Busca radicada na experiência espiritual

O Jesus impressionista contemporâneo

| 1 Jan 2022

  • Dedico este texto, publicado inicialmente na revista E/Expresso, edição de 23 de Dezembro, à memória de Leonor Xavier e de Dimas de Almeida, pelo forte “impressionismo” dos seus percursos crentes.

 

Esta viagem vai da Rússia à Palestina e dos Estados Unidos à Terra Santa. Inclui um teólogo assassinado talvez pelo KGB, um padre que acompanha homossexuais, um tradutor dos clássicos gregos e protestantes que falam de Jesus como alguém cuja personalidade marcou e continua a marcar gerações de pessoas pelo mundo fora, em todas as culturas. A investigação contemporânea do retrato de Jesus já não passa tanto pela história, pela teologia ou pela arqueologia. É uma busca impressionista, que radica na experiência espiritual.

 

Caravaggio, Incredulidade de São Tomé

Caravaggio, Incredulidade de São Tomé: “Este é um momento impressionista” na busca de Jesus, diz frei Bento Domingues”.

 

Tomemos um padre ortodoxo russo assassinado há duas décadas – pelo KGB, por um agressor? – de forma misteriosa: Alexandre Men fala de um Jesus como mestre espiritual, a quem nada escapa do quotidiano, mas alheio à “euforia doentia” de alguns fundadores religiosos. Juntemos-lhe um padre jesuíta norte-americano, que acompanha grupos marginalizados e comunidades de crentes LGBT: James Martin faz uma viagem pela Terra Santa à descoberta de um Jesus ele próprio pregador itinerante. Ou ainda um pastor protestante metodista inglês, escritor prolífico e um dos autores actualmente mais conhecidos na interpretação bíblica: James D.G. Dunn admite que Jesus talvez não se visse a si mesmo como filho de Deus, mas que essa afirmação era central já no cristianismo primitivo. Que retrato de Jesus pode daqui sair?…

Olhemos a arte de um pintor russo de há 100 anos, que talvez seja quem nos dá uma imagem mais provável de Jesus: ainda assim, a pintura de Vasily Dmitrévitch Polénov (1844-1927) está longe da “força espiritual que emana dos evangelhos”, escreve Alexandre Men (1935-1990) no livro Jésus, le Maître de Nazareth (“Jesus, o mestre de Nazaré”, ed. Nouvelle Cité, que leva o subtítulo “uma vida de Jesus para o homem de hoje”). Ou a abordagem narrativa e poética de um cardeal português: José Tolentino Mendonça fala da perda e do encontro como dimensões que acompanham os mistérios da identidade de Jesus. E que Jesus pode sair daqui?

“Este é um momento impressionista” na busca de Jesus, diz frei Bento Domingues, frade dominicano e teólogo, cujas crónicas semanais no Público são, elas próprias, uma “teologia em fragmentos”, como já se lhes referiu o antropólogo Alfredo Teixeira. “As pessoas falam da sua experiência, já não tanto da investigação, ou da procura da verdade histórica, nem sequer da teologia. Fica-se muito mais perto das formas de caminhar, da espiritualidade, do que diz respeito a cada pessoa.” Trata-se de um “impressionismo espiritual”, uma dimensão “muito importante, porque ajuda as pessoas a viver”, considera Bento Domingues.

A busca do rosto autêntico de Jesus foi sempre diferente ao longo dos séculos. No início, ele era ainda afirmado pelo testemunho dos que o tinham conhecido. Os teólogos dos quatro primeiros séculos fazem, depois, uma interpretação muito fundada no simbólico.  A seguir, predominou uma leitura literal do texto: as coisas tinham acontecido tal qual se liam nos evangelhos, mesmo se em muitos detalhes os factos fossem narrados de forma diferente ou mesmo contraditória. Só a partir do século XVIII se afirma uma investigação histórica e hermenêutica que começa a procurar, por detrás do texto, o sentido verdadeiro do que Jesus teria dito e feito.

Este movimento trouxe consigo “uma sucessão, uma multiplicação de imagens de Jesus”, resumia José Tolentino Mendonça, num texto publicado em 2007 sobre “A radical humanidade de Jesus” (revista Viragem, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, n.º 55-56). O actual bibliotecário do Vaticano e especialista em hermenêutica bíblica descrevia: “o Cristo das Luzes, o Jesus liberal, o Jesus jacobino, o Jesus romântico, o Jesus pietista” apareciam como definidores, mas não resolviam o enigma de saber quem é Jesus.

Um tal processo durou cerca de dois séculos, em duas vagas essenciais, sustentadas também no contributo de ciências humanas e sociais como a história, antropologia, arqueologia, linguística…

 

Salvador Dali, Cristo de São João da Cruz

Salvador Dali, Cristo de São João da Cruz: Ao longo dos últimos dois séculos, a investigação histórica multiplicou as perspectivas sobre Jesus.

A partir dos anos de 1970 surge a chamada terceira vaga dos estudos sobre Cristo, explicava ainda Tolentino Mendonça no mesmo texto. Passava a interessar sobretudo descobrir a ipsissima verba, aquilo que Jesus teria mesmo dito ou feito, colocando-o no seu contexto antropológico, cultural ou religioso: “Acredita-se que está mais perto do Jesus histórico aquilo que é mais plausível em relação ao contexto judaico e ao contexto cristão do mundo mediterrânico e daquele século I em que viveu Jesus.” Um exemplo: “Antes de tudo, Jesus é um judeu” e, em vez de procurar o que o diferencia do judaísmo, buscam-se as “grandes linhas de continuidade entre a pessoa de Jesus e o mundo judaico da altura”.

Hoje “já não há essa fúria da investigação, de encontrar uma base inquestionável”, considera Bento Domingues. Os investigadores já não têm dúvidas sobre a existência histórica do nazareno Yeshua, que anunciou uma mensagem de fraternidade e de amor (mesmo aos inimigos, ao contrário do que defendiam várias correntes judaicas da época) e que, por causa da crítica aos poderes político e religioso do tempo, foi preso, sumariamente julgado e condenado à morte por crucifixão.

“Não se pode mais dizer que Jesus é uma invenção, nem, por outro lado, que tudo o que os evangelhos contam tem uma base histórica”, nota ainda Bento Domingues. Muitas afirmações sobre Jesus já podem ser verificáveis pelos “estudos fantásticos que têm sido feitos e que não deixam a interpretação à arbitrariedade”. Por isso, o caminho, hoje, só pode ser o de partir da experiência para definir o rosto. Um caminho impressionista, mas não feito de impressões vagas. E que se traduz numa “sedução muito grande”, que continua a manifestar-se também nas artes, como recorda ainda frei Bento Domingues. A que rosto chegamos, então? Que biografia foi a deste homem que, para muitos, depois de ter sido morto na cruz, ressuscitou com isso confirmando a sua divindade?…

 

A história mudada para sempre
Geertgen tot Sint Jans, A Natividade à Noite, c. 1490

Geertgen tot Sint Jans, A Natividade à Noite, c. 1490: O local de nascimento de Jesus ainda é motivo de debate entre os investigadores.

 

Não há certezas sobre o que fez Jesus até perto dos 30 anos. O seu nascimento terá ocorrido cerca de quatro a seis anos antes da actual era – a divergência em relação à contagem do tempo depois de Cristo deve-se a um erro do monge Dionísio Exíguo, no século VI.

Belém, a manjedoura, a morte das crianças por Herodes, os magos são midrash, narrativas que pretendem afirmar determinada verdade através de um relato simbólico: as coisas podem ter acontecido assim – ou não. Os “evangelhos da infância”, assim chamados, pretendem sobretudo apresentar Jesus como personagem historicamente situada – essa é mesmo “uma das principais preocupações de Lucas”, observa James Martin, no seu Jesus – Um Encontro Passo a Passo (ed. Paulinas).

Mateus e Lucas são os únicos, entre os quatro evangelistas, que relatam episódios do nascimento e infância de Jesus; Marcos (o mais antigo, escrito à roda do ano 70) e João (o mais tardio, redigido perto do ano 100) começam a contar a sua narrativa com a vida pública, já adulto, de Jesus.

Por exemplo, sobre o local de nascimento muitos investigadores dizem que Jesus terá nascido em Nazaré (de onde era originária a sua família) e não em Belém – embora os relatos de Mateus e Lucas, e a tradição posterior, coincidam em dizer que foi em Belém, para situar Jesus na linha de descendência do rei David, o que certificaria o seu carácter messiânico. Sabe-se, entretanto, que José, o pai (adoptivo, para os cristãos), era artesão, alguém que trabalhava com as artes da pedraria, carpintaria e outras, o que lhe dava um estatuto de classe média do tempo.

As observações sobre as narrativas da infância remetem para um importante elemento lateral: os quatro evangelhos canónicos têm perspectivas diferentes sobre a vida e acção de Jesus – mesmo se coincidem em muitos elementos e se três deles (Mateus Marcos e Lucas) recorrem à mesma fonte principal anterior, que se perdeu. O que permite entender que no cristianismo nascente havia diferentes perspectivas acerca de Jesus. Outras narrativas apócrifas foram desde muito cedo rejeitadas pelas primeiras comunidades cristãs como inverosímeis, de tal forma apresentam um Jesus fora da sua natureza humana e em “plena contradição” com o espírito do Evangelho, escreve o russo Alexandre Men.

No livro A Teologia de Jesus, publicado em Setembro, José Brissos-Lino, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo da Universidade Lusófona, resume: “Jesus de Nazaré surge no palco da História enquadrado na única religião monoteísta então conhecida. Sendo judeu de nascimento, da tribo de Judá, cresceu como qualquer rapaz israelita”, aprendendo a Torá e observando os preceitos religiosos judaicos.

Foi praticamente após três décadas de vida que Jesus assumiu uma presença pública. Estava, escreve Men, “no auge da sua força física e espiritual”. Apareceu como um profeta itinerante, seguido por um grupo de homens e mulheres seus discípulos – já lá vamos. A sua doutrina pretendia purificar e renovar várias propostas e conceitos do judaísmo e, ao mesmo tempo, concretizava-se em gestos e atitudes, na proximidade permanente com todas as pessoas.

 

Sudário de Turim, pano que segundo a tradição envolveu Jesus morto

O Sudário de Turim, pano que segundo a tradição envolveu Jesus morto: A acusação de blasfémia “parece ter sido” chave para a condenação à morte.

 

Durante os cerca de dois anos que terá durado a sua vida pública, o comportamento e as palavras de Jesus agitaram multidões e levaram os dirigentes da elite religiosa do tempo – e do Templo – a sentirem-se ameaçados. Não era para menos: ele propunha coerência no que se vivia e criticava as elites religiosas por não o fazerem; propunha uma lógica de amar os inimigos e de distribuir justamente os bens; terá afirmado ser o filho de Deus e o Messias que os judeus esperavam, mesmo se os indícios de que ele próprio teria essa percepção não abundem nos evangelhos. Mas James Dunn diz que essa acusação – e a correspondente blasfémia – “parece ter sido” chave no seu julgamento. De facto, foi isso que levou os líderes religiosos a acusarem-no perante o procurador romano, Pôncio Pilatos, que decidiu mandá-lo crucificar – esse era o castigo que o Império reservava aos escravos e aos piores criminosos.

Os quatro evangelhos, “textos que mudaram para sempre a história da humanidade”, como diz Frederico Lourenço, na apresentação da sua tradução dos mesmos, falam de “um homem que, apesar de não ter praticado qualquer crime, acabou por morrer crucificado como se fosse um criminoso, no meio de dois ladrões”. E acrescenta: “Esse homem – que muitos foram reconhecendo como ‘Ungido’ de Deus e até como Filho de Deus – era portador da mais extraordinária das mensagens”.

Nem Dunn, nem Martin, nem Men entram no debate sobre se Jesus quis fundar ou não uma nova religião. Mas todos assumem que Jesus era um judeu, inserido no seu povo, que rezava e vivia segundo a tradição e rituais judaicos, mesmo se não fazia deles um dogma absoluto. Foi esse o caso quando disse que “o sábado é para o homem e não o homem para o sábado”, com isso afirmando que a atenção às pessoas ultrapassava mesmo uma das leis religiosas mais importantes, a do respeito absoluto pelo descanso semanal.

Dunn observa que cristãos e judeus se vão separando progressivamente, sobretudo a partir do final do século I. Curiosamente, seguem dois caminhos opostos: enquanto o judaísmo, que fica sem o Templo de Jerusalém, se transforma numa religião da Palavra, da Torá, que se torna no “foco quase exclusivo do judaísmo rabínico”, o cristianismo começa por ser uma religião da Palavra, do Verbo, para se focar depois “no sacerdote e no sacrifício”.

O que levou, então, a que este “judeu marginal”, como o classificou o biblista John P. Meier, a transformar-se naquela que é talvez a figura mais decisiva da História, influenciando milhões e milhões de pessoas ao longo de séculos? Alguém que, como diz o helenista e tradutor Frederico Lourenço, “não tem paralelo em termos da História”.

Ainda por cima, como afirma Meier naquela que é a mais importante investigação sobre o Jesus histórico (disponível em vários volumes numa edição Imago/Dinalivro, em português do Brasil), Jesus foi alguém que “viveu num recanto do Império Romano” e que “morreu como blasfemo religioso e subversivo social e político”.

Ou seja, nada na sua vida fazia antever a importância que viria adquirir: o líder carismático, o taumaturgo próximo das pessoas, o blasfemo religioso e o subversivo social não seriam suficientes para fazer de Jesus aquilo em que ele viria a tornar-se. O ortodoxo russo Alexandre Men fala de “um mistério inquietante” e de alguém que tinha um grande ascendente sobre pessoas muito diversas. Era “profundamente humano”, chorava e sofria, espantava-se e alegrava-se, abraçava as crianças e contemplava as flores.

“Os seus discursos eram cheios de compaixão para as fraquezas humanas, mas isso não atenuava em nada as suas exigências; podia falar com ternura e bondade mas, da mesma maneira, sabe ser severo” ou usar da ironia, quando é o caso. “Habitualmente, Jesus é doce e paciente, mas é impiedoso com os hipócritas”, escreve ainda o teólogo que morreu assassinado.

 

Humano e transgressor
Vasily Polenov, Aquele que não tiver pecados, 1908

Vasily Polénov, Aquele que não tiver pecados (1908): O comportamento e as palavras de Jesus agitaram multidões e levaram os dirigentes da elite religiosa do tempo – e do Templo – a sentirem-se ameaçados.

 

É este homem assim que Alexandre Men percebe que o seu compatriota Vasily Polénov captou, através de uma “imagem realista de Cristo, mas que sublinha o seu carácter contemplativo”. E que acaba por não conseguir apanhar a grande “força espiritual” de Jesus, cujo centro, escreve Brissos-Lino no livro já citado, “é de pendor espiritual e centra-se essencialmente no estilo de vida (fé, perdão, diaconia, riqueza e pobreza), mas também na prática da caridade ou solidariedade cristã (misericórdia/compaixão)”.

O que nos chegou sobre a percepção de Jesus sobre si mesmo permite campo para muitas dúvidas, consideram os autores seguidos. Alexandre Men resume: este homem “que come e bebe, que experimenta a alegria e a dor, que conhece as tentações e a morte” é ao mesmo tempo alguém que, “sem nunca ter cometido qualquer pecado, dá o perdão aos pecadores como só Deus pode fazer e identifica-se em tudo com o seu Pai”, isto é, Deus. E James Dunn refere que só Jesus usa a expressão “filho do homem” quando fala sobre si mesmo – ela ocorre 66 vezes no Novo Testamento (NT). Esse título, esclarece o teólogo inglês – que morreu em 2020, apenas um ano depois de ter publicado Jesus Segundo o Novo Testamento (ed. Paulus) –, remetia para a expectativa messiânica, de acordo com a profecia bíblica judaica. E foi essa dimensão plenamente humana, esse “fazer-se carne” que as correntes gnósticas não aceitaram, reduzindo Jesus a um ser quase só etéreo e sem corpo físico, nota Dunn.

Plenamente humano, mas simultaneamente transgressor, também pela forma como utiliza as refeições e nelas introduz uma ruptura nas relações predominantes: o grupo dos fariseus (no qual ele contava vários amigos) tinha um conjunto enorme de interditos alimentares que levavam também à exclusão de pessoas. Mas Jesus vai mais além do que simplesmente tentar quebrar esses interditos, como nota Tolentino Mendonça, no texto já referido: “As refeições verdadeiramente problemáticas são aquelas que Jesus toma com os pecadores. Acusam-no de ser ébrio, um glutão amigo de publicanos e de pecadores, alguém que cria com essa turba inconveniente a forma de comunidade mais radical que aquela cultura conhecia.”

Apesar de falar muitas vezes para as multidões que o procuravam, Jesus dirigia-se a cada pessoa concreta, observa Men. E na sua mensagem, anunciava sobretudo a ideia do reino de Deus, que incluía a todos – e não apenas os judeus e os puros, proposta escandalosa para as elites religiosas do tempo. Jesus nunca definiu o que queria dizer com a expressão “reino de Deus” – pelo menos, isso não aparece nos relatos evangélicos ou nos outros escritos do Novo Testamento. O jesuíta norte-americano James Martin observa que a maior parte dos investigadores bíblicos referem que o reino de Deus é o “ponto crucial do ensinamento de Jesus”, mas que ninguém sabe ao certo o que ele queria dizer. Ele procurava apresentar a ideia desse reino recorrendo ao uso de parábolas, através das quais se enunciam as características da justiça, do amor, do perdão e da paz. James Martin resume: “o inverso de sofrimento injusto, o derramamento de bênçãos sobre os fiéis e a alegre participação no banquete celeste”.

Nessa mensagem, observa ainda James Martin, “as Bem-aventuranças são muitas vezes denominadas Evangelho dentro do Evangelho”. E o que diz esse texto, que fala dos pobres em espírito, dos que sofrem, dos buscadores da paz, dos injustiçados, dos misericordiosos ou dos puros de coração como bem-aventurados (ou seja, felizes)? “Aos que estão no fundo da escala é prometido um lugar no topo. A visão invertida de Jesus representava uma transformação total da sociedade tal como os seus ouvintes a conheciam. Os que tinham sofrido muito devem ser consolados. Outra reacção, entre os ricos e poderosos, poderá ter sido de choque. Se o Reino de Deus viria a ser entregue nas mãos dos pobres, por exemplo, o que significava isso para os que tinham dinheiro e poder?”

 

Mulheres, discípulas e ressurreição
Bohdan Piasecki, ultima ceia

Bohdan Piasecki, Última Ceia (1998): Várias passagens dos evangelhos referem que as mulheres acompanhavam Jesus desde o início.

 

Na categoria dos mais pobres e marginalizados estavam seguramente as mulheres e as crianças. É conhecido o gesto de Jesus repreender os discípulos que não queriam deixar as crianças aproximar-se – uma afirmação que propõe o respeito pelos mais novos, na antítese do que muitos clérigos e responsáveis católicos fizeram no caso dos abusos sexuais. Mas as mulheres permanecem ainda muito na sombra, apesar de a recente investigação bíblica vir resgatando a sua presença nos evangelhos e junto de Jesus – e de, em 2016, o Papa Francisco ter designado Maria Madalena como “apóstola dos apóstolos”.

Várias passagens dos evangelhos referem as mulheres que seguiam Jesus “desde a Galileia”, quando e onde ele iniciou a sua vida de pregador itinerante; e, no momento da morte, são apenas mulheres as que permanecem junto da cruz. Lucas narra que acompanhavam Jesus “os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.” E Mateus, quando descreve a cena da crucifixão de Jesus, diz: “Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” Ou seja, as mulheres estão desde o início no grupo mais próximo dos seguidores de Jesus e permanecem até final, ao contrário do que aconteceu com os discípulos homens, que debandaram na altura da sua prisão.

É também a uma mulher que a ressurreição de Jesus é anunciada em primeiro lugar: “Maria Madalena desempenha um papel central no relato da ressurreição”, diz James Martin, notando aquela que é uma rara coincidência entre os quatro evangelistas. “O papel das mulheres na transmissão da notícia da ressurreição é ainda mais notável pelo facto de, nessa época, as mulheres serem muitas vezes consideradas testemunhas pouco fiáveis”, observa o jesuíta dos EUA. Muitos investigadores notam que, se os evangelistas quisessem dar credibilidade a um relato supostamente inventado, não escolheriam mulheres como testemunhas. O evangelho de Lucas conta, nota ainda Martin, que os discípulos consideraram um “desvario” o que Madalena lhes apareceu a contar – que o Mestre lhe aparecera, vivo, depois de morto. O que, no mínimo, manifesta “um tom de declarada superioridade machista”, como refere Luke Timothy Johnson, citado por Martin.

No já citado Um Judeu Marginal, John P. Meier afirma: “O Jesus histórico de facto teve discípulas? Por esse nome, não; na realidade (…), sim. Por certo, a realidade, mais do que o rótulo, teria sido o que chamou a atenção das pessoas. (…) Quaisquer que sejam os problemas de vocabulário, a conclusão mais provável é que ele considerava e tratava essas mulheres como discípulas.”

Tolentino Mendonça, cujo doutoramento foi um estudo sobre o episódio em que uma mulher pecadora entra em casa do fariseu Simão sem ser convidada, para se encontrar com Jesus, observa que a “transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo” no evangelho. Nesse encontro, escreve (A Construção de Jesus, ed. Paulinas), mais do que noutros, aquela mulher “assinala, reconhece, toca, molha e unge o mistério de Jesus”.

“A inclusão de mulheres constituiu uma parte central do ministério de Jesus”, observa Martin, que cita vários investigadores bíblicos que confirmam essa tese: Gerhard Lohfink diz que Jesus estaria a “violar deliberadamente os padrões sociais de comportamento”, embora Amy-Jill Levine lembre o papel das mulheres no Antigo Testamento para dizer que esse destaque nem seria muito surpreendente na cultura judaica.

Elisabeth Schüssler Fiorenza, nascida romena, de nacionalidade alemã e que vive nos Estados Unidos, que marcou as teologias feministas com o seu livro “Em Memória Dela”, observa: “Enquanto, segundo Marcos, os principais discípulos varões não compreendem o messianismo sofredor de Jesus, rejeitando-o, e por fim abandonam o Mestre, no relato da paixão, as mulheres discípulas que o seguiram desde a Galileia até Jerusalém surgem, de repente, como as verdadeiras discípulas (…) que entenderam que o seu ministério [de Jesus] não consistia no governo e na realeza, mas na diakonia, ‘serviço’.”

Marc Chagall, Ressurreição

Marc Chagall, Ressurreição: Nada é mais misterioso do que a história da ressurreição de Jesus, escreve Ed Parish Sanders, “que tenta retratar uma experiência que os próprios autores não conseguiram compreender”.

Tudo terminou, ficou dito, com as discípulas – e, depois, os discípulos – de Jesus a anunciarem a sua ressurreição. Não se sabe como foi nem o que aconteceu. Para os dois mil milhões de cristãos que hoje existem (e para os muitos que se sucederam na história), essa é a verdade fundamental da sua fé. Para muitas outras pessoas, isso continuará a ser um desvario, um mito, uma história sem sentido. O biblista Ed Parish Sanders escrevia (A Verdadeira História de Jesus, ed. Notícias) que se sabe “quem era, o que fez, o que ensinou e por que morreu” Jesus e como ele “inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História”. Nada, acrescenta, “é mais misterioso do que a história da sua ressurreição, que tenta retratar uma experiência que os próprios autores não conseguiram compreender.”

Num outro livro que marcou a busca contemporânea – e a polémica – acerca de Jesus, o jornalista e escritor católico francês Jacques Duquesne (Jesus, ed. Círculo de Leitores, publicado em 1997) escrevia: “A História não poderá dizer se Jesus está vivo, ou se, pelo contrário, morreu para sempre no dia 7 de Abril do ano 30. O que pode, porém, dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.”

Dimas Almeida, pastor protestante que morreu em Agosto e dedicou ao estudo da Bíblia a maior parte do seu trabalho, fez um longo e marcante comentário à tradução dos evangelhos editada recentemente pela Conferência Episcopal Portuguesa. O texto, publicado no 7MARGENS, nota que “há, cada vez mais, homens e mulheres que dizem não às Igrejas e sim a Jesus” e que ele “continua a suscitar a atenção dos historiadores, dos escritores, dos cineastas”. E conclui: “Precisamos da vida que nos advém das nossas raízes. Ora, coisa surpreendente, no meio de um cristianismo fatigado, a sua figura fundadora, Jesus de Nazaré, continua a ser uma figura fascinante.”

Ou, como escreve Frederico Lourenço na introdução citada à tradução dos quatro evangelhos: “Porque a verdade é esta: tanto crentes como não-crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças, enquanto houver seres humanos na Terra.”

 

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