O inimaginável amanhã

| 5 Mai 20

“(…) A escrita favoreceu o aparecimento de poderosas entidades ficcionais que organizaram as vidas de milhões de pessoas e deram novas formas à realidade de rios, pântanos e crocodilos. Ao mesmo tempo a escrita fez com que fosse mais fácil para os homens acreditarem na existência de tais entidades ficcionais, porque acostumou as pessoas a experimentarem a realidade através da mediação de símbolos abstratos.” Diz isto Yuval Noah Harari, em Homo Deus, História Breve do Amanhã.

Bem mais à frente, na mesma obra, pode ler-se: “No início do século XXI o comboio do progresso está novamente a partir e esse será provavelmente o último comboio a sair da estação chamada Homo sapiens. Aqueles que perderem esse comboio não terão uma segunda oportunidade. Para se conseguir um lugar é preciso compreender-se a tecnologia do século XXI, em particular os poderes da biotecnologia e dos algoritmos informáticos.”

No fim da mesma obra, encontramos mais este pedaço de texto: “Se pensarmos realmente a longo prazo, há três grandes processos ligados entre si que ofuscam todos os outros problemas e progressos:

  1. A ciência está a convergir para um dogma abrangente, segundo o qual os organismos são algoritmos e a vida consiste no processamento de dados.
  2. A inteligência e consciência estão a seguir caminhos separados.
  3. Em breve alguns algoritmos não conscientes mas de inteligência superior poderão conhecer-nos melhor do que nós próprios.

Estes três processos levantam consequentemente três questões-chave (…):

  1. Será que os organismos são apenas algoritmos e a vida não é mais do que processamento de dados?
  2. O que tem mais valor, a inteligência ou a consciência?
  3. O que acontecerá à sociedade, à política e à vida quotidiana quando os algoritmos não conscientes mas de inteligência superior nos conhecerem melhor do que nós próprios?”

É verdade que estas pareciam ser as questões inquietantes para o ser humano até há cerca de três ou quatro meses. É verdade que as dúvidas podiam ser formuladas como certezas obrigatórias porque o dominador humano recriava-se para além de si mesmo sem se inquietar com esta possibilidade de perder o controlo das suas criações. É verdade que, no imprevisível mundo novo que aí vinha, o que era difícil era fazer parar as engrenagens que pareciam não ter fim nem interrupção possível e que negavam a essência do próprio humano.

Mas, de repente, algo de bizarro cruzou os nossos céus, os nossos mares, as nossas montanhas e percorreu de lés a lés todo o espaço que encontrou. Não houve algoritmos que o previssem nem que o detivessem, nem humanos que o pudessem conter.

E agora?

Estamos de mãos atadas. O mundo inclinou-se, não por reverência, mas pela ameaça; o homem recolheu-se, não para descansar, mas para se proteger; os viajantes passaram a ficar em casa; os turistas regressaram aos seus países quase, ou mesmo, em aflitiva emergência; as imparáveis reuniões de trabalho passaram a ser feitas através de meios virtuais; as aulas começaram a ser dadas, outra vez, pela televisão (muitos já não se lembram, mas isto ocorreu num passado não muito longínquo); …

E, depois?

Depois disto tudo não sabemos. E, provavelmente, é com esta incerteza que vamos ter de aprender a lidar. Ou seja, o homem estava disposto a perder o controlo da sua criação, como se isso o mantivesse deus de si mesmo. Agora perdeu o controlo do seu sobreviver, mas em consequência do que não criou ou do que algum “escondido” terá criado. Tudo, assim, lhe parece bem pior porque o que tem de deixar de fazer transcende por completo a sua imaginação.

Precisa-se de quem adivinhe o futuro com uma boa dose de realismo; precisa-se de quem preveja a nova forma de vida; precisa-se de quem saiba viver sem abraçar, mas não perca a esperança de o poder voltar a fazer; precisa-se de quem saiba aparecer de rosto parcialmente defendido e não se sinta um extraterrestre em planeta próprio; precisa-se de quase tudo para poder voltar à vida tal como ela se nos apresentava quando era uma maravilhosa promessa.

O homem perdeu a convicção de omnipotência e isso é muito útil. Inútil é o preço que todos estamos a ter que pagar por isso. Assim sendo, aprendamos com a humildade, a que fomos obrigados, a tentar construir um mundo novo a partir dos escombros da nossa imaginação e utilizando a melhor versão de nós mesmos.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

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