China

O jornal Apple Day esgotou a sua última edição – uma má notícia para a liberdade em Hong Kong

| 25 Jun 21

Funcionários do Apple Daily a distribuírem cópias da última edição do jornal. Foto © 立場新聞/ Wikimedia Commons.

 

Foi mais uma má notícia para a liberdade em Hong Kong: o jornal pró-democracia Apple Daily publicou nesta quinta-feira, 24 de Junho, a sua última edição impressa, horas depois de ter encerrado também as suas páginas na internet e nas redes sociais. Houve milhares de pessoas a fazer fila para ter acesso à última edição do jornal em cujo editorial o Apple Daily desafia os governos da China e do território, afirmando-se “vítima da tirania”, por causa da nova lei de segurança nacional que Pequim promulgou para o território. 

O “Apple Daily está morto”, escreveu o editor-chefe adjunto Chan Pui-man, preso na semana passada na carta de despedida aos leitores. “A liberdade de imprensa tornou-se vítima da tirania”.

A morte do jornal popular, dirigido pelo empresário católico Jimmy Lai, ele próprio na prisão acusado de participar em manifestações pró-democracia, é o mais recente golpe nas liberdades de Hong Kong, considera a UCANews, agência de notícias católica da Ásia. Este novo episódio, diz a agência, agrava o mal-estar de um centro financeiro internacional que não se sabe se pode continuar a ser um centro mediático enquanto a China procura acabar com a dissidência.

De facto, acrescenta a mesma fonte, várias empresas internacionais de comunicação social têm sede regional em Hong Kong, tendo em conta as regras favoráveis aos negócios e as disposições sobre a liberdade de expressão, plasmadas na mini-constituição da cidade. Mas esta situação coloca em questão o futuro de outras empresas do género. 

De acordo com os relatos das agências internacionais, o Apple Daily imprimiu um milhão de cópias (para uma cidade com 7,5 milhões de habitantes) que, às 8h30 da manhã, estavam já esgotadas na maioria dos quiosques, como resumia a TSF.

No bairro de Mong Kok, por exemplo, os residentes já faziam fila de madrugada, horas antes de o jornal chegar às bancas, como contava a AP (Associated Press), citada pela mesma fonte. Muitas dessas pessoas cantavam “Apple Daily we will meet again!” (Apple Daily encontrar-nos-emos de novo”)

Quarta à noite, ainda de acordo com a AP, mais de uma centena de pessoas estiveram à porta do edifício do jornal, debaixo de chuva, em apoio aos jornalistas que trabalhavam na última edição, a tirar fotografias e a gritar palavras de encorajamento.

A foto da primeira página da última edição mostra precisamente um desses momentos, com um funcionário do jornal a acenar aos apoiantes e o título “Residentes de Hong Kong fazem despedida dolorosa à chuva: ‘Apoiamos o Apple Daily'”.

“Conluio com forças estrangeiras”

Jimmy Lai, fundador do Apple Daily, quando era levado a julgamento, em 1 de Fevereiro deste ano. Foto © Studio Incendo/ Wikimedia Commons.

 

Fundado em 1995, o Apple Daily foi um firme apoiante do movimento pró-democracia e dos protestos antigovernamentais que abalaram o território em 2019. Com o fim do jornal em papel e na internet, cerca de mil pessoas, 700 dos quais são jornalistas, ficaram no desemprego. 

Com o proprietário na cadeia – Jimmy Lai defendeu sanções internacionais contra os dirigentes de Pequim e de Hong Kong, o que levou à acusação de “conluio com forças estrangeiras” – e com os bens do jornal congelados, o Apple Daily não teve outro caminho senão fechar. 

Já na semana passada, mais de 500 polícias tinham invadido as instalações do diário, numa operação que resultou na detenção de cinco responsáveis da publicação e no congelamento de bens no valor de cerca de 1,9 milhões de euros. Três dos detidos foram, entretanto, postos em liberdade sob caução, mas os outros dois foram também acusados de “conspirar com forças estrangeiras”, ao abrigo da mesma lei de segurança nacional que o jornal tanto contestava.

“Os habitantes de Hong Kong perderam uma organização mediática que ousou falar e insistir na defesa da verdade”, disseram oito associações de jornalistas locais numa declaração conjunta, apelando aos colegas para se vestirem de preto, de acordo ainda com a UCANews. 

A mesma fonte recorda que Hong Kong caiu na classificação anual da liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras, do 18º lugar em 2002, pela ara o 80º este ano. A China está num péssimo 177º lugar entre 180 países e territórios, apenas acima do Turquemenistão, Coreia do Norte e Eritreia.

A lei de segurança nacional visava apenas “uma pequena minoria”, argumentavam o Governo de Pequim e as autoridades locais. Mas transformou em pouco tempo e de forma radical o panorama da cidade, na qual a China tinha prometido manter as liberdades e a autonomia fundamentais, depois da devolução do território à China, em 1997, pela Grã-Bretanha.

A UCANews diz que já há mais de 60 pessoas acusadas ao abrigo da lei, incluindo alguns dos activistas pró-democracia mais conhecidos da cidade. Na maior parte dos casos, as detenções foram motivadas por opiniões ou discursos políticos que as autoridades declararam ilegais.

Jimmy Lai, o proprietário do Apple Daily, foi das primeiras pessoas a serem acusadas ao abrigo da nova lei, após a sua imposição, no ano passado. 

Entre as reacções – inconsequentes – ao fecho do jornal, estão as do ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab. Citado pela AP na TSF, o responsável escreveu na sua conta na rede social Twitter que “o encerramento forçado” do jornal pelas autoridades de Hong Kong “é uma demonstração arrepiante da campanha para silenciar todas as vozes da oposição”. Também a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Maria Adebahr, considerou o facto como um “duro golpe contra a liberdade de imprensa” no território.

 

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