O homem que o povo alemão pedia

| 24 Jan 21

Porquê escrever, a pretexto de um dia em memória das vítimas do Holocausto, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história? Porque também hoje pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pelo abandono e pelo medo.

“Porque um Hitler só surge no seio de um povo que tenha o desejo e a vontade de ter um Hitler”. Foto: Auschwitz-Birkenau-Polónia

 

Na próxima quarta-feira, dia 27 de Janeiro, comemora-se o Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto. Mas começo este artigo citando, não as palavras de uma vítima, mas as de um nazi, Baldur von Schirach. Antigo chefe das juventudes hitlerianas, Schirach escreverá em 1967, depois da sua saída da prisão, o seguinte: “A catástrofe alemã não advém apenas do que Hitler fez de nós, mas do que nós fizemos de Hitler. Hitler não veio do exterior, não era, como muitos imaginam, uma besta demoníaca que se apoderou do poder sozinho. Era o homem que o povo alemão pedia e o homem que nós tornámos senhor do nosso destino, glorificando-o sem limites. Porque um Hitler só surge no seio de um povo que tenha o desejo e a vontade de ter um Hitler.”

Palavras sábias, mas, como sabemos, tragicamente tardias. Apesar disso, são um tema de reflexão bem actual. Nenhum homem, nenhuma mulher consegue por si só mobilizar todo um povo, por muito carisma, força e convicção que tenha. Adolf Hitler era um fracassado: nos seus estudos – a sua candidatura à Academia das Belas Artes foi chumbada por duas vezes –, um homem incapaz de se relacionar socialmente e nomeadamente com as mulheres, sem trabalho certo nem perspectivas de futuro. Um homem ressentido, frustrado e azedo. As únicas actividades políticas que se lhe conhecem antes da Primeira Grande Guerra eram debates em cafés e cervejarias onde destilava a sua cólera e ódio perante uma assistência fascinada de basbaques.

É a guerra e a derrota, a revolução de 1918 e a República de Weimar, assim como a grande crise de 1929, que levam à radicalização da sociedade alemã, tornando-a permeável ao discurso de ódio de um homem que não passava de um demagogo e um propagandista de taberna. Hitler alimentava o ódio das massas com os seus próprios ódios. Se a sua verborreia fanática e histérica mobilizava multidões, era porque o clima de ressentimento e cólera reinante entre a população era favorável a essas ideias. De propagandista de cervejarias, Hitler passa assim a propagandista de comícios de massas organizados pelo partido, o NSDAP, onde o seu tom agressivo e violento era um autêntico “fogo-de-artifício político”. É o único que atrai multidões, sempre com os mesmos temas: a traição de 1918, os inimigos a abater, os exploradores e especuladores, o governo corrupto, os judeus, sempre os judeus… Começa nessa altura o culto de Hitler, a sua adulação, um líder incontestado, “o líder que a Alemanha aguardava”, como escreveu, na altura, o jornal anti-semita Volkisher Beobachter…

É na prisão, no seguimento da tentativa frustrada de um golpe de Estado em 1923, que Hitler começa a reflectir e a pôr no papel – o Mein Kampf – as suas ideias, a sua missão política no final da pena e, sobretudo, a construção da sua própria imagem como líder absoluto que esperava vir a ser, o salvador da Alemanha. Apesar de não se poder ler nos dois tomos do Mein Kampfuma política concreta da “solução final” tal como será posta em prática, no Outono de 1941, no seguimento da invasão nazi da URSS e delineada na conferência de Wannsee, em Janeiro de 1942, os seus escritos já contêm as bases do genocídio: a relação entre a aniquilação dos judeus e a salvação nacional já está na mente de Hitler, embora ainda não na forma de um programa concreto. Para o obreiro da pior tragédia do século XX, o judeu não é um simples bode expiatório, mas um inimigo a derrotar, um inimigo mortal da humanidade contra o qual esta tem de travar um combate radical como forma de sobrevivência. Hitler é o missionário desta guerra sem tréguas, apresentada como uma guerra defensiva.

Como? Ele explica: para ganhar esta guerra e destruir “o bacilo dissolvente da humanidade”, é necessário conquistar as massas e “nacionalizá-las”, despertando nelas a consciência alemã. Para isso é preciso uma propaganda adequada limitando-se a alguns pontos centrais e fórmulas estereotipadas, porque “a faculdade de assimilação da grande massa é restrita e de entendimento ainda menor”. Para Hitler, o movimento nazi só pode ser antidemocrático quer na sua organização, quer nos seus princípios. “Quem acredita ainda que o progresso humano, mesmo mínimo, possa surgir do cérebro das maiorias e não da cabeça de um homem? Quando o princípio parlamentar da autoridade das maiorias se sobrepõe ao princípio da autoridade de um só e substitui o chefe pelo número e pela massa, ele vai contra o princípio aristocrático da natureza.”

Continua Hitler, “A força de um partido não reside de forma alguma na inteligência e independência de espírito de cada um dos seus membros, mas na obediência e espírito de disciplina com os quais estes seguem o comando espiritual”. Para ele, a conquista das grandes massas não se faz num parlamento, faz-se na grande reunião pública, no grande comício – único meio capaz de exercer nas multidões uma influência real, porque pessoal e directa. “A grande massa do povo submete-se sempre ao poder das palavras incendiárias atiradas para o seio das massas – nunca pelos jactos de limonada de literatos estetizantes ou de heróis de salão”.

Em suma, o ódio ao judeu e a sua erradicação como forma de salvação não apenas da Alemanha, mas da humanidade, a rejeição violenta do bolchevismo e da social-democracia, atrás dos quais está sempre o “criminoso” judeu, a exaltação mística, fanática e messiânica da pátria e do sangue alemão, o culto do chefe, messias-salvador da massa bruta e ignorante, tudo isto e muito mais que irá alimentar a guerra e o genocídio, está contido no Mein Kampf de Hitler. Infelizmente, os seus opositores na época não levaram a sério os seus escritos, muitos ridicularizaram-nos ou desvalorizaram-nos. Cometeram um erro de consequências trágicas…

Porquê escrever, a pretexto deste dia de memória das vítimas, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história e por uma guerra que destruiu milhões de vidas humanas, marcando para sempre a Europa e o mundo? Porque também hoje e em todo o mundo pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, o seu fracasso e mediocridade, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pela pobreza e pela desigualdade, pelo abandono e pelo medo. E porque se há uma lição a reter é que devemos levar a sério o que dizem.

A 30 de Janeiro, às 11h da manhã de 1933, Adolf Hitler foi nomeado chanceler do Reich. “Hitler é o chanceler do Reich. Exactamente como num conto de fadas”, comentou Goebbels. Ou “um salto na escuridão”, como o classifica um jornal católico. O que se passou nessa escuridão já todos sabemos…

 

Esther Mucznik é estudiosa de temas judaicos; o texto foi inicialmente publicado no Público de 23 de Janeiro e é aqui reproduzido com autorização da autora.

 

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