Há uma pessoa que, a cada dia, se mostra mais como uma luz na escuridão. Refiro-me a Hannah Arendt. Ela disse: “O mal moderno não precisa de monstros: pode ser administrado como um procedimento.” Pois é nisso que estamos.
O chamado «caso Epstein» perturbou-nos a todos e provocou-nos a sensação nauseante de que Epstein não era o único, o cérebro sinistro, o lobo solitário, o que já teria sido bastante mau. Na realidade, trata-se de toda uma lista de nomes, uns mais relevantes do que outros no panorama internacional e nos mais diversos campos, que faziam parte de uma rede de corrupção, abusos, tráfico de pessoas (algumas menores), e, pelo que parece até agora, também de assassinatos. Toda uma estrutura de poder, dinheiro e controlo político que andou de mãos dadas e, para garantir a participação dos grandes e poderosos, nunca importaram os meios para atingir os fins.
Mais uma vez, cumpre-se o ritual de não acreditar em quem ousa levantar a voz e denunciar, com o que a justiça parece chegar tarde mais uma vez. Além de tudo isso, uma série de perguntas nos perseguirão por muito tempo, talvez até para sempre: quem sabia o que estava a acontecer? Ninguém? Quem ajudou a proteger Epstein e toda a estrutura que ele criou? Quantas vítimas nunca saberemos que o foram porque literalmente desapareceram? Onde iam eles buscar os bebés para as suas orgias e bacanais?
O mal existe e sempre soubemos disso; no entanto, essa presença do Mal (sim, com maiúscula) personificada em seres que se tornaram os novos gurus do sucesso em inúmeros campos, não a víamos ou não queríamos ver. Esse Mal, que estamos a ver no chamado «caso Epstein», provoca uma dor desconhecida naqueles que o sofrem e naqueles que o descobrem nas vítimas, porque torna visível o mais terrível, que é o irreparável. Nesta dor, não há qualquer possibilidade de reparação.
Alguns dos envolvidos neste caso, onde a degradação moral de um grupo de cidadãos supostamente selecionados de muitos países é inquestionável – na verdade, eles são amorais –, já comunicaram que doarão 99% de suas fortunas para ajudar as vítimas. Não há maior desprezo e arrogância. Estão tão habituados a conseguir tudo com dinheiro que acreditam que podem comprar as suas próprias consciências – se é que as têm. Porque, não nos iludamos, as vítimas não lhes importam. A única coisa que querem é limpar a sua imagem, manter a máscara da sua falsa filantropia.
O irreparável não é irreparável porque não se pode indenizar as vítimas. É irreparável porque não basta reconhecer o dano causado; não basta uma indenização econômica – que preço tinha e tem para esses amoralistas a vida humana?; não basta dar o mundo inteiro a cada uma das vítimas… Então? O que as vítimas precisam é de justiça restaurativa.
Essa justiça exige que a instituição ou estrutura que provocou e permitiu o que aconteceu mude ou desapareça. É possível que isso aconteça neste caso? Como conseguir justiça restaurativa para as vítimas por parte daqueles que realmente controlam o mundo?
Não conseguir essa justiça para as vítimas dessa aberração significará que elas serão esquecidas, que a impunidade da maioria dos magnatas continua viva e que a estrutura criada por Epstein apenas entrou em estado de hibernação… Até que o momento certo indique que é preciso despertá-la porque, afinal, é possível sair de um colapso ético melhor do que se pensava. Deixarão cair alguns, os menos necessários e importantes para eles, para fazer parecer que foi feita justiça. Na realidade, nada.
A ilha de Epstein já não é apenas um local geográfico, mas tornou-se o cenário de um filme de terror em que, provavelmente, nenhum argumentista teria sido capaz de imaginar a história que ali se viveu. Quem dera fosse apenas um cenário! Na verdade, e isto é o que revela a realidade do mundo em que vivemos, é o local onde se realizaram sucessivamente uma espécie de bailes de debutantes. Porque para ser alguém no seleto clube do mundo corrupto do poder, era preciso dançar na ilha de Epstein. Foi a muito frutífera rede de terror.
Tudo bem. Entre a suspeita e a evidência do que se passava ali, houve tempo de sobra para ficarem cada vez mais ricos. Epstein apenas dá nome à podridão moral com que se manipula o mundo.
O que precisamos como humanidade para reagir?
Cristina Inogés Sanz é teóloga e foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora). O texto que aqui se reproduz com as devidas autorizações, foi originalmente publicado na página da Portocolom-AV.
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