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O inimigo está à espreita e não é Karl Marx

| 31/01/2022

“A crítica do padre Nelson Faria à “divisão primeva entre opressores e oprimidos, sem espaço para matizes”, que caracteriza o marxismo, deixou-me a pensar: o que seriam os matizes numa relação de opressão?” Ilustração: “Marxism” © rdesign812, licença CC BY-NC-ND 2.0

 

Num artigo publicado no Ponto SJ, o portal dos Jesuítas em Portugal, com o título “O marxismo não é para católicos”, o padre Nelson Faria faz a crítica do marxismo como uma ideologia “assente na inevitabilidade do conflito”, que nos arrasta “para um perpetuar do conflito”.

Ao ler este destaque, que aparece junto ao título e num dos últimos parágrafos, poderíamos julgar que, ao contrário do que o título sugere, o artigo seria um ensaio positivo e construtivo sobre uma Igreja que é para todos e para todas (até porque, até onde sei, Jesus Cristo não tinha partido, nem se lhe conhece nenhuma ideologia). Mas não. Vemos um texto assente, precisamente, na inevitabilidade do conflito, que nos arrasta para um perpetuar da polarização e de tiques elitistas e ostracizantes de alguns representantes da Igreja que, como católica, muito me entristecem.

Logo no segundo parágrafo, o autor do artigo refere que a “religião como instrumento de dominação” é um dos grandes temas em que salta à vista a contradição intrínseca a um marxista católico. Ora, assumir que a religião foi (e ainda é) usada como instrumento de dominação de homens sobre mulheres, de colonizadores sobre colonizados, de adultos sobre crianças, ou de patrões sobre empregados, não faz de alguém menos ou pior católico; mas diz bastante sobre a sua capacidade para encarar a realidade e crescer na Fé a partir daí. Veja-se o próprio exemplo do texto em análise: o que é senão uma forma de dominação/manipulação, ainda que possa ser irrefletida ou inocente, a publicação de um artigo desta natureza, num site como o Ponto SJ, em plena campanha eleitoral?

A crítica do padre Nelson Faria à “divisão primeva entre opressores e oprimidos, sem espaço para matizes”, que caracteriza o marxismo, deixou-me a pensar: o que seriam os matizes numa relação de opressão? Se são os oprimidos dentro das classes opressoras, ou os opressores dentro das classes oprimidas, então temos o assunto resolvido, porque aquilo a cujo fim mira o marxismo é a opressão em absoluto. Um mundo sem patrões que oprimem os seus trabalhadores ou sem ricos que oprimem pobres. Ou, pelo menos, um mundo em que a nossa vida e o lugar que ocupamos na sociedade, o de opressor ou o de oprimido, sejam menos determinados pelo hemisfério, o país, ou o berço em que nascemos.

O autor deste artigo faz, às tantas, uma cedência, admitindo, “relutantemente, que sendo difícil de defender, um católico pode afirmar-se marxista rejeitando estas duas visões [a visão de Deus como projeção humana e da religião um instrumento de dominação; e a visão sobre a propriedade privada], pois é legítimo arguir que, atualmente, só as franjas mais radicais dos movimentos marxistas permanecem inamovíveis nestes temas.” Presumo então que, aos olhos deste padre católico, seja melhor assumirmos que só com muita relutância um ateu aceitará que a Igreja é um corpo de paz, já que a sua história está cheia de guerra.

A crítica do padre Nelson Faria à visão marxista das relações de opressão causa também alguma estranheza: “o que temos agora não são dois agentes em busca do bem comum e abertos à intervenção de um terceiro, mas opressores e oprimidos em conflito aberto.” Mas o que é, afinal, suposto esperarmos de uma relação entre opressores e oprimidos?

Ao dizer que “diante do fracasso da luta de classes, o marxismo encontrou um lugar fecundo na luta contra a discriminação racial, de género ou de orientação sexual”, o autor deixa implícito que o marxismo desistiu da luta de classes, substituindo-a por outras lutas de libertação. A questão é que a filosofia marxista vê no fim do capitalismo a solução para o fim de todas as opressões, incluindo a de classe, já que é ele que as perpetua e legitima. A libertação de uns, com o fim do capitalismo, é a libertação de todos, e todas estas lutas se encontram, tanto no fim como na origem. Por outro lado, se o suposto monopólio do marxismo sobre a luta contra a discriminação racial, de género ou de orientação sexual é uma preocupação da Igreja Católica, porque não a vemos na linha da frente dessas lutas, firme e inequivocamente, preferindo, ao invés disso, perpetuar e alimentar tais discriminações, dentro e fora de si? “O género, a cor ou a orientação sexual de alguém diz-nos muito pouco sobre quem a pessoa é”, mas diz-nos muito sobre aquilo que a pessoa viveu, sobre aquilo que a pessoa passou até estar onde está e sobre o que é preciso mudar para que não se repita. Reduzir as lutas contra as discriminações a uma “política de aparências” não é só perigoso, é também intelectualmente desonesto.

Não posso dizer que sou marxista. Também não posso dizer que não sou. O meu conhecimento da filosofia marxista é insuficiente e sou pouco adepta de rótulos e afirmações categóricas e irrevogáveis. Mas tenho vindo a descobrir cada vez mais pontos de encontro com o marxismo que, mais do que me engavetar, me ajuda a perceber o capitalismo, os seus perigos e fragilidades. Presumo que, para o autor (um pastor da Igreja, supostamente com algum poder arbitral nesta matéria), o que não sou é digna de me professar católica. Ele vai criticando, parágrafo após parágrafo, um suposto maniqueísmo do marxismo, esquecendo que todo o seu artigo é uma ode ao maniqueísmo e à divisão do mundo entre bons e maus. E fechando a porta da Igreja a qualquer um que (vade retro!) ouse explorar a possibilidade de a luta de classes ser o meio principal para acabar com a opressão e a exploração (e a discriminação, ou as desigualdades).

À hora a que acabo de escrever este texto estão já firmados os resultados eleitorais. Como terceira força política, temos um partido racista, xenófobo e misógino, cujo programa preconiza o uso da força com os mais fracos e da brandura com os mais fortes. O líder deste partido faz de Deus bandeira para a sua doutrina, encena photo opps em igrejas, ajoelhado em oração, e deixa cair um “acabei de sair da missa” em plena noite eleitoral. É mesmo com o marxismo que, neste momento, a Igreja está preocupada?

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing. Contacto: anapontovasquez@gmail.com

 

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