Há uma dimensão do meu pai que, porventura, muitos daqueles que acompanharam a sua longa vida pública desconheciam: Narana Coissoró era hindu. Nasceu em Goa, numa família profundamente ligada às suas tradições, e nunca deixou de reconhecer nessa herança uma parte essencial da sua identidade. [Morreu em 29 de Agosto último] Era português e viveu em Portugal, conservando sempre as raízes que o ligavam à Índia. Apesar de ser hindu, assistiu com respeito a missas e visitas papais.
Eu nasci em Portugal, nas Caldas da Rainha, numa família goesa por parte do meu pai e portuguesa por parte da minha mãe. Tenho um nome e um apelido hindus, mas sou católica. Nunca encontrei nesta circunstância uma contradição. Pelo contrário, cresci com a consciência de que a nossa identidade é feita de várias pertenças e de que nenhuma delas precisa de ser negada para que as outras possam existir.
Recordo-me de, nas idas a Goa, acompanhar o meu pai ao templo de Sri Manguesh. Ninguém me perguntava, à entrada, se era católica ou hindu. Entrava com respeito, descalçando-me como fazem os hindus. A minha fé acompanhava-me naquele espaço de oração, onde o meu pai encontrava a expressão religiosa dos seus antepassados.
Aquela naturalidade parece-me hoje particularmente significativa. Não precisávamos de professar a mesma religião para partilhar o respeito pelo sagrado. A diferença não criava uma distância entre nós, nem exigia que qualquer um renunciasse à sua fé.
Também as minhas tias, em Goa, manifestavam uma curiosidade genuína pela minha prática religiosa. Perguntavam-me pela missa, interessavam-se pelas minhas práticas católicas e acolhiam-me com uma ternura que dispensava explicações. Os hindus participavam nas festas cristãs, os cristãos alegravam-se com as festas hindus. Não se tratava de indiferentismo religioso, mas de uma convivência assente no reconhecimento da identidade de cada um.

Narana Coissoró junto do Templo de Shree Mangesh (Goa, Índia): “A sua identidade hindu não desapareceu com a distância de Goa, tal como a sua integração em Portugal não exigiu o abandono das origens.” Foto do arquivo da família.
Há gestos que guardamos na memória e cujo significado só compreendemos inteiramente depois. Quando me despedia da minha tia, da última vez que fui a Goa, ela levou-me ao lugar de oração da casa. Rezou, pedindo a Deus que me protegesse na viagem e me desse felicidade. Despedi-me dela com o Namasté, juntando as mãos diante do rosto e inclinando a cabeça. Era um gesto simples, mas encerrava séculos de cultura e de afectos.
A Índia ensinou-me também a importância desses gestos. Recordo a primeira vez que cheguei a Goa e a minha tia mais velha me colocou uma grinalda de flores ao pescoço. A hospitalidade, a festa, a atenção aos outros e o respeito pelos mais velhos não eram conceitos abstractos. Faziam parte da vida quotidiana e da maneira como a família se reconhecia a si própria.
O meu pai pertenceu a uma geração de goeses cuja vida atravessou diferentes geografias, culturas e circunstâncias históricas. A sua identidade hindu não desapareceu com a distância de Goa, tal como a sua integração em Portugal não exigiu o abandono das origens. É nesta convivência de pertenças que encontro uma das dimensões mais interessantes da sua história pessoal.
Não somos apenas o lugar onde nascemos, a religião que professamos ou a nacionalidade que temos. Somos também a memória daqueles que nos precederam, as tradições que recebemos e a maneira como aprendemos a transmiti-las.

Narana Coissoró no Templo de Shree Mangesh (Goa, Índia): “O hinduísmo do meu pai faz parte da minha própria história.” Foto do arquivo da família.
O hinduísmo do meu pai faz parte da minha própria história. Não porque seja a minha religião, mas porque pertence ao universo familiar e cultural em que cresci, aos lugares que conheci através dele e aos afectos que continuam a ligar-me a Goa.
A morte do meu pai dá agora uma outra profundidade a estas recordações. Há uma herança que não se encontra nos livros, nos discursos ou nos testemunhos da vida pública. Permanece nos pequenos gestos, nas memórias familiares, nas palavras que atravessam gerações e na forma como continuamos a reconhecer as nossas raízes.
Talvez seja também esse o sentido mais profundo do Namasté: um gesto de respeito e reconhecimento do outro, naquilo que tem de próprio e de diferente. Um gesto que pertence à cultura do meu pai e que continuará a fazer parte da minha.
Smitá Coissoró, filha de Narana Coissoró, é advogada e dinamiza atividades de formação católica e e de diálogo entre a fé, a cultura e a sociedade.










