
Dança dos Ratos, atribuído a Ferdinand van Kessel the Elder (1648–1696). Museu Städel, Frankfurt. / Wikimedia Commons
E foi por isso que o mundo desabou.
Em baixo, os corredores labirínticos abrigavam mais vidas do que se pensava. Vez por outra, um foco luminoso banhado a partículas sem cor, longínquo e quase despercebido, espreitava pelas frechas que a terra permitia.
O rei gordo, o rato dos ratos, o Ratazano, era dos poucos que saia para se passear na claridade. Não gostava, encandeava-se. Se é que se pode chamar coragem ao ato de afrontar, então o Ratazano era corajoso. Desbastava as unhas, esfregava os bigodes na pedra mais lustrosa do subsolo, esbugalhava os olhos e andava erguido pelo mundo da luz. Estranhava o mais que lhe fosse possível, depois descia…
Lá em baixo, os ratos sustentavam a podridão esburacada da negritude. Enquanto eles lá estivessem, a Terra não havia de desabar. Davam sustento ao esgoto e às caves sem coração. Se vistos de longe, pareciam formigas. Pareciam carreiros. Mas era pior, aquele mundo, bem pior. Tantas vezes entremordiam-se nas pontas das caudas e o sangue – porque não havia luz para se lhe enxergar a violência da cor – era só um líquido em estado de putrefação por onde a indiferença navegava solene.
O Ratazano, quando subia à superfície e suportava a claridade por mais de um qualquer tempo, quase sempre procurava buracos para se esconder e respirar a sombra. Também os havia lá em cima, os buracos. Bem escondidos, mas havia-os. Ah, se os havia. Eram restos guardados em surdina para a oportunidade do futuro. E a lucidez coitada, tão ingénua, não se dava conta. Mas o Ratazano, esse sim, descobria tudo quanto era viscoso. Faro apurado.
Notou que havia resquícios culturais do subsolo e inchou-se de contente. Voltava de dentes arreganhados para debaixo do chão e comunicava que havia esperança na superfície… um dia, poderiam voltar a ocupá-la e abandonar de vez o mundo intraterreno. Tinham saudade dos megafones, muita saudade. A saudade, quando é muita, torna-se manipuladora de memórias.
Os ratos, por sua vez, desconfiavam. Quem fede sabe o quanto fede; porque nariz próprio não tapa narinas. “Não, ninguém nos suportaria à superfície”, pensavam.
Mas o Ratazano ia ganhando espaço e coragem (se é que se pode usar este conceito de coragem em casos de afrontamento às leis divinas), e cada vez menos a claridade o incomodava. Cresceu, cresceu muito. Ocupava muito espaço. E os ratos lá em baixo, famintos, à espera da oportunidade. Os dentes muito arreganhados, o fedor tão intenso – a sangue venenoso. As frechas a serem cada vez mais. Sim, as frechas a serem cada vez mais, propositadamente. Quanto mais frechas, mais perigo. Tinham de habituar os olhos à claridade para o dia em que ocupassem a superfície.
O Ratazano, depois de todo o ensaio – ensaio de anos a inchar -, subiu ao púlpito da caverna labiríntica e mesmo sem luz orou à rataria:
- Contei-os. Sei-os de cor. Descobri a quem fazer de cobaia e a superfície é nossa. Subamos, irmãos.
Enquanto orava viam-se os raios a exaltarem-se-lhe pelos olhos fora, como quem aponta o lazer a abrir caminho à bala. Os olhos do Ratazano são armas carregadas de ódio.
Abandonaram os buracos por debaixo dos pés do chão, escalaram à tona como vampiros em dia de festa – que é como quem diz: em dia de guerra – e o inferno ficou oco.
E o inferno ficou oco. E o inferno ficou oco. O inferno ficou oco, e a superfície sobrecarregada.
E foi por isso que o mundo desabou.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024, tem como mote uma crónica publicada no 7MARGENS










