O homem Jesus Cristo

| 25 Set 19

Está na hora de sublinhar a humanidade de Jesus Cristo. A identidade do Cristo Filho de Deus esconde muitas vezes a sua condição humana, que é talvez aquela que mais deveria influenciar e inspirar homens e mulheres que assumem a fé cristã.

 

André Silva, o líder do PAN, um partido animalista recauchutado de ambientalista, declarou em tempos: “Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.” Os defensores dos animais vão mais longe e afirmam que há características mais humanas em animais do que nalgumas pessoas, ou que há pessoas que não estão em coma e que têm atitudes e pensamentos que os alinham com os comportamentos mais primários. Penso que tais declarações tocam em questões diferentes.

Compreendemos que há seres humanos que revelam comportamentos irracionais e que há animais que estabelecem uma espécie de empatia na interacção com os humanos, como os caninos, por exemplo. Assim como há seres humanos a demonstrar por vezes os comportamentos mais primários. Mas nada disso é suficiente para nivelar a natureza humana com a animal.

O especismo é uma moda dos novos tempos. Não se limita a condenar a crueldade para com os animais mas pretende reconhecer-lhes direitos semelhantes aos das pessoas. Esta variante filosófica só é assumida por partidos fora do sistema democrático a que estamos habituados. Jerónimo de Sousa, por exemplo, declarou recentemente que não conhece “ninguém que não goste de proteger e defender os animais, mas não se adulterem nem subvertam princípios fundamentais do relacionamento do Homem com o próprio animal”. Não será tanto assim. De facto sempre houve quem exercesse crueldade sobre animais. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde tais indivíduos também irão tratar mal as pessoas. Mas a ideia de rebaixar o ser humano ao nível do animal irracional é repulsiva.

Os animalistas caracterizam-se por só defenderem certos tipos de animais, deixando de fora dos seus cuidados todos os outros. Porque defender apenas ou animais domésticos? Ou os touros? Ou os animais do circo? E porque não os répteis, os ratos, as baratas ou os piolhos? Não pertencem também ao reino animal? Os animalistas são perigosos, dada a tendência autoritária e proibicionista que revelam. No caso português, o seu programa eleitoral não apresenta um projecto político consistente para a governação do país, sendo omisso, superficial e inconsequente.

Peter Singer, conhecido académico de filosofia em Princeton, tem escrito obras sobre ética aplicada, onde defende que se considerem alguns animais não humanos como pessoas, atribuindo à sua vida valor idêntico à dos humanos. Vai mesmo mais longe ao defender que alguns membros da espécie humana não são pessoas, enquanto alguns das outras espécies são pessoas. Mas colocar os seres humanos ao nível dos animais é patético, insultuoso e completamente contra-natura, quanto mais inverter a lógica…

Este fulano foi o mesmo que defendeu a ideia adiantada pelo PAN de que uma pessoa sem consciência de si já não deve ser considerada humana e propôs que os hospitais deveriam desligar as máquinas, por razoabilidade económica. Mas quando a sua própria mãe entrou nessa situação gastou tudo o que tinha para a manter viva… Confrontado pelos seus alunos face a tal incoerência, justificou-se dizendo que, quando se trata da nossa mãe é diferente. Estamos conversados sobre a sua honestidade intelectual.

Para um cristão, os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus. Entenda-se imagem e semelhança moral e espiritual: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Génesis 1:26). A restante natureza como os mundos animal, vegetal e mineral, serão parte da Criação e por isso devem ser respeitados e protegidos, mas não receberam o espírito divino. A Torah explicita que o ser humano recebeu mandato de os proteger, assim como de preservar o ambiente, mas não de os exterminar ou degradar.

Não é subvertendo as regras do jogo que o faremos. Tratar animais como pessoas e seres humanos como animais irracionais é subverter o processo. Deixar morrer de fome uma criança pobre e criar animais de companhia como nababos é crime de lesa-humanidade. Alguns chegam a deixar fortunas em herança ao seu animal de estimação, que algum advogado irá depois gerir, sabe-se lá como… Tais aberrações só se explicam pela desumanização desenfreada a que assistimos, essa loucura que atacou há muito as pessoas e as suas relações umas com as outras.

Talvez valesse a pena – pelo menos aos que se assumem cristãos – conhecer o que os textos bíblicos que falam sobre os animais e a natureza, em especial o que disse Jesus Cristo sobre a matéria. Mais importante, ainda, será olhar para o Jesus Cristo homem, nascido de mulher, e entender como dignificou a condição humana como nunca ninguém antes dele tinha feito. Sempre se referiu ao mundo animal: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta” (Mateus 6:26) e vegetal: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam” (Mateus 6:28”) com atenção, respeito e carinho, mas nunca os considerou iguais ou superiores ao seu humano: “Não tendes vós muito mais valor?” (Mateus 6:26).

Mas agora é in chamar Alfredo a um cão e Bo a um menino.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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