O jazz e a música electrónica a entrar na liturgia

1 Set 19Boas Notícias, Cultura e artes, Igreja Católica, Música, Newsletter, Últimas

Um ensaio de coro na primeira edição do LabOratório, em 2017. Foto © Ponto SJ

 

LabOratório propõe-se criar música para ambientes litúrgicos; orações, conferências e concertos são de entrada livre. Entre 1 e 8 de Setembro, em Lisboa.

 

Pode o space rock de banda britânica Spiritualized, de Jason Pierce, constituir uma inspiração para música litúrgica católica? E o jazz ou a pop ou a música indie? Ou a música electrónica? E a da Broadway? Os exemplos são dados pelo padre jesuíta Rui Miguel Fernandes que, a partir deste sábado e durante uma semana, é um dos 13 dinamizadores do LabOratório, uma iniciativa que pretende contribuir para a criação de nova música litúrgica.

“Os Spiritualized declaram-se ateus, mas têm músicas fortíssimas do ponto de vista espiritual. Pode haver tipos de música que podem parecer mais estranhos, mas tudo depende do contexto comunitário”, responde Rui Fernandes, 34 anos, que está no Líbano para fazer um doutoramento sobre teologia e música hip-hop. E acrescenta: “Um dos problemas é considerar que há um estilo musical bom ou mau para a liturgia ou poemas e textos. As músicas e os poemas são bons ou maus, conforme a adequação e se ajudam as pessoas a rezar ou não.”

A ideia do LabOratório nasceu há pouco mais de dois anos, em conversa de amigos padres jesuítas. A má qualidade genérica da música que se canta nas liturgias católicas em Portugal, a verificação de que se canta sempre a mesma coisa em cada sítio, que não há criação nem novidade, que muitas vezes não há uma linguagem musical contemporânea foram alguns dos temas conversados inicialmente. “Demo-nos conta de que, nos campos de férias e na pastoral universitária, lidamos com pessoas que trabalham em música e gostam de criar. Pensámos então: porque não proporcionar um espaço para criar nova música?”

Foto © Ponto SJ

 

A inspiração de Taizé

Nasceu então a primeira edição do LabOratório, em 2017. A primeira ideia foi organizar algo que tivesse o mínimo de formação mas não fosse uma escola. “Lembrámo-nos de Taizé”, a comunidade monástica ecuménica de França que acolhe milhares de jovens de todo o mundo durante o ano e onde música e oração integram a mesma realidade.

“Em Taizé aprende-se imenso sobre oração, música e criação. Entra-se dentro de uma experiência que tem música e oração Por isso quisemos criar também algo que fosse uma experiência de criação, antes de mais. Sem muitas aulas, com uma dinâmica muito prática, na qual os instrumentistas aprendem a improvisar, os compositores ensinam como se pode compor e os cantores aprendem a cantar.”

A partir deste domingo, 1 de Setembro, no Convento dominicano de São Domingos, em Lisboa, os 47 participantes inscritos, além de onze voluntários da equipa, começam os trabalhos do LabOratório. Durante a semana, passarão ainda pela iniciativa 15 professores. Mas a iniciativa começou mais atrás, diz o padre Rui Fernandes, ordenado há um ano: “Pedimos a vários compositores que pegassem em textos da Bíblia, de vários místicos e de poetas contemporâneos como Daniel Faria, Sophia de Mello Breyner, José Augusto Mourão e Didier Rimaud e compusessem cânticos a partir daí.”

O resultado é um total de 80 pessoas, no total, envolvidas nesta segunda edição do LabOratório, e um cancioneiro com 90 novas composições. Sendo uma forma de responder aos problemas diagnosticados antes, o cancioneiro pretende também ser um desafio a que noutras instâncias – paróquias, dioceses, movimentos – se criem iniciativas próprias, “que as pessoas se encorajem a desenvolver os seus talentos e estilos”, diz Rui Fernandes. “Esta é uma dinâmica que gostávamos que fosse partilhada e que as pessoas adaptassem para os seus sítios, juntando quem tenha formação musical ou conhecimentos de poesia.”

Foto © Ponto SJ

 

Bach, Pärt, música indie e fado

Qualquer pessoa interessada pode, entretanto, aproveitar vários tempos do LaOratório, já que a maior parte do programa (orações, conferências e concertos) é de entrada livre. Apenas os tempos de oficina e criação musical são reservados aos participantes.

Também aqui, a inspiração foi Taizé serviu para organizar o programa: os tempos de oração incluem as laudes (8h45), a hora intermédia (13h15) e a eucaristia (19h15) – no domingo, dia 8, a missa de encerramento será ao meio-dia, sempre no Convento de São Domingos.

Nas oficinas/conferências, serão tratados temas como o espírito da liturgia e a música na missa (dia 1, domingo, às 15h30 e 17h, respectivamente, ambas pelo padre jesuíta Miguel Melo). De segunda, dia 2, até sábado, 7 de Setembro, sempre às 15h30, serão sucessivamente tratados a mística de Bach, o espiritual em Arvo Pärt, a música electrónica de arte, o Natal indie de Sufjan Stevens, a teologia do fado, e o mundo dos Spiritualized.

A lista dos intervenientes nestas oficinas, que incluem desempenhos ao vivo ou audições de excertos das obras respectivas, inclui David Cranmer, Alfredo Teixeira, Jonas Runa, Maria Portela, José Souto Moura, Cátia Tuna e Pedro Portela.

Também diariamente (segunda, dia 2, às 18h30, nos restantes dias às 21h30) os LabSerões propõem pequenos concertos para ouvir estilos diversos: música antiga, pop, música de Taizé (aqui, em forma de um tempo de oração) e electrónica. Esta dinâmica culmina com um mini-concerto dos participantes que apresentarão, no sábado, uma selecção das músicas compostas durante a semana.

As oficinas dos participantes incluem temas como as técnicas de harmonização, os salmos e hinos bíblicos, a poesia patrística (dos teólogos e pensadores dos primeiros séculos cristãos), os poetas contemporâneos e a escrita criativa para a liturgia. (O programa completo, com notas sobre cada conferência, concerto e oficina pode ser consultado aqui.)

“Isto é para criar entusiasmo e sublinhar a importância de criar novos textos e composições”, insiste o padre Rui Miguel. “Queremos viver a experiência de que é possível criar coisas com qualidade, em estilos diferentes, num verdadeiro laboratório. Será uma criação individual e comunitária, porque a música litúrgica tem a ver com contexto comunitário.” Enfim, destes dias, como já da primeira edição, ficará seguramente uma rede de contactos e criadores, vários deles que chegaram ao LabOratório através da música e não da sua ligação aos jesuítas ou outras estruturas de Igreja. E ficará um registo gravado das músicas compostas durante este semana.

(Uma entrevista do programa Ecclesia ao padre Duarte Rosado e a Mariana Viana Baptista pode ser vista a seguir:)

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