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O intolerável sexo, mesmo que abordado sensata e evangelicamente

| 27/01/2024

Bênçãos de homossexuais na Alemanha: “Já havia padres que abençoavam essas pessoas e a Igreja não se afundou”. Foto: Direitos reservados.

Bênçãos de homossexuais na Alemanha: “Já havia padres que abençoavam essas pessoas e a Igreja não se afundou”. Foto: Direitos reservados.

 

1. O sexo, algo naturalmente inerente à vida, aos mamíferos em geral e ao homo sapiens em particular, foi e continua a ser uma maldição terrível que paira sobre a Igreja Católica. O mesmo sucede nas outras igrejas cristãs, mas parece que um pouco menos, pois algumas delas conseguem ordenar mulheres e elaborar – ainda que por vezes com graves crises – sobre matérias de natureza sexual.

O sexo, a sexualidade e a afectividade continuam a ser lidos segundo critérios e valores de há muitos séculos, sendo um dos redutos mais firmes de ignorância e intolerância face ao conhecimento secular. E parece que não há evangelho, inteligência ou afecto que consiga contrariar este padrão.

Em 2022, o padre jesuíta Hans Zollner, então responsável da Protecção de Crianças no Vaticano, dizia em Lisboa que lhe parecia existir alguma coisa específica no ethos católico que mereceria ser melhor estudada, pois tem impedido a compreensão da sexualidade humana e suportado ou gerado importantes distorções comportamentais a este nível na Igreja (o que mereceu uma referência não muito desenvolvida num artigo do 7MARGENS).

Pessoalmente, por mais explicações que receba de historiadores e teólogos, estou muito, muito longe de perceber os motivos desta repugnância sistémica cristã – e em especial católica – a tudo o que se aproxime do tema sexual. Mas tornou-se claro para muita gente, fora e dentro da Igreja, que esses motivos nunca são bons porque ignoram olimpicamente o que é a sexualidade e o que representa ou pode representar na vida humana.

A argumentação moral não passa de um constructo com fundamento mais de ordem (chamemos-lhe por facilidade) terrena e ideológica que propriamente teológica, reconhecidamente com objectivos de controlo comportamental e espiritual de corpos e almas.

 

2. Esta introdução faz-se a propósito do que tenho lido no 7MARGENS (onde mais?) sobre:

(a) as reacções a Fiducia Supplicans, documento do Vaticano que avança com uma – algo equívoca – benção a casais homossexuais ;

(b) uma espécie de insurreição clerical contra o documento do CNE – Corpo Nacional de Escutas, designado “Posicionamento Institucional sobre a vivência da afectividade e da sexualidade no programa educativo do CNE” .

 

3. Sobre Fiducia Supplicans. Para mim, a grande questão é não alcançar os motivos morais e teológicos da resistência ao documento, cujo teor é moderadíssimo.

Pessoalmente gostaria que se tivesse ido mais longe, mas percebe-se que a notabilíssima estratégia de Francisco tem naturais limitações. Por um lado, Francisco é quem é com os seus antecedentes, a sua visão e os seus quase 90 anos; por outro, o Papa sabe que pisa terreno minado e que tem de ir devagar, sendo agora o mais importante, porventura, iniciar um trajecto, mesmo sabendo de antemão que se erguerão formidáveis obstáculos mesmo perante um ensinamento bastante elementar: receber na Igreja todos os filhos de Deus, na sua diversidade. Os fortes contra-pesos que o próprio documento encerra não se mostram suficientes para aplacar a fúria de quem vê uma absurda ortodoxia ser interrogada. Há que perguntar em que Jesus Cristo, em que Deus, em que teologia do amor e da bondade se fundamenta essa ortodoxia que exclui em vez de incluir e que detesta em vez de amar ou, pelo menos, escutar e aceitar.

Objectivamente: qual será o problema de dois filhos de Deus do mesmo sexo se amarem e viverem juntos?; onde estará o erro, a anormalidade, o pecado, a transgressão, a violação de valores éticos, morais ou evangélicos (não os doutrinais que são secundários, instrumentais e datados) numa união desse tipo?; que terríveis consequências (de qualquer tipo) poderão advir de um amor entre dois homens ou duas mulheres?; que fantasmas assombrarão essas mentes perversas que se mostram incapazes de admitir o amor onde ele existe?, porquê matar a felicidade onde ela pode ocorrer?

 

4. Sobre o documento “Posicionamento Institucional sobre a vivência da afetividade e da sexualidade no programa educativo do CNE”, a notícia do 7MARGENS de 11 Janeiro dá-nos conta de reacções que, logo que lidas, se percebe serem enquadráveis no habitual tom ideológico conservador, o que não surpreende mas continua a chocar pela persistente pestilência do seu evidente bafio. Incomoda, irrita, enjoa já a perene resistência que estes sectores insistem em exibir sempre que adivinham uma oportunidade de a exibir, isto é, sempre que lhes cheira vagamente a pós-modernidade, uma época praticamente já encerrada na sociedade, mas que ainda é um futuro indesejável para grande parte (a maioria?) da Igreja.

Perante a notícia de insurreição (atrevida designação minha) – que os insurrectos declaram ser quase total enquanto os autores do documento relativizam (fazendo uma bissetriz imaginária, estimo que esta estará mais próxima dos primeiros que dos segundos) – segui o caminho metodologicamente mais honesto: ir à fonte e ler o polémico documento.

A primeira surpresa é a sua concisão: apenas sete páginas mas densas, coerentes e de boa clareza expositiva. Se bem que um ou outro parágrafo ou detalhe pudesse ter melhor redacção (mesmo os desacordos podem ser motivo de reflexão e de aprofundamento), tal não hipoteca o documento que classificaria de refrescante e útil. Mas houve outras: a sua bonita e invulgar ordenação gráfica, o uso de conceitos operativos do século XXI (caramba, gente deste tempo!) e de parâmetros morais claros e, por último, uma filiação muito clara na ideia de uma Igreja sinodal, que caminha e que pensa enquanto caminha, num espírito de construção e de serviço, neste caso aos jovens escuteiros. No fundo, deverá ser isto que os insurrectos verdadeiramente não suportam: ver que há quem caminhe e pense, em vez de estar meramente sentado em cima de uma doutrina que já ninguém percebe nem pratica, porque em si mesma se tornou incompreensível e impraticável.

De novo, objectivamente: é preciso dizer com clareza que em nenhum momento o documento propõe ou de algum modo insinua qualquer forma de sexualidade desordenada, anárquica, errada ou condenável. Bem pelo contrário: os seus conteúdos são muito responsáveis e sensatos.

Ainda assim, suscitam a fúria clerical. Aliás, é curioso que num movimento de leigos, sejam os assistentes a tomar a palavra. Essas reacções mostram-se, como sempre, eminentemente ideológicas e de cariz acentuadamente conservador (ou pior). Como tenho procurado assinalar em vários textos no 7MARGENS, um dos maiores desafios da Igreja actual é a sua descontaminação ideológica, critério indispensável para podermos ler melhor o Evangelho e a mensagem de Jesus.

A notícia sobre a insurreição traz-nos exemplos terríveis: “O padre Rui Silva assinalava que aquilo que o posicionamento faz é ‘deixar de promover entre os jovens a meta da pureza e da castidade’, o que ‘constitui um grave erro, pois significa deixar de iluminar a vida com a fé’ ”. Se bem que a prosa do sacerdote seja confusa, o temor é suficientemente claro na expressão de concepções anacrónicas de vida, de sexualidade, de juventude e de Igreja. Pessoalmente, enquanto católico adulto, não alcanço o automatismo referido e vejo mesmo uma impossibilidade lógica na relação entre castidade e pureza (bacteriana, viral, ideológica, teológica?) e uma vida iluminada com a fé cristã. Quem não é puro e casto (naquela acepção) está impossibilitado de uma vida de/com fé? Modestamente, creio que se tais posições já não serviam os jovens de ontem e anteontem, menos ainda servirão os de hoje e os de amanhã.

Mas o 7MARGENS diz-nos mais: um outro sacerdote (Pedro José Lopes Correia) no seu Facebook defende que “O CNE (…) não deve (…) emitir opiniões ambíguas, equívocas, confusas (…) que contrariam claramente a doutrina oficial da instituição a que pertence (…). Deus (…) convida-nos e desafia-nos a trabalharmos sobre nós próprios: sobre o nosso egoísmo, sobre a nossa autossuficiência, a nossa arrogância e pretensão, sobre as nossas teimosias e infidelidades (…)”. Abstractamente é difícil discordar, mas não se alcança a aplicabilidade ao tema em questão. Não nos é explicado como é que a sexualidade pode, em si mesma, ser sinónimo de infidelidade, arrogância ou infidelidade, ou qual o prejuízo de um jovem, por definição em evolução, querer ser auto-suficiente.

Sobre o escandaloso assunto de homossexuais na Igreja, acrescenta que “uma coisa é a delicadeza e o respeito, outra coisa é promover, normalizar, banalizar… a sua prática (veja-se a publicidade, a literatura, as televisões, o cinema, as abordagens na escola e, agora, até dentro da própria igreja)”, tese completada por um antigo escuteiro num artigo no inevitável Observador (mais ideológico não há, certo?) que aludia uma “tentativa de assalto, marcada pela agenda ideológica, que está a ser feita ao Corpo Nacional de Escutas”. Subjacente a esta bem conhecida tese que integra todas as cartilhas extremistas, está a omnipresente obsessão da ideologia de género, uma formidável tolice (lamentavelmente, ao que se diz, construída no Vaticano) que foi rapidamente apropriada pelos sectores políticos mais conservadores de todo o mundo que encontraram nela um vector de oposição à consagração plena dos direitos humanos.

Convém lembrar que a carta dos direitos humanos são a expressão mais fina em território leigo dos princípios cristãos e evangélicos, coisa que se sabe ser detestada pelos sectores retrógrados da Igreja.

 

5. Este caldo cultural retrógrado e reaccionário (no sentido estrito da expressão) que se expressa numa redução da fé a uma moral individual e ideologicamente marcada acaba de definir uma identidade católica que se mostra muito distorcida face ao Evangelho. Ela impede a escuta e a compreensão da realidade, definindo-se basicamente por oposição ao mundo exterior que é sistematicamente interpretado como ameaçador.

Uma Igreja sinodal precisaria de olhar também para isto. Porém, num plano mais imediato, uma das possíveis conclusões decorrentes dos dois episódios referidos é a necessidade de uma agenda que inclua a reforma do pensamento católico sobre a sexualidade, trazendo-o rapidamente ao século XXI. Entre o ridículo da castidade como virtude e uma sexualidade desordenada e/ou irresponsável existe uma ampla gama de possibilidades de afectos e sexualidade saudáveis, ordenados, decentes e conscientes, pautados por critérios de afecto/amor.

Uma profunda alteração e actualização de mentalidades é necessária para que toda a Igreja possa compreender melhor a sexualidade humana. Freud, Reich, Kinsey, Master e Johnson, entre outros, continuam a ser ilustres desconhecidos dos católicos, ou tidos por ameaças profanas. Não são tal! Mesmo não concordando com tudo (e porque concordaríamos?) o que referem nos seus estudos tornam-nos autores indispensáveis, tal como muitos outros posteriores.

Bem alertava a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa no relatório final de fevereiro de 2023 para essa necessidade, nomeadamente ao referir que era necessário

  • “Repensar todo o tema da sexualidade, enquanto matéria a tratar aos vários níveis no interior da Igreja” (8.2.2. – 4.d), pág. 453);
  • fazer “Formação sobre a perspectiva histórica, teológica, social e cultural do tema da sexualidade em geral, bem como dos seus aspetos fundadores na infância e adolescência, para o exercício do ministério presbiteral” (8.2.7. – 1.a), pág. 457);
  • promover a “(…) integração de diferentes formas do desenvolvimento maturativo da sexualidade e respectiva diversidade de vivências relacionais, em termos de género e identidade; o mesmo para o conhecimento e integração de uma noção múltipla de «famílias» e da importância dos seus diversos elos e suportes emocionais” (ponto 8.2.7. – 1. d), pág. 457);
  • promover “A integração, na área da sexualidade adulta, da sua natural estruturação e manifestações, impacto na dinâmica pessoal e de relação com os outros” (ponto 8.2.7. – 1. e), pág. 457).

Felizmente, nem todos dormem. Precisamente o CNE tem trabalhado o assunto numa perspectiva pedagógica e responsável, procurando responder aos “desafios que a vivência da afectividade e da sexualidade levantam nos dias de hoje” (Padre Luís Marinho, agora assistente do Escutismo Católico Mundial) tal como é proposto no relatório da assembleia geral do Sínodo dos Bispos de 2023: “que se promovam iniciativas que permitam um discernimento partilhado sobre questões doutrinais, pastorais e éticas que são controversas, à luz da Palavra de Deus, do ensinamento da Igreja, da reflexão teológica e valorizando a experiência sinodal”.

O livro Lugares da Afectividade e da Sexualidade na Configuração da Identidade Pessoal, editado pela UCP (coordenação de Américo Pereira com prefácio de D. Jorge Ortiga, da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé) é uma publicação relevante para esse caminho de mudança. Mas, pelos vistos, para muitos, mesmo que a reflexão venha do interior mais profundo e creditado da Igreja, ela não serve se não estiver vinculada a um conservadorismo militante e irritantemente provocador, sempre interessado no imobilismo e na oposição à palavra do Papa.

Sabemos hoje muito bem que estes sectores terão um momento de alívio quando Francisco desaparecer. Rezemos para que tal demore e para que a seguir o Espírito Santo continue a soprar no mesmo sentido.

 

PS – pode um artigo ter um post scriptum? Este tem.

A 22 de janeiro, neste jornal, um Tiago Costa – que desconheço, mas a quem cumprimento pela clarividência – dizia algo fundamental em “Fiducia supplicans pelo olhar do Amor”. Que bela síntese ele nos oferece ao terminar a sua reflexão, baseada no mais elementar bom senso e fé: “Não sou filósofo, pensador ou teólogo. Não tenho capacidade de defender o meu ponto de vista até à exaustão para alguém que já vem fechado para não o compreender. (…)  Não é o Amor que vai estragar nada. Jesus já nos ensinou que é o Amor que vai salvar tudo”.

Se não deram conta deste belo texto, convido-vos agora à sua leitura.

 

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