O Iraque que o Papa Francisco vai encontrar

| 3 Mar 21

Um país ainda a cicatrizar feridas e que espera por mudanças políticas significativas. A partir desta sexta-feira, o Iraque acolhe o Papa Francisco, que não deixará de apelar ao regresso dos muitos cristãos que deixaram as suas casas, e de dirigir uma palavra de alento aos iraquianos. O olhar do jornalista José Manuel Rosendo.

Podemos dizer que a visita do Papa ao Iraque, anunciada para esta sexta-feira, 5 de Março, será fortemente vigiada e segura, mas é de sublinhar a coragem de Francisco. É o primeiro Papa a visitar o Iraque, depois de João Paulo II ter revelado essa intenção, em 1999, mas as negociações com Saddam Hussein não chegaram a bom porto.

A visita do Papa Francisco tem, obviamente, a carga simbólica da visita de um líder católico a um país onde o Califado da organização Estado Islâmico se instalou e foi derrotado, sendo que esse Califado nada teve a ver com o Islão ou, dito de outra forma, foi obra de uma minoria criminosa e extremista, que apenas usou a religião. E é também uma visita a um país onde, segundo a ONG Hammourabi, vivem actualmente entre 300.000 a 400.000 cristãos, quando em 2003, antes da invasão, viviam 1.500.000. Muitos fugiram por causa da guerra civil, muitos outros por causa do Estado Islâmico.

Um dos objectivos assumidos pelo Papa é precisamente encorajar o regresso dos cristãos que fugiram do Iraque. Muitos sofreram o suficiente para temerem o regresso e o Iraque ainda vive uma enorme instabilidade. Muitos cristãos morreram durante a presença da organização Estado Islâmico. Houve cidades e templos quase totalmente destruídos.

Catedral da Imaculada Conceição, Qaraqosh, Iraque, Jose Manuel Rosendo

Catedral da Imaculada Conceição, em Qaraqosh, Novembro de 2016, já depois da expulsão do Estado Islâmico. Foto © José Manuel Rosendo

 

 

Um país à espera de mudança

O Iraque regista neste momento a presença de várias milícias, algumas delas com ligações ao Irão, outras xiitas mais nacionalistas e ainda outras que são resquícios do Estado Islâmico. Há também uma revolta social e política que tem varrido o Iraque há já mais de um ano, embora com predominância no Sul do país. Aumentou o desemprego e a pobreza, os recursos do Estado caíram com a queda do preço do petróleo, trabalhadores do Estado e reformados chegam ao fim do mês sem salário ou reforma. A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o Banco Mundial dizem que a taxa de pobreza saltou de 20% para 31,7%. A estimativa peca por defeito.

As manifestações têm-se sucedido desde Outubro de 2019 – cerca de 600 mortos e 30.000 feridos, segundo a AFP – e o campo político apresenta-se muito dividido, incluindo fortes divisões entre xiitas, num país marcado pelo clientelismo e em que os sucessivos governos vivem com a pressão do aliado Irão, dos Estados Unidos e da “rua” naturalmente descontente com o facto de um país rico em recursos não conseguir dar um nível de vida satisfatório à população.

Na Praça Tahrir (Praça da Libertação), em Bagdad, epicentro dos protestos, as tendas montadas durante meses, as fotografias dos mártires e as fotografias dos políticos considerados corruptos fizeram recordar outras Tahrir quando teve início a chamada Primavera Árabe. A exemplo do que acontece noutros países árabes, a “rua” pede uma renovação completa da classe política, fim da corrupção, serviços públicos e… emprego. A chamada “Revolução de Outubro” é um sinal do desespero das pessoas normais quando tudo à sua volta deixa de fazer sentido e não há nenhum sinal de mudança. Raptos e assassínios não têm faltado num Iraque instável e imprevisível.

ataques em Gogjeli (Mossul), Iraque, José Manuel Rosendo

Feridos dos ataques em Gogjeli (Mossul), Novembro de 2016. Foto © José Manuel Rosendo

Num outro nível e na sequência do assassinato do general Qassem Souleimani, em Janeiro de 2020, o Parlamento iraquiano chegou a votar a retirada das tropas norte-americanas no Iraque e agora espera para ver no que dá a eleição de Joe Biden, mesmo sabendo que Biden votou favoravelmente a invasão do Iraque em 2003 e que chegou a propor a divisão do Iraque em três regiões autónomas (xiita, sunita e curda). Nada do agrado da maioria xiita.

Depois há ainda a pandemia que, aliás, ajudou a quebrar os grandes protestos que estavam na rua. [Desde final de Janeiro, os números da pandemia cresceram de pouco menos de 700 novos casos diários para 4.690 nesta quarta, 3 de Março. A média dos últimos sete dias está nos 3.971. O Iraque teve até agora 13.458 vítimas mortais da doença.]

 

O chão que Francisco vai pisar

O roteiro da visita de quatro dias passa naturalmente por Bagdad, Ur (próximo de Nassíria, no sul, onde esteve a GNR no pós-invasão de 2003), Erbil (capital da região curda), Mossul (cidade no norte onde foi declarado o Califado) e Qaraqosh (nos arredores de Mossul), cidade mártir onde as igrejas foram parcialmente incendiadas e destruídas e até serviram de campo de tiro aos elementos do Estado Islâmico. Esse foi também um dos locais onde os cristãos tomaram a sua defesa nas próprias mãos e criaram milícias para combater os extremistas.

Catedral da Imaculada Conceição, Qaraqosh, Iraque, Jose Manuel Rosendo

Pátio interior da Catedral da Imaculada Conceição, em Qaraqosh, utilizado pelo Estado Islâmico para campo de tiro. Foto © José Manuel Rosendo.

O programa da visita inclui Ur [sábado] porque terá sido a cidade berço das três religiões monoteístas e terá sido de Ur que Abraão saiu para seguir a palavra de Deus.

Ur, Iraque, Abraao, José Manuel Rosendo

Ur, zona onde é suposto estar a Casa de Abraão. Em Abril de 2004 ficava dentro do perímetro da Base de Talil, nos arredores de Nassíria. Foto © José Manuel Rosendo

Também não surpreende que a visita termine em Erbil [domingo, antes do regresso a Bagdad para voltar a Roma]. Em Erbil, existe um grande bairro cristão e a presença do Papa será [uma forma de] agradecimento aos curdos por terem acolhido os cristãos fugidos do Estado Islâmico. Entre Bagdad e Erbil, a passagem por Mossul – o líder da Igreja Católica vai estar na cidade onde o Califado foi anunciado e acabou por cair. [Já se sabe que o Papa visitará o líder xiita Al Sistani, mas não] a Mesquita de Al Nuri, o local onde Abu Bakr al Baghdadi declarou o Califado e que já está a ser reconstruída pela UNESCO. Depois, a cerca de 30 quilómetros, a cidade de Qaraqosh, porque era a maior cidade cristã do Iraque até à chegada do Estado Islâmico.

O arcebispo siríaco católico de Mossul e Qaraqosh, monsenhor Petros Mouché, considera que a viajem de Francisco encoraja os cristãos a ficar, mas reconhece que poderá não ser suficiente para fazer regressar os que partiram. Alguns estão na região curda, a poucos quilómetros, com muito mais segurança. No dia de Natal, a agência France Presse deu conta da chegada a Qaraqosh de um autocarro com voluntários e caixas cheias de postais de boas-festas com mensagens escritas manualmente, vindas de vários pontos do Iraque: Najaf, Bagdad, Bassorá, Salaheddine e também Dohouk. Não duvidemos de que muitos iraquianos muçulmanos querem que os cristãos continuem a viver no Iraque, mas não podemos ignorar que também haverá alguns que assim não pensam.

É este Iraque que o Papa Francisco vai encontrar e, para além dos cristãos que o Papa pretende que regressem ao Iraque, muitos outros iraquianos merecem uma palavra que certamente ouvirão.

 

José Manuel Rosendo é jornalista da Antena 1 e tem feito reportagem em vários países do Médio Oriente; o texto foi publicado no início de Janeiro no blogue Meu Mundo Minha Aldeia, do qual é autor, e aqui apenas alterado com as actualizações assinaladas.

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