Livros

O Grito que está dentro da nossa cabeça

| 4 Ago 2022

livro dos sonhos e das imagens guerra guine bissau catarina laranjeiro foto dr

Catarina Laranjeiro oferece-nos um livro que traça em largas pinceladas o conteúdo fixado (cristalizado) pela história sobre a guerra de libertação, para de seguida ser também capaz de tecer, retecer e destecer, num trabalho artesanal de minudência, essa mesma história. Foto: Direitos reservados.

 

Durante os anos da guerra de libertação na Guiné-Bissau (GB), alguns cineastas, sobretudo europeus, documentaram nas zonas libertadas da GB a ação do Partido Africano para a Independência da Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Pretendiam colaborar com a estratégia de construção de uma opinião pública internacional favorável para uma luta de independência, a qual desafiava o serôdio regime colonial português.

A autora revisita, relê e observa estes filmes, os seus sujeitos e narrativas, trazendo-os para a luz do presente. Não o faz sentada num belo sofá, daqueles que vêm em peças para montar. Serve-se antes da caixa de ferramentas que ao longo da leitura do livro, o qual teve origem na sua dissertação de doutoramento, percebemos que maneja como uma artesã experimentada: os utensílios da etnografia visual. Assim, a Catarina Laranjeiro regressa a um dos locais mais filmados por alturas da guerra, a tabanca (aldeia) de Unal, no sul da GB. Ponto estratégico para o PAIGC pela sua proximidade com a fronteira com a Guiné-Conacri. Descobre, nesta viagem, as pessoas, as personagens que ainda vivem nesta geografia e nesta memória.

Costumo catalogar as apresentações de um livro em duas tipologias, duas abordagens. Uma é a preguiçosa e sinóptica. Sumariamos apenas os aspetos mais gerais do livro, do que trata e do que a autora apresenta como propósito. Outra é a ressignificativa. Colocamos a nossa própria câmara mental, a das experiências e pensamentos que fomos tendo durante a nossa vida (e a minha também teve um momento de passagem pela Guiné-Bissau) e que o livro nos re-suscita. No entanto, re-suscitará como o vimos, como o sentimos ou como o pensamos na primeira vez?

Nesta apresentação do livro da Catarina, uso uma mistura das duas. A preguiçosa está feita. Nada mais tenho a acrescentar. Apetece apenas dizer “É lê-lo. É lê-lo”. Assim, quando regressarmos ao sofá para vermos as imagens de guerras talvez já consigamos acrescentar alguma camada mais profunda ao que vemos. É que a guerra não se passa só na TV.

A que acrescenta significados, os quais a própria autora pode considerar ou não pertinentes, mas que acrescenta novas lentes, é para mim, neste livro, muito desafiante. Trabalho numa área que muitas vezes tem a pretensão de cristalizar a memória. Trabalho feito. Fim. Passemos a outro assunto. Por outro lado, conheço a Catarina. É bom que saibam. É fundamental que se perceba que quem escreve o faz de um lugar pouco neutro. Haverá lugares destes?

Milicianos do PAIGC / Documentos Amílcar Cabral - Fundação Mário Soares e Maria Barroso

Milicianos do PAIGC. Catarina Laranjeiro regressa a um dos locais mais filmados por alturas da guerra, a tabanca (aldeia) de Unal, no sul da Guiné-Bissau, ponto estratégico para o PAIGC. Imagem pertencente ao Arquivo Amílcar Cabral, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso.

 

O que me sobra? Sobra-me utilizar a favor deste texto precisamente o facto de a autora não me ser estranha e ver no livro a extensão do seu nariz aguçado. Nariz que conheci ainda no início da sua viagem real e imaginada ao Pidjiguiti. O principal porto de Bissau. De uma Bissau que se banhou de sangue em 1959. Uma greve. Reprimida. Por um estado que nunca foi novo. O rastilho de uma guerra anunciada.

Nariz que parece, com este livro, ter-se soltado do controlo da sua proprietária, lembrando o do conto de Gogol… O Nariz. Um nariz que se liberta, embora sabendo a quem pertence, um nariz que pressente e vê. E pressentindo explora com uma vontade febril as poliédricas visões de cheiros de um mesmo odor.

O que me sobra? Como aprendiz de historiador, que sou e que sempre quero ser, ver a competência da Catarina Laranjeiro nos oferecer, ao mesmo tempo, um livro que traça em largas pinceladas o conteúdo fixado (cristalizado) pela história sobre a guerra de libertação, para de seguida ser também capaz de tecer, retecer e destecer, num trabalho artesanal de minudência, essa mesma história. Como se burilasse um Pano Pente, da melhor tradição guineense. Essa mesma história, agora já não olhada como um objeto que se observa de balão, mas iluminando o sujeito, os sujeitos, as estórias.

É o tecer e destecer da Penélope da Odisseia que a mim me interessa enquanto criador de História. É esse continuo labor que recorda, que a História nunca está acabada. Nenhuma história tem fim. Não somos observadores distantes de um objeto, mas sujeitos da construção e reconstrução da memória. Não como analistas neutros, mas como atores políticos. Atores políticos para que a reconstrução da memória seja iluminada de dentro para fora e não por discursos demagógicos. Essa comida rápida construída de fora. Construída como mera picadora utilitária e que vai permitindo um revisionismo neo-autoritário e neo-colonialista.

Sujeitos Políticos. É isso. No livro Dos Sonhos e das Imagens: a Guerra de Libertação na Guiné-Bissau a Catarina não observa. Interage, empurra o mofo, arruma os Predicados, a História. É tempo dos Sujeitos. Tempo que fica exemplificado durante a visualização de um dos filmes, no qual algumas mulheres enaltecem a guerra que “(…) deu escolas, hospitais e as libertou”. A autora deste livro afirma que embora as imagens mostrem a sobrecarga do trabalho feminino, elas, as mulheres, demonstram “uma consciência política bem articulada para a mudança [mas também] sublinham o hiato que permaneceu entre a teoria e a prática.” (p. 183)

Como se a retórica mobilizadora de Amílcar Cabral – suportada numa utopia para a qual se caminharia mesmo que ela se afastasse, como é a substância das utopias – com a sua morte, mitificação e santificação laica se tornasse em algo impossível de qualquer aproximação.

A certa altura a autora conversa com Flac, antigo combatente. Ele diz-lhe que os filmes da Guerra de Libertação nunca foram antes mostrados na Guiné-Bissau. “Mas não gostaria de ver esses filmes?” – pergunta a Catarina, que queria muito mostrá-los. Flac não queria. “Eu não quero ver aqueles que morreram.” A autora pergunta se não os vê na sua cabeça. Flac diz que sim, que vê os mortos nos sonhos. “Mas os filmes são como os sonhos.” – argumenta a autora. “Não! [diz FLAC espantado]. O filme é uma coisa muito diferente! (…) O filme está fora da nossa cabeça e o sonho está dentro da nossa cabeça.” (p.210)

E à volta desta questão andei nos dias em que li o livro da Catarina.

Fica o aviso aos revisionistas da história. Não vão gostar deste livro. A Catarina não pretende reescrever a História para servir alguém. A Catarina abre espaço para que o silêncio ou o grito dos protagonistas se possa ouvir e sentir.

Não acredito, e acho que a Catarina também não, em estados falhados, e menos ainda em pessoas falhadas. Como se fosse estático o caminho, como se nenhum existisse para além da dolorosa rememoração do passado. Uma permanência, um labirinto sem fuga. Não.

Por isso resolvi trazer um pouco de poesia.

Termino com uma nota de esperança, com um pouco de poesia – os poetas sabem, que inveja, dizer tudo muito melhor do eu – e de incitamento ao combate a fazer pela descolonização. Este livro já desbrava o caminho.

Regressemos à utopia.

Prisioneiros do PAIGC e material apreendido pelo exército colonial. Espólio pessoal de Martinho Cerqueira.

Prisioneiros do PAIGC e material apreendido pelo exército colonial. No seu livro, Catarina abre espaço para que o silêncio ou o grito dos protagonistas se possa ouvir e sentir. Fotografia pertencente ao espólio pessoal de Martinho Cerqueira.

 

ASAS

Nós nascemos para ter asas meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas assim como se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas como se fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas de novo voltam a ser.
Aceitemos essa hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

José Fanha. Cartas de Marear. Barca Nova-Editor

 

Dos Sonhos e das Imagens: a Guerra de Libertação na Guiné-Bissau
Autora: Catarina Laranjeiro
Editora: Outro Mundo, 2021

 

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