O labirinto do tempo

| 1 Jan 20

Há uma tendência geral para considerar a viragem para um novo ano como uma espécie de dobradiça da história. Por isso se formulam tantas intenções no início de cada unidade de tempo a que chamamos ano, mas que, regra geral, não resistem mais do que duas ou três semanas, no regresso às rotinas do costume.

Foto © Ozias Filho

 

Esta ideia é tipicamente ocidental e resulta de uma concepção linear do tempo e da história. Depois da Revolução Industrial, os povos europeus pensavam que o progresso seria geométrico, dado o avanço da ciência e da técnica, mas bastaram meia dúzia de anos vividos no século vinte para que esse optimismo moderno batesse com a cara no chão, face à devastação provocada pela Grande Guerra, que dizimou milhões de vidas humanas. Começou logo aí a desilusão com a religião na Europa, dando lugar a regimes políticos extremistas, desilusão essa que foi agravada poucos anos mais tarde pela II Guerra Mundial, que deixou o continente destruído.

Já no Oriente, o factor tempo é concebido de outra maneira, mais no sentido circular, talvez influenciado pelas ideias da reencarnação e do karma, formas civilizacionais diferentes para lidar com a questão do sofrimento e do sentido da vida.

A fé cristã compreende que para Deus o factor tempo é conceptualmente diferente do que é para os humanos. O nosso tempo é o chronos, medido por relógios e calendários, mas o tempo de Deus é o kayros“Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8). Este conceito divino só se entende na perspectiva de que Deus é maior do que o tempo que Ele próprio criou.

A percepção do tempo altera-se em função de diversas variáveis. Por exemplo, a idade da pessoa. Para uma criança o tempo é vagaroso, custa a passar, porque ela quer crescer rapidamente, a menos que esteja numa festa, em actividades lúdicas como jogos de vídeo ou a fazer alguma outra coisa que lhe dê particular prazer. Já para uma pessoa de idade avançada o tempo parece que corre. Apesar de tudo, Vergílio Ferreira diz que “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.”

Outra variável é a geografia. Nas regiões urbanas tem-se a sensação que o tempo foge, dada a correria do dia-a-dia, enquanto no meio rural parece passar mais devagar. Mas também a cultura pode fazer a diferença. Uma pessoa que tenha interesses culturais e a vida cheia tem a sensação de falta de tempo, enquanto os desocupados vivenciam a passagem dos dias como mais lenta e monótona.

Uma outra variável possível é o tipo de emprego que se tem. Um trabalho mecânico, repetitivo e sempre igual tende a fazer o trabalhador sentir que as horas custam mais a passar. Já no caso de tarefas que exijam criatividade, diversificação e imaginação tem-se a sensação de que o tempo passa mais depressa. Por tudo isto e muito mais, a percepção do tempo varia muito de pessoa para pessoa e de situação para situação. Dante estava convencido que “O tempo passa e o homem não percebe.”

A viragem do ano é apenas uma marca de calendário e terá a importância que as pessoas lhe quiserem dar. É certo que organizamos a nossa vida pessoal e colectiva segundo determinadas unidades de tempo. Só assim podemos interagir com os outros em sociedade, caso contrário seria o caos. Quando marcamos uma reunião, sabemos que a hora definida é igual para todos.

Mas a vida humana concreta não se “arruma” em dias e horas. As unidades de tempo são uma convenção tornada norma social com vista a um funcionamento colectivo articulado. Há mais vida para além do relógio e do calendário. Em psicoterapia sabemos que os ritmos internos de cada pessoa diferem tanto das outras pessoas como do momento que cada um está a viver. Alguns resolvem as suas dissonâncias internas numa terapia breve, mas noutros o movimento terapêutico é mais longo e acidentado, acabando por demorar muito mais a concluir, porque cada indivíduo é único e irrepetível. Assim, o tempo parece ser uma espécie de labirinto onde cada um entra e faz um percurso distinto dos outros, até descobrir a saída.

A viragem do ano não é uma dobradiça da história, é apenas mais uma página que se passa no livro da nossa existência.

Talvez Mia Couto tenha razão quando diz: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga”. Ora então vamos lá a sonhar, até porque, segundo António Gedeão, “o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, e acima de tudo é o sonho que “comanda a vida”.

Assim, sonhemos desde já o novo ano de 2020.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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