Em tempo de Quaresma vem-me sempre à memória um pensamento repetido, sobre como na infância e adolescência fui assaltado pela doutrina da tristeza e do medo.
Nesta época, nesse tempo, fui sujeito às cores lúgubres das igrejas, aos olhares envinagrados e deprimidos dos crentes, ao sangue que escorria nas imagens que estaticamente nos olhavam sem cessar, com cabelos longos de uma qualquer devota oferenda, aos tormentos apregoados desde o púlpito que não se destinavam a libertar.
Com o tempo aprendi a ler a origem das coisas, a perscrutar na raiz dos textos e nas tradições ancestrais do cristianismo.
Nos evangelhos o conceito de inferno é apresentado pelas palavras de Jesus, nas versões gregas mais antigas, com matriz na doutrina judaica.
O termo mais forte que encontrei foi Gehenna (γέεννα) que se refere a um vale ao sul de Jerusalém que era usado pelos pagãos para sacrifícios humanos e incineração de corpos de criminosos (2 Reis 23:10).
Jesus usou o fogo como metáfora para o julgamento final porque representa a purificação pela destruição do mal, num lugar que era de desonra e vergonha (Mateus 5:22-30, 10:28, Marcos 9:43-47).
Mas o termo que transmite de forma clara esse estado das almas para descrever a separação com Deus será o Hades (ᾅδης), que tem a ver com Sheol do Antigo Testamento (Eclesiastes 9:10, Génesis 37:35, Job 10:21-22); não é exactamente o inferno do julgamento final, mas o mundo dos mortos, um lugar temporário de espera, sombrio e silencioso, de inactividade e inconsciência, consciente de separação de Deus (Mateus 11:23, 16:18, Lucas 10:15, 16:23).
Poderíamos ainda recorrer à imagem que Jesus usou para transmitir a ideia de exclusão total da presença de Deus que é Luz por oposição; é estar fora do banquete da Salvação, na escuridão completa (Mateus 8:12, 22:13, 2Tessalonisences 1:9)
O inferno não é como o pintam a partir da Idade Média, mas um ensino claro de Jesus, apresentado como consequência trágica da rejeição de Deus.
Se a partir da época medieval passou a haver espaço para uma narrativa dos diferentes castigos e cenas de pecadores arrastados por demónios para o fogo, criando uma visão tormentosa do suplício e medo, na iconografia dos primeiros tempos tal não acontecia.
Entre os ortodoxos, a representação do Hades (“inferno”) não é um lugar de tortura contínua como as imagens latinas, mas a “Descida de Cristo à Mansão dos Mortos”, chamada de Anástasis ou Ressurreição.
Cristo quebra as portas do Hades e liberta Adão, Eva e os justos; Cristo está vitorioso no centro, luminoso, símbolo de glória, sobre as portas esmagadas pelos seus pés, que indicam a derrota da morte figurada como uma fenda negra, rodeado pelos profetas como sinal de continuidade da história da Salvação.

O ícone da Ressurreição não é escrito para chocar, induzir em medo, mas para ensinar visualmente a verdade da redenção.
Alberto Teixeira é cristão ortodoxo
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