"Motu proprio" sobre o rito tridentino

“Gostamos do latim na missa, mas não queremos falar sobre o que o Papa disse acerca disso”

| 26 Jul 21

O Papa falou, está falado. E quando o bispo falar, acata-se. No final da missa segundo o rito antigo, em latim, ninguém quer assumir comentários ao decreto do Papa que limita as possibilidades dessa celebração.

Uma das características do rito tridentino é o padre celebrar de costas para quem assiste à missa. Foto © Andrewgardner1/Wikimedia Commons.

 

À porta da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, em Lisboa, um grupo de jovens adultos conversa animadamente. Terminara a missa segundo o rito antigo, mas ninguém quer falar sobre o motu proprio (decreto) do Papa Francisco acerca da aplicação daquele rito litúrgico, publicado sexta-feira passada, dia 16.

“Não tenho nada a dizer, o Papa falou, ouço o que diz e pronto”, afirma um. “Quando o meu bispo disser alguma coisa, eu acato”, acrescenta outro. Entre uma dúzia de pessoas, apenas duas mulheres, também jovens. Dois dos rapazes tinham estado a ajudar o celebrante e saíram de batina e cabeção eclesiástico. Não são seminaristas, asseguram, apesar de, entre membros do clero de Lisboa, se comentar que há cada vez mais seminaristas e jovens padres adeptos deste rito e do uso de vestes caídas em desuso, como a batina ou o chapéu tricórnio preto…

Só dois mantêm a máscara sanitária que tinham colocada no interior da igreja, uma das jovens cumprimenta com beijos dois dos amigos. A boa disposição é patente, mas não chega para alargar conversar sobre o tema.

A Conceição Velha, na Baixa de Lisboa, é o lugar indicado em Lisboa para a celebração da missa segundo o missal aprovado pelo Papa João XXIII em 1962. O rito, no seu essencial, vem da reforma feita pelo Concílio de Trento (1545-1563).

De que consta? No essencial, a missa é em latim e o padre fica de costas para os fiéis. Um padre da região Centro, que pede o anonimato, diz que a diferença principal que descobre é o silêncio. “O rito antigo é mais silencioso”, diz.

Pode não ser sempre assim. O rito antigo inclui sucessivos sinais da cruz, vénias dos acólitos e do padre, toque repetido da campainha litúrgica (caída em desuso, porque se usava para sinalizar momentos importantes que o uso do latim não permitia descodificar). Onde alguns vêem mistério e silêncio, outros podem sentir perturbação, gestos e ruídos ritualizados e em demasia.

Os textos bíblicos, que agora o Papa quer que sejam proclamados na língua local e não em latim, foram, na missa de terça-feira passada, traduzidos: lidos primeiro em latim, com uma entoação monocórdica, proclamados depois em português, com uma leitura bem mais entoada. Para quem assiste, mais solenidade na forma de ler em português do que em latim.

“Assistir” é o verbo, dirá à saída um dos jovens inquiridos. “Não venho celebrar. Quem celebra é o sacerdote.” À insistência sobre a pergunta, admite: “Venho rezar, assistir à missa, estar com Deus… Vá, em sentido lato, também celebro…”

Um código para decifrar: no Concílio Vaticano II (1962-65), a reunião de todos os bispos católicos do mundo, que é a máxima autoridade na Igreja, recuperou-se a ideia de que são todos os fiéis que celebram a eucaristia – o padre “preside”.

Mais importante ainda, em relação ao rito anterior: “A eucaristia deixa de ser do celebrante ou expressão de piedade individual e é entendida como manifestação comunitária da fé: é a Igreja, presente em cada comunidade, que ali se expressa na adesão a Cristo”, diz o padre João Eleutério, professor da Universidade Católica na área da teologia dos sacramentos.

Outro pormenor: com os séculos, a noção de sacerdócio (mais própria do judaísmo do Templo de Jerusalém) foi ganhando terreno, sacralizando o que no início eram os ministérios do presbítero e bispo, vistos como serviço à comunidade. Hoje, os defensores do rito antigo falam sobretudo de sacerdote.

 

Mão estendida, costas voltadas

Ordenação do padre Borges Coutinho (à frente, à esquerda), presidida pelo cardeal Raymond Burke, um dos opositores declarados do Papa Francisco, em Junho de 2018, em França. À esquerda, por trás, os padres Mário Rui Pedras e Hugo Santos, da paróquia de São Nicolau (Lisboa). Foto: Direitos reservados.

 

João Eleutério diz ainda que o Papa não corta a pluralidade, mas evita a “ditadura de uma minoria: a liturgia já permite a pluralidade, mas também exige fidelidade”. E exemplifica: “O abraço da paz na China é uma vénia”, não o beijo ou aperto de mão que se faz no Ocidente. “O ritual é uma pauta musical, interpretado consoante os contextos culturais”, comenta.

A reforma de Trento, explica, não se manteve igual durante os 400 anos, assegura. Houve várias reformas e outras tentativas de reforma. No início do século XX, o Papa Pio X, hoje usado como bandeira pelos tradicionalistas, abriu a possibilidade da comunhão das crianças, até aí inexistente, e promoveu a ideia da comunhão mais frequente – até aí as pessoas comungavam praticamente só uma vez por ano, na Páscoa. O Concílio Vaticano II recupera orações do primeiro milénio, incluindo da tradição cristão do Oriente. “A pluralidade existe. Mas quando uma minoria impõe uma espécie de correcção do Espírito Santo, é demais”, diz João Eleutério.

“O rito antigo ajuda-me espiritualmente”, contrapõe o padre do Centro já citado, tentando explicar o sentido de atracção pelo rito antigo. “Há pessoas que gostam mais de um ou outro estilo de oração”, acrescenta, remetendo para o texto do Papa Bento XVI, Summorum pontificum, “as razões” para justificar a persistência desse rito.

No motu proprio de Bento XVI, publicado em 2007, o Papa Ratzinger alargava a possibilidade de algum padre celebrar a missa antiga como forma de atender as “súplicas insistentes” dos fiéis que o pedissem. Estava em causa, na época, o estender da mão aos seguidores do arcebispo Marcel Lefebvre, que romperam com o Vaticano nos anos 1980-90 e se reúnem na Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX).

Agora, o Papa Francisco diz que a mão estendida do Vaticano teve como resposta as costas voltadas de muitos dos que preferem este rito: é cada vez mais evidente, escreve, “nas palavras e atitudes de muitos a estreita relação entre a escolha das celebrações de acordo com os livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II e a rejeição da Igreja e suas instituições”. Estão a “aumentar as distâncias, endurecer as diferenças e construir oposições que ferem a Igreja e dificultam o seu progresso, expondo-a ao risco de divisão”, diz.

O Papa alude ao facto de quem quer o rito antigo também recusar a doutrina do Concílio Vaticano II no que respeita à possibilidade do diálogo ecuménico (protestantes e ortodoxos são “heréticos”, dizem) e à liberdade religiosa (a Igreja Católica é a única religião verdadeira e as outras religiões não são “sementes” de Deus, como diz o documento do Concílio sobre as religiões não-cristãs).

 

Um “uso distorcido”, diz o Papa

O cardeal norte-americano Raymond Burke em França, em 2018, depois de ter ordenado novos padres que seguem o rito tridentino (um dos quais o português António Borges Coutinho). Foto: Direitos reservados.

 

Esse é “um comportamento que contradiz a comunhão”, diz ainda o Papa Francisco no motu proprio que leva o título Traditionis Custodes (“Guardiães da tradição”). E isso levou a um “uso distorcido” e “contrário aos motivos” que levaram João Paulo II e Bento XVI a conceder a liberdade de celebrar com o chamado rito antigo, acrescenta, confessando-se “entristecido” e “preocupado” e exigindo que todos os novos pedidos para celebrar a missa tridentina sejam aprovados pelos bispos locais – e, em determinadas circunstâncias, pelo Vaticano.

No caso de Lisboa, o cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, garante ao NOVO que “serão seguidas, como sempre, as indicações do Papa Francisco”. Por isso, a Conceição Velha continuará a ser a igreja para as celebrações com o missal de 1962.

O padre Mário Rui, pároco de São Nicolau, a cuja paróquia pertence a Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, responde que não comenta o motu proprio do Papa, mas sublinha “o óbvio: a plena obediência, pessoal e da paróquia, ao magistério da Igreja”.

Há questões que alguns clérigos de Lisboa levantam em relação a dois dos padres que ali celebram: António Borges Coutinho, ordenado no Verão de 2018 pelo cardeal Raymond Burke (um dos opositores notórios do Papa), tinha sido convidado a deixar o seminário em Lisboa e celebra hoje no rito antigo. Não tem autorização formal do patriarca para o fazer depois de, por causa da pandemia, ter ficado por Lisboa, dizem.

Depois de frequentar um curso universitário de história, Borges Coutinho integrou-se no Instituto do Bom Pastor, instituto de direito pontifício, facto confirmado pelo patriarca, que não adianta mais pormenores. Foi impossível chegar à fala com Borges Coutinho, para saber da sua permissão para celebrar.

O padre Hugo Santos, coadjutor das paróquias de São Nicolau e Madalena, estará por seu lado interditado pelo patriarca de Lisboa de ouvir pessoas em confissão. “Tem celebrado na ‘forma antiga’ com o conhecimento do bispo diocesano”, diz o patriarca, não confirmando a proibição de o antigo capelão da Universidade Católica atender em confissão e se isso tem relação com o rito antigo.

Hugo Santos, que recusou fazer qualquer comentário, remetendo para a paróquia e o Patriarcado, disse que a informação era “estranha” e escusou-se a afirmar se é verdade ou não que esteja interdito de confessar.

Com padres “simpatizantes” do rito antigo, a celebrar em várias dioceses do país, a Madeira é uma ilha: o bispo Nuno Brás já recusou à FSSPX a cedência de uma igreja para celebrar. “Não posso dar uma igreja a quem diz mal do Papa ou do bispo”, afirma. “Há pessoas adeptas do rito antigo, mas não celebram aqui, que eu saiba.” No clero da diocese, até agora, ninguém lhe pediu autorização para o fazer, assegura.

 

Este texto foi originalmente publicado na edição de sexta-feira, 23 de Julho, do jornal Novo, em cuja página digital pode também ser lido.

 

Direitos humanos, paz e casa comum: como se reescreve um Papa?

Ensaio

Direitos humanos, paz e casa comum: como se reescreve um Papa? novidade

As intervenções de um Papa na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGONU) aconteceram em cinco momentos da História e resultaram de um estatuto jurídico reconhecido internacionalmente ao líder máximo da Igreja Católica, incomparável quer relativamente aos líderes das outras religiões, quer aos das nações. Isto, por si só, é relevante a nível da política e das relações internacionais.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This