O padre António Valério assume este domingo, 28 de junho, a liderança da Província Portuguesa da Companhia de Jesus depois de um percurso marcado pela pastoral universitária e pela inovação na comunicação da fé. Aos 49 anos, sucede ao padre Miguel Almeida na condução dos jesuítas portugueses, num contexto em que a Companhia enfrenta os desafios da renovação das vocações, da missão educativa e da presença pública da Igreja.
A tomada de posse realiza-se às 13h, na Igreja do Colégio de São João de Brito, em Lisboa, numa celebração que formaliza a sucessão de Miguel Almeida, após seis anos de provincialato. Segundo informou a Província Portuguesa da Companhia de Jesus em comunicado enviado ao 7MARGENS, estarão presentes jesuítas, colaboradores das obras apostólicas, familiares e amigos do novo provincial.
Nomeado em fevereiro pelo superior-geral dos jesuítas, Arturo Sosa, António Valério assumirá, a partir de agora, a responsabilidade de acompanhar a vida das comunidades e a missão das diversas obras da Companhia em Portugal, desde os colégios e centros universitários às obras sociais, centros de espiritualidade e projetos culturais.
Natural de Idanha-a-Nova, onde nasceu em 1977, entrou na Companhia de Jesus em Coimbra, em 1997, depois de ter sido seminarista da Diocese de Portalegre-Castelo Branco. Licenciado em Filosofia e Humanidades pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, em Braga, realizou os estudos de Teologia entre Bilbau e Roma, concluindo o mestrado em Teologia Fundamental na Universidade Gregoriana, em 2010. Foi ordenado padre em julho de 2009, no Carmelo de Fátima. Em 2017 concluiu, na Bolívia, a terceira provação — última etapa da formação jesuíta — e, no ano seguinte, professou os votos solenes na Companhia, segundo a nota biográfica divulgada pela Província Portuguesa.
Ao longo do seu percurso, foram diversas as responsabilidades pastorais e de governo que assumiu. Trabalhou na pastoral universitária, foi consultor provincial e reitor do Juniorado, em Braga, e, desde 2020, exercia funções como diretor-geral do Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso. Nesse mesmo ano participou na Congregação de Procuradores, realizada em Loiola, encontro internacional que reúne representantes das províncias jesuítas para aconselhar o superior-geral sobre a vida e a missão da Companhia.
Oração e novas linguagens
Foi, contudo, como diretor nacional da Rede Mundial de Oração do Papa que António Valério se tornou mais conhecido, tendo acompanhado a renovação desta obra pontifícia, procurando aproximar uma tradição espiritual com quase dois séculos das novas formas de comunicação.
Em entrevista conjunta à Renascença e à Agência Ecclesia, em 2019, explicava como o Click to Pray, plataforma digital de oração lançada em Portugal em 2014, viria a ser adotado dois anos depois como plataforma internacional da Rede Mundial de Oração do Papa. O mesmo percurso conduziu ao desenvolvimento do Click to Pray eRosary, apresentado pelo Vaticano em 2019, procurando conjugar a tradição do rosário com as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias.
Na mesma entrevista defendia que a inovação tecnológica só faz sentido se permanecer ao serviço da experiência espiritual. “O que diferencia a Igreja de uma ONG é sermos movidos pela oração”, afirmava, acrescentando que a oração continua a ser “o coração da missão da Igreja”. Defendia igualmente uma linguagem simples e acessível, capaz de aproximar da oração pessoas com pouca formação religiosa ou mais afastadas da vida eclesial.
A mesma convicção estava já presente numa entrevista concedida ao Vatican News, em que definia a Rede Mundial de Oração do Papa como “uma escola de oração para as pessoas viverem a sua relação com Deus” e sublinhava a importância de utilizar as plataformas digitais para alargar a participação nesta iniciativa, lembrando que “qualquer pessoa que reze e se mobilize pela intenção que o Santo Padre está a pedir já está a fazer parte individualmente desta rede”.
Uma Igreja aberta ao mundo
Nessa entrevista ao Vatican News, António Valério manifestava a sua sintonia com o pontificado do Papa Francisco, considerando que este representava “a figura de líder de que a Igreja precisa neste momento”, pela abertura às novas linguagens, pela proximidade aos mais pobres e pela capacidade de diálogo com o mundo contemporâneo. “É uma bênção enorme para a Igreja aquilo que nós estamos a viver com este Papa”, afirmava.
Na mesma conversa abordava igualmente a crise dos abusos sexuais na Igreja, defendendo que era necessário rezar pelas vítimas “para que seja reposta a justiça” e para que situações semelhantes “nunca mais voltem a acontecer”. Manifestava ainda o desejo de que esta realidade não alimentasse divisões internas, apelando antes ao apoio ao Papa e à unidade da Igreja.
Sem constituírem um programa para o provincialato que agora inicia, estas intervenções deixam entrever algumas das marcas do seu percurso pastoral: uma espiritualidade profundamente enraizada no discernimento inaciano, a convicção de que a missão da Igreja passa também pelas novas linguagens da cultura digital e a preocupação em manter a atenção centrada nas pessoas mais vulneráveis.
A tomada de posse deste domingo marcará o início de um novo ciclo para a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, ao longo do qual caberá a António Valério conduzir a missão dos jesuítas no nosso país, num tempo de profundas mudanças para a Igreja e para o mundo.










