«Jesus, sabendo que viriam buscá-lo para o fazer rei, retirou-se novamente sozinho para o monte» (João 6:15). Talvez poucos passos dos Evangelhos revelem tão claramente a distância entre aquilo que as pessoas esperavam de Jesus e aquilo que Jesus entendia ser a sua missão.
A multidão acabara de assistir à multiplicação dos pães. Havia entusiasmo, admiração e esperança. Finalmente surgia alguém capaz de responder às necessidades do povo, de desafiar as autoridades e, quem sabe, de conduzir Israel a uma nova era de liberdade. Mas Jesus afasta-se. Recusa o papel que lhe querem atribuir. Recusa tornar-se o messias que todos esperam.
Num contexto marcado pela ocupação romana, pela instabilidade política e pelo desejo de libertação, era compreensível que muitos esperassem um messias capaz de restaurar a soberania de Israel, derrotar os inimigos e inaugurar uma nova era de prosperidade nacional. Jesus não correspondeu a esse modelo. Os Evangelhos mostram repetidamente que foi uma fonte de desilusão para muitos dos seus contemporâneos, não porque tivesse falhado a sua missão, mas porque se recusou a corresponder às expectativas que outros projetavam sobre ele.
É fácil esquecer que os próprios discípulos não seguiam Jesus com uma compreensão clara daquilo que ele era ou do que vinha fazer. Tal como os restantes judeus do seu tempo, também eles viviam alimentados por diversas esperanças messiânicas: a restauração de Israel, a derrota dos opressores, o triunfo da justiça, o estabelecimento definitivo do Reino de Deus.
Pedro reconhece nele o Messias, mas quando Jesus começa a falar do sofrimento e da morte que o esperam, reage com incompreensão e oposição. A ideia de um messias sofredor era incompatível com tudo aquilo que esperava. O conflito não resulta da falta de fé, mas do choque entre duas compreensões diferentes do que significa ser Messias.

“Jesus não procurou adaptar a sua mensagem para evitar abandonos. Não suavizou as suas palavras para preservar popularidade. Não reformulou o seu discurso para corresponder às expectativas do público.” Foto: Vista do Mar da Galileia a partir do Monte das Bem-Aventuranças. © Obendorf | Wikimedia Commons
A mesma desilusão ecoa nas palavras dos discípulos de Emaús. Depois da crucifixão, confessam ao misterioso viajante que os acompanha pelo caminho: «Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel» (Lucas 24:21). A frase é profundamente humana. Não expressa falta de fé, mas o choque entre a realidade e as expectativas. Jesus não falhou apenas aos olhos dos seus adversários; falhou também aos olhos daqueles que mais acreditavam nele.
Mas talvez o episódio mais surpreendente seja o narrado no Evangelho de João. Depois do discurso sobre o pão da vida, muitos discípulos abandonam Jesus. O evangelista escreve simplesmente: «A partir de então, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com ele» (João 6:66). Não foram apenas os fariseus, os saduceus ou as autoridades religiosas que se afastaram. Foram discípulos, pessoas que tinham acreditado nele, caminhado com ele e escutado os seus ensinamentos.
Há algo de inquietante nesta constatação. Jesus não procurou adaptar a sua mensagem para evitar abandonos. Não suavizou as suas palavras para preservar popularidade. Não reformulou o seu discurso para corresponder às expectativas do público. Preferiu permanecer fiel àquilo que considerava essencial, mesmo quando isso significava perder discípulos.
Talvez por isso a figura de Jesus continue a provocar desconforto ainda hoje. Também nós construímos imagens dele. Uns imaginam um Jesus que confirma as suas convicções políticas. Outros desejam um Jesus que legitime as suas certezas religiosas. Alguns procuram um mestre espiritual que ofereça tranquilidade interior. Outros esperam um reformador social ou um revolucionário. Em muitos casos, a imagem que fazemos de Jesus diz mais sobre nós próprios do que sobre ele.
O problema não está em termos expectativas. Faz parte da condição humana aproximarmo-nos dos outros carregando desejos, esperanças e projeções. O problema surge quando recusamos aceitar que a realidade possa ser diferente daquilo que imaginámos.
Os Evangelhos sugerem que seguir Jesus implica precisamente o abandono contínuo das imagens que fabricamos acerca dele. Os discípulos tiveram de abandonar sucessivamente as suas ideias sobre poder, grandeza, sucesso, vingança, privilégio e recompensa. A fé não consistiu apenas em acreditar mais. Consistiu também em deixar cair imagens inadequadas.
Talvez por isso a pergunta decisiva não seja se acreditamos em Jesus. A pergunta mais difícil é outra: acreditamos em Jesus ou apenas na ideia de Jesus que construímos para nós próprios?
Entre uma coisa e outra pode existir uma distância maior do que imaginamos.
Dália Fernandes é mestre e doutoranda em História e Cultura das Religiões pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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