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luiz fernando lisboa, bispo de pemba, site missionarios combonianos

O “grito de socorro” do bispo de Pemba para que Moçambique controle os ataques à população

| 05/05/2020

O “grito de socorro” do bispo de Pemba para que Moçambique controle os ataques à população

by | 5 Mai 20

luiz fernando lisboa, bispo de pemba, site missionarios combonianos

Luiz Fernando Lisboa. Há mais de 200 mil pessoas deslocadas e muitas crianças separadas dos pais, diz o bispo de Pemba. Foto: Direitos reservados.

 

“Por amor de Deus, façam alguma coisa por Cabo Delgado”, pede o bispo católico de Pemba (capital daquela província moçambicana), Luiz Fernando Lisboa, numa carta emocionada dirigida às autoridades. No texto, o bispo apela ao Governo do país, mas também a instituições como as Nações Unidas e a União Europeia para que ofereçam “ajuda concreta” àquela região.

Na carta, divulgada esta segunda-feira, 4 de maio, pelo serviço de notícias dos Missionários Combonianos, o bispo descreve a situação dramática em que vive a população do norte do país, que desde outubro de 2017 é vítima de ataques de grupos armados, o último dos quais, como o 7MARGENS noticiou a 23 de abril, vitimou 52 jovens.

Luiz Fernando Lisboa refere que os ataques têm sido cada vez mais agressivos e que há neste momento mais de 200 mil pessoas deslocadas. “Há muitas crianças separadas dos seus pais, pois quando há ataques nem sempre a família consegue ficar junta, gerando um sofrimento ainda maior”, sublinha o bispo. E conta um caso, de finais de janeiro: uma senhora chegou a Pemba com 12 crianças, “sendo que somente duas eram suas e as outras encontrou no mato.”

De acordo com o bispo, “a fome é outra realidade gritante” e “milhares de crianças e jovens estão sem estudar há muito tempo”. Além disso, “as autoridades ‘fugiram’ das vilas, tanto daquelas atacadas ultimamente como daquelas que ainda não foram atacadas; a situação é de total insegurança e medo”, revela. Professores, profissionais da saúde, agentes de organizações não-governamentais, todos têm deixado a região pois não há quaisquer garantias de segurança, acrescenta o bispo de Pemba à Ajuda à Igreja que Sofre. 

 

“Ainda resistem bravamente os missionários e missionárias católicos que se negam a abandonar o povo (…), porém sentimos sobre os nossos ombros o peso da grave responsabilidade que temos sobre as suas vidas”, confessa Luiz Fernando Lisboa, que já lhes pediu mesmo que abandonem a região. Cabo Delgado vive, assim, uma situação dramática, que a pandemia de covid-19 veio tornar ainda mais grave, depois do surto de cólera que já grassava na região. 

Uma das soluções apontadas por este responsável da Igreja para lidar com o problema consiste na criação de “uma comissão suprapartidária, com membros da Assembleia da República, do Judiciário, da sociedade civil, para auxiliar o Governo a enfrentar esta odiosa guerra”, refere a carta.

Nas declarações à AIS, o bispo Luiz Fernando acrescenta que as próprias estruturas das Forças Armadas “parecem pouco preparadas para enfrentar uma ameaça desta natureza”, acrescentando que “há muitos jovens nas forças de defesa que estão [lá] por obrigação e, no momento dos ataques, há muitas deserções, fogem para a floresta com o povo”. Acresce o facto de terem “pouca preparação e pouca capacidade para enfrentar essa situação”. Lamenta o bispo: “Sinto uma tristeza terrível pelos jovens que vão lutar, porque muitos já perderam a vida.”

Sobre as origens dos ataques, o bispo tem dúvidas: “Os últimos ataques foram supostamente realizados pelo Estado Islâmico, mas ainda há dúvidas sobre isso. (…) A verdade é que não sabemos. Imaginamos que o que está por detrás de tudo isso são os recursos naturais. Deve haver quem esteja financiando isso e encontrou um terreno popício por causa da pobreza, da falta de oportunidades dos jovens, o desemprego. Cabo Delgado sempre foi uma província muito pobre, abandonada por todos, também pelas autoridades.” A situação é resultado da junção de todos esses fatores, diz.

“Tenho muita fé de que Deus não abandonou o Seu povo, mas Ele espera, de nossa parte, uma ação mais responsável e eficaz”, conclui.

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