O grande vazio

| 10 Set 2022

Grass Field. Foto © Francesco Baldan Unsplash (scaled)

Grass Field. Foto © Francesco Baldan Unsplash (scaled)

 

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.”

Com estas palavras tão conhecidas e repetidas começa e termina o Eclesiastes. Vaidade, do latim vanitas, traz consigo o sentido de vão, vazio. Neste contexto, poderíamos alargar semanticamente o vazio da vaidade ao oxímoro do que é cheio com o que não vale a pena. Vanitas vanitatum et omnia vanitas poderia ser, assim, parafraseado como “o maior vazio”, o vazio superlativo. Tudo é vazio. Ou tudo é demasiado cheio do que não interessa. Alguns autores propõem também um sentido subtilmente diferente, a partir do hebraico – onde é usado o termo havel, uma expressão de sopro, de brevidade, de impermanência, de imaterialidade – neste contexto referenciando certamente a fugacidade da vida.

Há poucos anos, o Papa Francisco referia que vivemos não uma época de mudança, mas uma mudança de época (“Si può dire che oggi non viviamo un’epoca di cambiamento quanto un cambiamento d’epoca.”, Santa Maria dei Fiore, Florença, 10 Nov. 2015)

Se em 2015 esta afirmação era já muito clara considerando a percepção europeia da realidade, neste momento talvez seja por demais evidente que nos encontramos num período de transição a muitos níveis, num ponto chave temporal, numa encruzilhada de problemas, novidades, situações inesperadas. É claro, também, que a História – para o bem e para o mal – tem ciclos e repetições e, por isso, até certo ponto “nada há de novo debaixo do sol” (Ecl. 1,9). Ainda que, esperamos nós sempre, algo se vá acrescentando de novo, no sentido positivo.

Deixamos em seguida apontamentos de alguns aspectos que gostaríamos de considerar importantes nesta “mudança de época” e que estão ao alcance de todos.

São uma tentativa de esvaziar o vazio e viver uma vida com o que realmente interessa.

O vazio do desconhecido

O desconhecido continua a fazer-nos reagir de uma maneira muito semelhante à que fazia há milhares de anos; a maior diferença reside eventualmente nas causas – talvez não sejam já os animais escondidos na floresta ou o ramo que se ouve quebrar no silêncio do bosque. O medo mais comum surge agora sob novas formas. O perigo percepcionado – seja ele conhecido ou desconhecido, real ou imaginado – leva o ser humano a tomar precauções para assegurar a sobrevivência; no mundo contemporâneo e em particular no nosso contexto cultural, os perigos percepcionados têm implicações sociais muito concretas. Ao estrangeiro, ao migrante, ao itinerante, com cultura diferente, o mais fácil é colocá-lo na categoria de desconhecido e, por isso, merecedor de um escrutínio mais detalhado. Às decisões e notícias sobre situações externas ao país, sobretudo as que correm risco de ter mais implicações internas, é contraposto o nacionalismo, como reacção para reforço da pertença do indivíduo a uma identidade cultural colectiva restrita e muito bem definida; é sem dúvida importante a diversidade cultural, a identidade e o que distingue cada povo, mas se isso não for utilizado como meio para avivar diferenças e criar divisões discriminatórias, se não for o suporte para justificar acções impróprias, por vezes com consequências catastróficas. Qualquer pessoa, genericamente, e independentemente da cultura, tem reacção de desconfiança ao que é diferente, como meio de garantir estabilidade interna – como amadurecer e ajustar essa reacção natural, tentando percorrer um caminho de maior acolhimento e percebendo que os outros, diferentes, com uma história diferente, afinal têm também algo de comum, como pessoas, merecendo o nosso cuidado? Mesmo que não tenhamos vocação para o acolhimento mais activo, para uma imersão tão profunda nessas questões, o facto de não caminhar em sentido contrário já será em muitos casos uma ajuda significativa.

Também na reacção dos que pensam de maneira diferente (todos, portanto, pois cada um pensa de maneira diferente e com nuances particulares), é naturalmente mais simples insistir com os argumentos feitos, com os “factos”, sem verdadeiramente ouvir o outro; sendo que o mais saudável e construtivo seria um verdadeiro diálogo em que ambas as partes tecessem um entendimento comum da realidade.

Entre tradição e inovação

É uma questão tão antiga como a humanidade. A inovação traz avanços e melhorias, mas cria sempre problemas novos para resolver. A tradição tem a vantagem de herdar a inteligência colectiva de outros que, como nós, tentaram já resolver problemas semelhantes e acabaram por encontrar soluções úteis, optimizadas, afinadas ao limite possível. Ao que é novo, por isso, opõe-se a natural resistência humana à mudança, uma vez mais porque provoca instabilidade. O tradicionalismo é, assim, um movimento natural, agudizado quando do outro lado se estende o olhar em novas direcções. Isso é muito evidente no mundo em diversos domínios, mas talvez na Igreja católica se encontre um exemplo muito claro; a um movimento de renovação, de encontrar caminhos novos para questões de sempre, como foi o Concílio Vaticano II, opõe-se em sentido oposto um apego e uma recuperação de tradições anteriores. Naturalmente que a novidade não resolve tudo, é aliás um caminho incompleto e com falhas, com escolhas de percursos que vão dar a becos, mas não pode ser deixada de parte sob pretexto destas falhas. É importante guardar a tradição e tudo aquilo que tem de riqueza, cultural e material, mas deixar espaço para o que pode alimentar e adaptar essa tradição aos tempos, leituras e vivências de cada época. A ideia do que é heresia, do que é imoral, mas também do que é o ideal, do caminho melhor para fazer cada coisa, vaise metamorfoseando ao longo do tempo – e não falamos do momento presente, falamos de um fenómeno que faz parte da História (da Igreja e do mundo). E será tão simples como perceber que a arquitectura Gótica (termo originalmente utilizado com sentido pejorativo), que hoje temos em tanta estima, foi no seu tempo tão ou mais detestada do que a nossa arquitectura contemporânea. A novidade leva tempo a entrar e encontrar um lugar. Se na tradição encontramos uma base sólida e conhecimentos valiosos, na inovação encontramos a oportunidade de renovação que mantém a vida.

O hiato digital

As ferramentas são, por princípio, um instrumento, parte da produção cultural, com utilidade para o nosso quotidiano, que nos permitem simplificar tarefas e optimizar recursos. Na realidade não é sempre assim e, por vezes, as ferramentas tomam funções menos úteis ou até prejudiciais, intencionalmente ou não. O caso das ferramentas digitais, em especial os smartphones, pela novidade que têm, continua a merecer a nossa atenção mais focada, já que o Homem ainda não se adaptou verdadeiramente a conviver com as particularidades destes instrumentos. Algumas estatísticas apontam para uma média de mais de três horas gastas a utilizar o telemóvel, sendo quase três quartos do tempo correspondentes a visitas rápidas “só para …” e que, nalgumas situações, acabam por desencadear um tempo de utilização mais longo. Não é difícil que isto aconteça, já que o telemóvel concentra cada vez mais funcionalidades – telefone, máquina fotográfica, cartas, livros. O problema maior, de facto, nem será tanto a utilização do telemóvel mas a necessidade imperiosa de o fazer – e, em concreto, não a necessidade por causas nobres ou intelectualmente elevadas, mas a necessidade por hábito, por vício, por já não se saber o que fazer de um vazio físico, temporal. Uma espécie de “horror vacui” temporal, onde, qual decoração barroca, o telemóvel preenche com volutas, pilastras e floreados todos os lugares livres, arrastando-nos para o universo digital como fuga ao mundo, ao pensamento, à interacção. Com isto, desliga-se o mundo envolvente e é aí que reside o segundo problema, complementar; deixa de existir temporariamente (e cada vez mais frequentemente) o mundo “real”; as intromissões do mundo físico no digital chegam a ser percebidas como inoportunas. Receitas para inverter a marcha e entrar num caminho digital responsável são diversas e fáceis de encontrar, mas podem resumir-se a utilizar o digital para o necessário (mesmo para o lazer, quando oportuno e saudável) com a salvaguarda de conhecer bem a linha onde é o digital que nos passa a controlar, em vez do contrário.

Cultivar a relação

Contra o vazio actual e contra o individualismo que nos assola, temos sempre a opção do diálogo – que envolve a disponibilidade e boa vontade de ambas as partes – e a opção do esforço por fazer o percurso inverso à exclusão, ao extremar de posições. Será, talvez, o único que garante o bem estar, o lugar de tranquilidade para cada um poder desenvolver-se plenamente; se, em vez da resignação, do negativismo, do mau humor, da permanente desconfiança, deixarmos a porta aberta à compreensão da realidade do outro, ajudaremos na permanente construção de um mundo onde é mais fácil viver. Haverá sempre problemas, pessoas que focam as energias apenas em proveito próprio (porque o mal, afinal, é na sua maioria resultado de pessoas que procuram o seu próprio benefício em detrimento dos resultados que daí venham) – mas não nos devemos deixar envolver no desânimo, pois será mais útil empregar essas energias a contrabalançar o que surge de negativo, oferecendo o melhor de si próprio a tantos outros que disso beneficiariam.

Felizmente existem muitos caminhos e temos, cada um, individualmente e em conjunto, a oportunidade de escolher. Num tom esperançoso e optimista, fechamos – abrindo a porta para a próxima etapa de cada um – de novo com o Papa Francisco, imediatamente na continuidade da citação acima transcrita, apresentando o futuro numa direcção em que somos acompanhados na transformação do “maior vazio” do Eclesiastes na plenitude de Deus.

As situações que hoje vivemos colocam, portanto, novos desafios por vezes difíceis de compreender. Este nosso tempo exige que vivamos os problemas como desafios e não como obstáculos: o Senhor está activo e trabalha no mundo.” (in Vatican News)

João Valério é arquiteto e organista.

 

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas

Uma forma de "construir pontes"

ONG israelita já salvou a vida a 3.000 crianças palestinianas novidade

Amir tem cinco anos e, até agora, não podia correr nem brincar como a maioria das crianças da sua idade. Quando tinha apenas 24 meses, apanhou um vírus que resultou no bloqueio de uma das suas artérias coronárias, pelo que qualquer esforço físico passou a ser potencialmente fatal. Mas, muito em breve, este menino palestiniano poderá recuperar o tempo perdido. Com o apoio da organização humanitária israelita Save a Child’s Heart, Amir acaba de ser operado num hospital em Tel Aviv e está fora de perigo.

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Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Manhã desta quinta-feira, 24

“As piores formas de trabalho infantil” em conferência

Uma conferência sobre “As piores formas de trabalho infantil” decorre na manhã desta quinta-feira, 24 de Novembro (entre as 9h30-13h), no auditório da Polícia Judiciária (Rua Gomes Freire 174, na zona das Picoas, em Lisboa), podendo assistir-se também por videoconferência. Iniciativa da Confederação Nacional de Ação Sobre o Trabalho Infantil (CNASTI), em parceria com o Instituto de Apoio à Criança (IAC), a conferência pretende “ter uma noção do que acontece não só em Portugal, mas também no mundo acerca deste tipo de exploração de crianças”.

Francisco contra o divisionismo e a ordenação de mulheres

Entrevista à revista America

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“O divisionismo não é católico. Um católico não pode pensar ‘ou, ou’ e reduzir tudo a posições irreconciliáveis. A essência do católico é “e, e”. O católico une o bem e o não tão bom. O povo de Deus é um” – afirmou o Papa Francisco, a propósito das divisões na Igreja americana, na entrevista concedida no dia 22 de novembro a um conjunto de editores jesuítas e publicada na edição da revista America – The Jesuit Review desta segunda-feira, 28 de novembro.

Terra de pobreza e de milagres

[Crónicas da Guiné – 1]

Terra de pobreza e de milagres novidade

A Guiné-Bissau, como país, é um bom exportador de más notícias. E quando se chega ao território, o que imediato se faz notar é a pobreza e o lixo. Mas quando nos dizem “Tenho orgulho em Bissau ser uma cidade limpa… em comparação com outras capitais desta região de África”, percebemos que tudo é relativo – relativo aos padrões que adoptamos. Ou às notícias que procuramos. Porque há notícias que vêm ter connosco, pois sabem que serão bem acolhidas, e outras que se deixam ficar no seu cantinho, silenciosas, porque se reconhecem sem interesse.

Nasce uma nova rede eclesial para o cuidado da casa comum

América Latina

Nasce uma nova rede eclesial para o cuidado da casa comum novidade

Depois da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) e da Rede Eclesial Ecológica Mesoamericana (REGCHAG), nasce agora a Rede Eclesial Gran Chaco e Aquífero Guarani (REGCHAG), com o objetivo de proteger os territórios que lhe dão nome e as respetivas comunidades, face a ameaças como o desmatamento, a contaminação e o desrespeito pelos modos de vida.

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