Eu, a Sirene, o Dez-Pás-Duas e o Lamalonga padecíamos do pior dos infortúnios – o de não ter jeito para coisa nenhuma. Especificidade que nos tornou inseparáveis, militantes fiéis do grupo dos quatro. Pertencíamo-nos por exclusão de partes. A gente sobrava em comum.
Sobrar aproximou-nos. Era a vida escolher por nós, o destino a impingir-nos as amizades à força. Vivíamos na mesma rua e não nos orgulhava ser parte ativa na estatística que metia o bairro na base da pirâmide do sucesso per capita, por isso, mentíamos muito.
Não sei quem é que inventou que mentir é pecado, mentir é fazer de conta, é substituir a realidade pelo sonho. Pecado é a realidade não prestar, e se a gente mentia era para tornar os dias prestáveis, embelezá-los. Não era pecado, era virtude.
Numa ocasião, o primo do Dez-pás-duas deu cabo de um joelho e ficou de cama, a mãe comprou-lhe uma consola para lhe consolar de tanto tempo deitado. O Dez-Pás-Duas, esperto e sabido, tinha combinado tudo, tim-tim por tim-tim, com o primo durante a visita da noite anterior – a mãe do acidentado saía para trabalhar às nove da manhã, depois o caminho estava livre, era só surgir.
O dia a jogar aos príncipes que matam dragões com golpes de espada passou-se que foi uma maravilha, de entusiasmos mil.
Quando se aproximou a hora de a tia do Dez voltar para casa, abalámos porta fora despistando o flagrante. Mas, antes disso, o Lamalonga refletiu em voz alta aludindo à opinião dos demais, E agora, como é que a gente justifica as faltas. O Dez disse, É fácil, metemos umas ligaduras nos braços e nas pernas, besuntamos mercúrio e alegamos um acidente que nos levou ao hospital, a minha tia é enfermeira, deve ter isso tudo aí nos armários.

“Sobrar aproximou-nos. Era a vida escolher por nós, o destino a impingir-nos as amizades à força. Vivíamos na mesma rua e não nos orgulhava ser parte ativa na estatística que metia o bairro na base da pirâmide do sucesso per capita, por isso, mentíamos muito.” Foto © Patrick Nouhailler via Flickr
A Sirene foi quem nos mascarou de aleijados, ficando de fora da fantasia, deu-se como acompanhante, apenas. Temia o castigo de Deus. Eu disse que não, que a avó Déte me tinha dito que Deus só castigava as más intenções, e que aquilo não era má intenção nenhuma, não estávamos a fazer mal a ninguém. Porque é que os professores do liceu não davam as aulas com jogos de consola? Seria a solução mais coerente para arrumar em definitivo o assunto das faltas – por motivos de isenção.
Quando íamos a sair, o Dez perguntou ao primo – que era mais velho, já tinha dezassete -, Ó primo, não nos facultas uma ganzinha, fizemos-te companhia o dia todo, merecemos. Sim, levem isso, está na gaveta, tira, Disse ele, Eu não vou mesmo poder bafar até sair desta maldita cama, mais logo isso está seco e já nem bate, levem à vontade, meus putos.
No caminho para a escola fomos treinando as expressões de dor, não era só chegar lá ornamentados de ligaduras e mercúrio, tínhamos de simular choro sincero, fazer as coisas bem feitas para não deitar tudo a perder. Estávamos tapados, outra falta injustificada levar-nos-ia a conselho disciplinar, por isso demos o nosso melhor.
A diretora era desprovida de coração e suspeitou da gente, impediu-nos de ir à última aula, mandou-nos para casa desfazer aquela figura, que amanhã falava com os pais.
Não lhe obedecemos, quer dizer, obedecemos-lhe pela metade, ignorámos a aula mas – perdido por cem, perdido por mil – não fomos logo para casa. Dirigimo-nos para o elevador do morro no intuito de ir bafar o pica facultado pelo primo do Dez. Na rua estava demasiado vento, desperdício puro. O elevador era mesmo o melhor spot, fazia de estufa e tudo.
Quando o detetor de incêndios disparou o alarme, a cabine empacou a meio caminho. Nós enredados numa nuvem de haxixe, presa num elevador, fazia lembrar os filmes do Chris Columbus. A Sirene chorava melodicamente em consonância com as gargalhadas do Lamalonga. O Dez estava sério e tonto, impávido e pálido, prestes a ter um teto preto – crise de claustrofobia, alegou depois. Eu mantive a calma e fiquei atenta à rua para pedir ajuda a quem passasse.
Vi o Padre Sebastião surgir ao fundo do passadiço, vindo lá dos lados da igreja, sob a cacimba crepuscular do final de tarde do inverno algarvio, e gritei enquanto fazia sinais de luzes – através da vidraça panorâmica da cabine – com a lanterna do telemóvel.
O Padre Sebastião gesticulava do lado de fora, ensaiando uma respiração que intencionava acalmar a histeria da Sirene – pacientemente, levantava e baixava os braços tipo maestro. Inspira, minha filha, inspira e expira devagar, Dizia ele do lado de fora, Tenham calma, meninos, tenham calma, vou chamar ajuda.
Quando o segurança chegou com a chave da salvação e nos libertou da clausura, disse, Agora, ou me dão o que têm aí ou vão comigo para o posto da GNR.
O Padre Sebastião disse-lhe, São miúdos, faz parte, quem nunca aprontou não cresceu, deixe-os ir que já ganharam para o susto.
O Dez tirou a pedra do bolso e entregou-a ao segurança sob o testemunho do Senhor Prior.
Naquele dia aprendemos várias lições. A primeira delas é que se deve confiar mais em padres do que em seguranças. A avó Déte tem sempre razão.
Entretanto, o Dez-Pás-Duas e o Lamalonga viraram acólitos do Sebastião. A Sirene casou com um segurança, é catequista e professora de canto coral. Eu rezo todas as noites e continuo sem jeito para nada.
Ana Sofia Brito é autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro 2025 o livro de poesia “Tempo” e é ainda autora do podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










