaram de mãos dadas neste magnífico autor. O texto narra o aparecimento de Jesus Cristo no século XVI, em Sevilha. Jesus regressa ao seu povo após quinze séculos. Na noite anterior, tinham ardido na fogueira cerca de cem hereges por ordem do Inquisidor-mor. Jesus caminha por Sevilha, as pessoas reconhecem-no, aproximam-se dele, cura os doentes, e inclusivamente ressuscita uma menina no átrio da Catedral. Chega o Inquisidor-mor e somente com o levantar de um dedo, a multidão, que o teme, dispersa-se e faz prender Jesus. No interrogatório a que o submete, serve-se das tentações do Evangelho de São Mateus para questionar toda a mensagem de Jesus Cristo.

O Grande Inquisidor pretende instaurar a felicidade na terra e crê que o conseguirá apoderando-se das almas e consciências das pessoas. Hoje, chamaríamos a isto um abuso de poder, porque o Grande Inquisidor pretendia suplantar o Deus-homem, o Deus encarnado, por um homem-deus que era ele próprio.

O escritor russo antecipou os movimentos totalitários do século XX, infelizmente também presentes no século XXI, onde os seus líderes, para além de decidirem o destino dos subjugados, se veriam a si próprios como um instrumento do destino acima do bem e do mal.

 

Inquisidores de hoje

Naturalmente, que a visita de Jesus Cristo foi tomada como um desafio pelo Grande Inquisidor e seus colaboradores porque questionava a sua forma de vida, a sua interpretação retorcida do Evangelho, os seus abusos, as suas regalias, a sua religiosidade imperial, a sua falta de caridade, amor e entrega ao próximo…

Existirão hoje na nossa Igreja figuras parecidas ao Grande Inquisidor? Sim? Sejamos bons e não nomeemos ninguém! Na realidade não apontamos nomes porque aqueles que indicam o caminho para este comportamento, reivindicando como primeira tarefa para o próximo Papa o restabelecimento da “normalidade” são, para além de tudo o que é evidenciado pelo Grande Inquisidor, cobardes, e fazem-no anonimamente.

Também é verdade que não é muito difícil intuir quem são, o que estão a tramar e como devem sentir-se questionados pelo estilo de vida, a pastoral e o compromisso de Francisco com o povo de Deus – com todo o povo de Deus – para reagirem deste modo.

Para eles, quem não presta mais atenção à pompa, às vestes, aos acessórios (que também existem na Igreja) e ao culto do culto, não tem nada a fazer e é herético. Dizem, intuo que surpreendidos (e escrevo-o conscientemente no masculino), que a Igreja está secularizada, mas não vejo que façam uma mera análise sobre esse secularismo interno que tem a ver com a categorização das paróquias em paróquias de primeira e segunda classe, ou dioceses em dioceses de primeira e segunda classe, que, em ambos os casos, se assemelham a prémios que são atribuídos mais por terem sido “bons rapazes”, sem ter em consideração aqueles que vivem nessas paróquias ou nessas dioceses.

 

Una forma de vida

O que é para estes homens, normativos acima de tudo, o ser humano? O que é a misericórdia, o amor e a caridade? O que é a relação fraterna? A maioria deles, cheios de si mesmos, são incapazes de ver para além da realidade que querem ver. Sim, infelizmente, os príncipes da Igreja continuam a existir (também entre os leigos).

Se, como se costuma dizer, o segredo da vitalidade cristã e católica provem da fidelidade aos ensinamentos de Cristo e às práticas católicas e não provem da adaptação ao mundo nem do dinheiro, continuo a perguntar-me, que Evangelho lêem? Alguma edição especial desconhecida (felizmente) para o resto de nós?

Sempre às voltas com a fé e a moral. Como se a fé não pudesse ser vivida no quotidiano da vida e a moralidade apenas abrangesse a sexualidade, que obsessão! Nem uma palavra contra os principescos que vivem em palácios, penthouses ou mansões reabilitadas para os seus momentos da reforma e eméritos.

Não, isso não entra na moralidade. A moralidade é apenas para assinalar, empurrar para fora, e condenar aqueles que se manifestam sexualmente diferentes, e aqueles que vivem a fé de acordo com o evangelho, o evangelho! É uma verdadeira tristeza que só encontrem segurança na norma e percam a alegria e a liberdade do evangelho. Que personalidades tão pobres e doentes!

Devemos ter pena deles. Mas não devemos perdê-los de vista porque são mais perigosos do que um camião sem travões a descer uma encosta. Oxalá possam descobrir que ser cristão tem mais a ver com uma forma de vida do que com um compêndio de leis e normas proibitivas que asfixiam a única coisa importante, que é a Boa Nova!

O rigorismo nunca foi uma boa receita. O cristianismo é gratuidade, humildade e alegria. Ah, esquecia-me! Também é igualdade, que todos nós recebemos no baptismo. Vai custar-lhes admiti-lo e mais ainda que o entendam. Francisco chama-nos a tornar o Evangelho uma realidade. Não deveria ser esta a única “normalidade” na Igreja?

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.

 

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