Nova exortação apostólica do Papa

“Laudate Deum”, o grito de Francisco para salvar o planeta

| 4 Out 2023

Papa Francisco fala em audiencia. Foto Vatican Media

“Se temos confiança na capacidade do ser humano transcender os seus pequenos interesses e pensar em grande, não podemos renunciar ao sonho de que a COP28 leve a uma decidida aceleração da transição energética”, apela o Papa na sua nova exortação apostólica. Foto © Vatican Media.

 

A premência da crise climática, a decadência ética dos poderosos, a fragilidade da política internacional, os incipientes avanços (ou a falência) dos acordos negociados e o desânimo instalado em relação à próxima COP28 ‘obrigaram’ o Papa Francisco a escrever a exortação apostólica Laudate Deum para dar alento, chamar à esperança e à responsabilidade todos os participantes da reunião que se inicia a 30 de novembro no Dubai.

É raro, raríssimo mesmo, ver um Papa escrever uma exortação apostólica por causa de um acontecimento inscrito na agenda internacional. Quando muito, se o acontecimento se reveste de grande importância, faz-lhe uma referência no Ângelus do domingo anterior, ou solicita ao secretário de Estado que emita uma nota, ou disso encarrega o prefeito do Dicastério com maior afinidade com o assunto. Mas não escreve, ele próprio, uma exortação apostólica.

Este texto, curto, é certo, é ainda mais veemente do que as duas encíclicas – Laudato si´ e Fratelli tutti – em que Francisco já chamava a atenção para a corrosão da nossa casa comum e da nossa humanidade. Este é, apesar do seu poético início, citando São Francisco de Assis (“Louvai o Senhor por todas as suas criaturas”), um grito de um Papa que não desiste de todos convocar para impedir a destruição da “relação saudável e harmoniosa” na “interação humana com o meio ambiente”.

Que urgência é esta que motiva a escrita da exortação apostólica publicada esta quarta-feira, dia 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis? Que faz correr Francisco? “Dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando de um ponto de rutura”, escreve o Papa, e é por causa dessa rutura iminente que lança o seu imperativo: “Se temos confiança na capacidade do ser humano transcender os seus pequenos interesses e pensar em grande, não podemos renunciar ao sonho de que a COP28 leve a uma decidida aceleração da transição energética, com compromissos eficazes que possam ser monitorizados de forma permanente”.

Francisco não se fica por enunciados genéricos. Aponta de modo muito concreto quais os resultados a que a Conferência do Dubai tem de nos oferecer: “fórmulas vinculantes de transição energética que tenham três caraterísticas: eficientes, vinculantes e facilmente monitorizáveis, a fim de se iniciar um novo processo que seja drástico, intenso e possa contar com o empenhamento de todos”; lembra que “isto não aconteceu no caminho percorrido até agora, mas só com um tal processo se pode restaurar a credibilidade da política internacional, pois só desta forma concreta será possível reduzir significativamente o dióxido de carbono e evitar a tempo males piores”; e repete a pergunta que já na encíclica Laudato si’ dirigira aos poderosos: “Para que se quer preservar hoje um poder que será recordado pela sua incapacidade de intervir quando era urgente e necessário fazê-lo?”.

 

Obstáculos enormes, mas não intransponíveis

A vertigem do paradigma tecnocrático que faz crer na ideia do “crescimento infinito ou ilimitado” segundo o qual “a realidade, o bem e a verdade desabrocham espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia” é considerada um obstáculo por Francisco. Foto © Donald Giannatti/Unsplash.

 

Acordos eficientes, vinculativos e facilmente monitorizáveis são necessários, mas não suficientes. Para Francisco, é preciso admitir que a crise climática constitui um “problema humano e social em sentido amplo e a diversos níveis” e, portanto, “buscar apenas um remédio técnico para cada problema ambiental que aparece é isolar coisas que, na realidade, estão interligadas e esconder os problemas verdadeiros e mais profundos do sistema mundial”.

Ao interpretar as razões pelas quais, apesar da gravidade reconhecida do problema, não se consegue unir as nações no seu combate efetivo, o Papa é muito claro na identificação dos obstáculos principais: “as posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global”; a vertigem do paradigma tecnocrático que faz crer na ideia do “crescimento infinito ou ilimitado” segundo o qual “a realidade, o bem e a verdade desabrocham espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia”.

E a estes dois junta outros tantos não menos pesados: a “decadência ética do poder que é disfarçada pelo marketing e pela informação falsa”, para permitir a perpetuação da “lógica do máximo lucro ao menor custo, disfarçada de racionalidade, progresso e promessas ilusórias, torna impossível qualquer preocupação sincera com a casa comum e qualquer cuidado pela promoção dos descartados da sociedade”; e, finalmente, o facto da “crise climática não ser propriamente uma questão que interesse às grandes potências económicas, preocupadas em obter o maior lucro ao menor custo e no mais curto espaço de tempo possíveis”.

Tendo em conta tão poderosos obstáculos, onde encontrar a esperança de que este combate pela sustentabilidade do planeta e por uma humanidade mais fraterna possa ser ‘o bom combate’? Quais são esses sinais de esperança? A Laudate Deum encontra vários. Desde logo, a presença de “muitos grupos e organizações da sociedade civil que ajudam a compensar as debilidades da comunidade internacional, a sua falta de coordenação em situações complexas, a sua carência de atenção relativamente a direitos humanos fundamentais” e também a própria globalização que “propicia intercâmbios culturais espontâneos, maior conhecimento mútuo e modalidades de integração dos povos que levarão a um multilateralismo ‘a partir de baixo’ e não meramente decidido pelas elites do poder”.

 

“Há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. O mundo canta um Amor infinito; como não cuidar dele?”, escreve o Papa. Foto © Yaruta.

 

Por outro lado, “a cultura pós-moderna gerou uma nova sensibilidade para com os mais frágeis e menos dotados de poder”, ao mesmo tempo que “os esforços das famílias para poluir menos, reduzir os esbanjamentos, consumir de forma sensata estão a criar uma nova cultura”. Mas, sobretudo, a esperança de Francisco advém de  acreditar que “o universo desenvolve-se em Deus, que o preenche completamente. E, portanto, há um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. O mundo canta um Amor infinito; como não cuidar dele?”.

É para convidar a esse cuidar que esta exortação foi escrita com termos tão incisivos, correndo o risco de ser criticada por intervir de modo tão concreto e cortante nos assuntos do governo do mundo que vão estar na mesa das negociações no Dubai de 30 de novembro a 12 de dezembro. Só uma enorme apreensão levaria um Papa a fazê-lo.

 

(Pouco depois da publicação da exortação, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano, divulgou uma infografia e um vídeo que pretendem resumir o conteúdo do novo documento; o 7MARGENS reprodu-los a seguir)

 

 

 

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