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Cardeais reunidos em congregação geral, 30 de abril de 2025. Foto Vatican Media

As difíceis decisões do conclave (7)

O legado de Francisco e os trabalhos do Papa João (ou será um novo Francisco?)

 

Quando se aproxima a eleição do sucessor de Francisco, que o 7MARGENS tem antecipado numa curta série de textos, pode fazer-se a geografia dos muitos problemas e exigências que o novo Papa terá de enfrentar. E dos muitos nomes que, de uma forma ou de outra, podem influenciar a escolha ou ser escolhidos para os enfrentar. Este texto é uma versão acrescentada de um outro inicialmente publicado no Público/P2 de domingo passado, dia 4.

 

O nome dirá o programa.

Ninguém adivinha quem será o eleito do conclave que se inicia na próxima quarta-feira, 7 de Maio. Mas uma coisa se pode intuir: é muito provável que o nome escolhido repita algum dos últimos papas: João (neste caso, seria o 24º com esse nome); Paulo (o sétimo); ou de novo Francisco. Todas estas escolhas diriam a vontade de prosseguir o movimento reformador que o Papa argentino, que morreu dia 21, impulsionou e acelerou.

Com matizes diferentes, qualquer destes nomes propõe uma direcção: João recorda o Papa Roncalli (1958-63), que convocou o II Concílio do Vaticano e deu um impulso decisivo aos movimentos de reforma que atravessaram o século XX. Paulo viria na sequência de Montini, que prosseguiu e concluiu o Concílio e deu ao catolicismo um ímpeto missionário (foi o primeiro a fazer viagens fora do Vaticano), dotando-a de novas propostas (um sínodo dos bispos, um dia da paz, várias reformas legislativas e pastorais na sequência das propostas conciliares).

A escolha do nome Francisco diria que se pretende continuar a ambição de concretizar as propostas conciliares através da dinâmica sinodal convocada pelo Papa argentino, com um olhar de cuidado em relação ao mundo e de compaixão e misericórdia para com os mais frágeis que habitam o planeta. Mas a herança, o legado, a criatividade e as dinâmicas de Bergoglio são de tal modo vastos que será prudente afirmar que só quem estiver incondicionalmente com o caminho traçado por Francisco e com a sua forma de dizer e fazer é que conseguiria optar por este nome.

Será mais difícil que o eleito opte pelo nome de João Paulo, que ficaria como que associado à ideia de um novo fechamento que só alguns desejam. Mesmo se João Paulo II deixou uma doutrina social que, politicamente, se situa claramente à esquerda do espectro político, o modo como ele pretendeu “fechar” dossiês internos da Igreja deixou uma marca de bloqueio de que ainda hoje se sofrem as consequências. Estão neste caso a questão do debate sobre as mulheres na Igreja, o modelo do ministério de presbítero (padre), o entendimento da teologia como reprodução da voz de quem manda, o centralismo da Cúria Romana.

A hipótese do nome de Bento deve ficar de fora: Ratzinger escolheu-o como forma de homenagear o fundador do monaquismo e patrono da Europa e também com a referência ao Papa Bento XV que, no tempo da Grande Guerra 1914-18, foi uma voz no deserto contra o belicismo. Mas dificilmente voltaremos a uma herança muito eurocêntrica, num catolicismo universal que é cada vez mais do Sul do mundo (África, América Latina, Ásia).

 

Vasto património

Papa Francisco na sessão de abertura do Sínodo, 2 outubro 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco na sessão de abertura do Sínodo, 2 outubro 2024. Foto Vatican Media

 O sucessor de Francisco herda um vasto património, no qual é difícil desligar os diferentes aspectos uns dos outros. A renovação e a reforma da Igreja passaram pela dinâmica sinodal, que incluiu a realização de vários sínodos; mas tem implicações no modo de o catolicismo se tornar presente na sociedade, com um olhar centrado nos mais vulneráveis.

Os sínodos foram o modo como Francisco colocou a Igreja em busca do aggiornamento dos seus modos de presença: houve um (em duas sessões) sobre a família, que foi preparado por um inquérito respondido por milhares de pessoas e grupos de todo o mundo; outro sobre os jovens, que envolveu também um conjunto alargado de pessoas e que levou à criação de um conselho consultivo de jovens do mundo inteiro no Vaticano; um terceiro sobre a Amazónia, que colocou no centro uma das periferias mais esquecidas e desprezadas (os indígenas) e a dinâmica de uma espiritualidade centrada na criação e em práticas eclesiais renovadas.

O último, sobre a sinodalidade (a ideia da participação de todos naquilo que a todos diz respeito), implicou a mais vasta dinâmica de auscultação e debate alguma vez realizada na história da humanidade: milhões de católicos, no mundo inteiro, envolveram-se na discussão sobre o que queriam da sua Igreja e como a queriam ver organizada. Não apenas com um olhar interno: o que debateram foi, sempre, em ordem ao modo como cada baptizado e a Igreja no seu conjunto se devem situar no mundo em que vivem e concretizar a sua missão.

Também em duas sessões (2023 e 2024), este sínodo não foi, no entanto, uma meta: mal os médicos do hospital Gemelli declararam o Papa livre de perigo da sua bronquite, Francisco confirmou a convocatória de uma Assembleia Eclesial para 2028. Nela estarão, em pé de igualdade, cardeais, bispos, padres, religiosas e leigos – homens e mulheres – naquele que é mais um passo de consolidação da experiência do Sínodo dos Bispos de 2023/24, em que participaram muitos leigos (incluindo mulheres), padres e freiras. E de novo, esta assembleia pressupõe um processo de auscultação e debate que, em diversas etapas, envolverá milhões de crentes.

Questões como o papel dos jovens, dos leigos e das mulheres nas estruturas de participação e decisão; a continuidade da luta contra os abusos sexuais; a reorientação da moral sexual e familiar na linha do sínodo sobre a família e da exortação Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), do Papa Francisco; a prestação de contas (não só no aspecto económico, mas também aí); um ministério de presbítero sem a carga de “casta sacerdotal” e regressado à intuição original de um ministério de serviço à comunidade; a redefinição da formação dos seminários; a possibilidade de as comunidades locais terem voz na escolha dos seus bispos; a revalorização e centralidade da Bíblia na vida das comunidades católicas – estão no horizonte do documento final do último sínodo, que Francisco assumiu como texto seu; e estão também no horizonte do sucessor que vier a ser escolhido: o modo como for encarada esta dinâmica e a assembleia de 2028 ditarão a continuidade ou a ruptura.

 

Imobilistas, reformadores, assim-assim

cardeal jean-claude hollerich foto vatican media sem creditos

Cardeal Jean-Claude Hollerich. Foto Vatican media sem créditos

Entre os cardeais, os mais imobilistas (entre eles, Robert Sarah, da Guiné-Conacri, Raymond Burke, dos EUA, ou os alemães Rainer Maria Woelki e Gerhard Ludwig Müller) contestaram a lógica e os propósitos do sínodo e da participação; mas também há os que, fazendo profissões de fé na sinodalidade, ao mesmo tempo a esvaziam de conteúdo. Deste lado, alinham ainda, embora de forma mais moderada, cardeais como Péter Erdo, da Hungria, que quase nunca levantou a voz contra o sucessivo autoritarismo de Viktor Órban, Wim Eijk, dos Países Baixos, ou o congolês Fridolin Ambongo Besungu (Kinshasa), que tem contestado a guerra no seu país, mas se opôs ao documento do Vaticano que permitia a bênção de casais do mesmo sexo, em circunstânias especiais.

Gerhard Müller, que se tem multiplicado em entrevistas pré-conclave, já disse que a eleição do sucessor de Francisco será um confronto entre “ortodoxia” e “heresia”, mais do que entre conservadores e liberais, e que ela deverá também marcar o fim de uma era de “ambiguidades” em relação a temas como as mulheres, os gays e o islão. Para estes sectores, está em causa o que consideram a falta de consistência moral ou a confusão lançada por Francisco em vários domínios, bem como a prioridade por ele dada à descentralização, que entendem ser ameaças à autoridade da hierarquia católica.

Tendo ainda o sínodo e as suas dinâmicas como bússola, podem referir-se vários cardeais alinhados com esse propósito, embora com diferentes capacidades e estratégias para o levar por diante. Palavras como o cuidado, a misericórdia e a compaixão ou expressões como a Igreja dever ser um “hospital de campanha” são caras a diferentes nomes que participarão no conclave e que alinham com Francisco em matérias como a abertura da comunhão a pessoas divorciadas recasadas, à inclusão de pessoas LGBTQI na Igreja ou a insistência na continuação do diálogo ecuménico e inter-religioso.

Em linha com estas perspectivas, estão três franceses: Jean-Marc Aveline (Marselha), François-Xavier Bustillo (Ajaccio, Córsega), e Jean-Paul Vesco (arcebispo de Argel, capital da Argélia). Qualquer um deles está na fronteira mediterrânica com o islão, a África, as vagas de refugiados, a pobreza e o sul do mundo – e nessa fronteira deve referir-se também o espanhol da Andaluzia Cristobal Lopez Romero, actual arcebispo de Rabat (Marrocos). Mas podem ainda apontar-se o filipino Luis Antonio Tagle ou o italiano Matteo Zuppi (Bolonha), que no entanto tem sido criticado por não afrontar devidamente o problema dos abusos sexuais.

O português Tolentino Mendonça tem sido incluído também no grupo dos defensores da sinodalidade e da herança de Francisco e é reconhecida a sua capacidade de fazer pontes com diferentes sectores. Mas o perfil de poeta e intelectual, provavelmente não farão dele um forte candidato à sucessão. A idade também não ajuda: os seus 59 anos são, neste conclave, um quase certo factor para a exclusão, já que ainda estão na memória de muitos os 26 anos do longo pontificado de João Paulo II, eleito aos 58 anos.

Profundamente alinhados com Francisco, embora com características pessoais bem diferentes, são os cardeais Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo, relator do Sínodo e membro do C-9, o grupo de cardeais conselheiros do Papa, que se manifestou várias vezes pela ordenação de homens casados e de mulheres diáconos, bem como a favor de uma profunda reforma dos seminários e de uma mudança do discurso católico sobre a sexualidade; Timothy Radcliffe, que foi o principal interveniente nas meditações temáticas do Sínodo sobre a sinodalidade; Konrad Krajewski, polaco e esmoleiro do Papa, que foi em diversas missões à Ucrânia entregar bens de primeira necessidade; o sueco e frade carmelita Anders Arborelius, de personalidade muito discreta, com uma grande experiência no diálogo ecuménico e inter-religioso, habituado a estabelecer pontes; Dieudonné Nzapalainga, de Bangui (República Centro-Africana), um pacificador no meio de uma guerra civil, mas que tem nos seus 58 anos o mesmo obstáculo de Tolentino Mendonça; e ainda o sul-africano Stephen Brislin, descendente de escoceses e irlandeses.

Entre os que afirmariam a sua adesão à dinâmica introduzida por Francisco mas lhe reduziriam bastante o ímpeto – nomeadamente em temas como o lugar das mulheres, a participação dos leigos, a prestação de contas ou a descentralização – estão o secretário de Estado Pietro Parolin, hábil diplomata mas com pouca experiência pastoral e a quem se aponta a lentidão nas decisões; o suíço Kurt Koch (ex-prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos); ou o espanhol Juan Jose Omella (arcebispo de Barcelona).

 

Mundo, vasto mundo

Barco com refugiados no Mediterrâneo. Foto © ACNUR

Barco com refugiados no Mediterrâneo. Foto © ACNUR

Como ficou dito, o processo de possibilitar uma maior envolvência nos lugares de participação e decisão tem a ver não apenas com questões internas, mas com o modo como a própria Igreja e cada crente se entende na sua missão em relação à sociedade envolvente. E ele não surge apenas de uma qualquer moda, mas radica na mais profunda tradição das primeiras comunidades cristãs, onde não havia propriamente hierarquia, mas ministérios e serviços distintos à comunidade. Entre eles, destacava-se o dos apóstolos, que tinham como missão anunciar o evangelho que tinham escutado de Jesus. Por isso, o lema do último sínodo – comunhão, participação, missão – fala de três realidades imbrincadas umas nas outras, inseparáveis.

E na missão há um mundo, vasto mundo. Os temas que Francisco trouxe para a praça pública são outro dos seus grandes legados. Em muitos deles, o Papa argentino foi uma voz quase solitária a defender, ao arrepio do que tem dominado na política, uma lógica do cuidado com a casa comum, contra a destruição do planeta; a centralidade das periferias – que o levou a viajar quase só para países de terceira “categoria” [ver 7MARGENS]; os refugiados e os migrantes contra a lógica da exclusão; a lógica da não-violência e da paz, na recusa da absoluta insanidade do armamentismo, do bombardeamento, do assassinato de pessoas e da destruição de bens. [ver 7MARGENS]

Foi também quase solitária a voz de Francisco por uma economia solidária e fraterna, que dê “terra, tecto e trabalho” para todos e não apenas para os que gerem a “economia predadora” e que “mata” – literalmente, se pensarmos no aumento dos suicídios em Portugal e na Grécia durante a intervenção da troika, nas crianças escravizadas nas minas do Congo ou nos refugiados das guerras e do clima que morrem nas mãos de máfias ou sepultados nos mares.

Também nestes âmbitos as tarefas serão muitas e exigentes e permitirão aferir da direcção do novo Papa. É certo que, desde há décadas, os sucessivos papas intervieram nos problemas do mundo, sempre com as mesmas orientações de defesa da dignidade humana, da justiça social e da paz. Em plena crise dos mísseis de Cuba, João XXIII propôs, em 1963, uma lógica de diálogo para as relações internacionais; em 1967, na encíclica Populorum Progressio (O Progresso dos Povos), Paulo VI propôs um modelo de desenvolvimento que não criasse excluídos; João Paulo II foi uma voz activa a pedir, antes do ano 2000, o perdão da dívida externa dos países pobres ou a invectivar os Estados Unidos contra a invasão do Iraque – cuja factura ainda hoje estamos a pagar em vários aspectos; Bento XVI apelou a uma completa reformulação do sistema económico e financeiro internacionais, mas poucos teólogos ou universidades católicas se mobilizaram até hoje para responder a esse pedido.

 

Crises exigentes

Campo de deslocados em Churachandpur, Manipur (Índia) . Foto CSI

Campo de deslocados em Churachandpur, Manipur (Índia) . Foto CSI

Os gigantescos problemas de hoje não serão menores que os das últimas décadas, mas várias crises surgem agora com novos e mais exigentes aspectos: o mundo enfrenta uma emergência climática que pode mudar irreversivelmente o modo como vivemos; há conflitos armados em mais de 60 países, um terço dos que compõem a ONU; avalanches de pessoas à procura de paz e refúgio atravessam mares, desertos e países para morrer ou (sobre)viver em campos de condições infra-humanas que se eternizam; dois terços da população mundial vivem sem liberdade religiosa; a democracia recua e aumenta o número de ditadores e autocratas – que muitas vezes cerceiam a liberdade religiosa, um dos direitos humanos mais violados em todo o mundo, já que dois terços da população mundial vivem sem ele.

Várias destas crises estão condensadas na África e na Ásia. Por isso, depois do primeiro Papa latino-americano, é legítimo alimentar a expectativa de um próximo oriundo de uma daquelas regiões: se em África predominam ainda vários cardeais que se opõem a mudanças significativas, esse não é o caso do ganês Peter Turkson, 76 anos, prefeito emérito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, um homem do diálogo inter-religioso, da pacificação, do diálogo, defensor de relações económicas mais justas e da “ecologia integral”; ou dos já referidos Brislin, ou Dieudonné, demasiado novo.

Mas talvez, no actual contexto, a escolha recaia mais depressa num asiático. Hoje, como recordava nos últimos dias Paolo Affatato, director da Agência Fides, do Vaticano, a Ásia é “o mais vasto e plural continente, berço das grandes religiões, onde as comunidades católicas são muitas vezes infinitesimais, escondidas e completamente irrelevantes”. Mas esse cenário levou Bergoglio a reconhecer não só que seria a Ásia a região do futuro para o cristianismo, como também ali se encontra o sentido da catolicidade, “uma universalidade encarnada, inculturada, que capta o bem onde vive e serve o povo com quem vive”, acrescentava Affatato no Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

Na Ásia, cruzam-se grandes desafios da humanidade e vários dos grandes temas do futuro do catolicismo: migrações, refugiados, profundas desigualdades sociais e extrema pobreza, regimes autocráticos e ditatoriais, culturas ancestrais muito diferenciadas do Médio Oriente e do Ocidente que marcaram os primeiros séculos do cristianismo, ausência de liberdade religiosa e diálogo inter-religioso… E no domingo, os cardeais portugueses António Marto e Manuel Clemente admitiam a importância dessa região do mundo nas escolhas do conclave e no futuro do catolicismo. [ver 7MARGENS]

 

No coração da Ásia

Papa Francisco durante missa em Timor-Leste, 10 setembro 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco durante missa em Timor-Leste, 10 setembro 2024. Foto Vatican Media

Foi com este pano de fundo que Francisco se deslocou ao continente várias vezes: Coreia do Sul (2014), Sri Lanka e Filipinas (2015) Myanmar e Bangladesh (2017), Tailândia e Japão (2019), Cazaquistão (2022), Mongólia (2023) e, naquela que foi a mais longa viagem do pontificado, Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste e Singapura (Setembro de 2024). Mas Francisco também viajou para países asiáticos do Médio Oriente: Dubai, Emiratos Árabes Unidos, Israel e Palestina (antes da tragédia actual) e Iraque (Março de 2021), naquela que foi porventura a mais importante viagem do seu pontificado, ainda na sombra da pandemia de covid-19.

“Estive no coração da Ásia e foi bom para mim. Faz bem entrar em diálogo com aquele grande continente, captar as suas mensagens, conhecer a sua sabedoria, o seu modo de ver a realidade, de abraçar o tempo e o espaço”, resumia o Papa Francisco em 6 de Setembro de 2023, dois dias depois de regressar da Mongólia, onde esteve para se encontrar com os menos de 1400 católicos do país (0,04 por cento dos 3,38 milhões de habitantes). Na Mongólia está o italiano Giorgio Marengo, um dos mais jovens do conclave (51 anos em Junho), o que neste caso será um factor que pesará contra ele.

Se a opção do conclave for no sentido de trazer a Ásia para o centro do catolicismo, há vários nomes que podem ser o escolhido ou ajudar a influenciar a decisão: Luis Antonio Tagle, das Filipinas (actualmente no Dicastério para a Evangelização), o sul-coreano Lazarus You Heung-sik (responsável do Dicastério para o Clero desde 2021), o indonésio Ignatius Hardjoatmodjo (Jacarta) ou o birmanês Charles Maung Bo, que tem sido uma voz corajosa a denunciar o totalitarismo da Junta Militar que governa o país são os que mais se destacam.

Um facto é certo: por continentes, a Europa continua a ter o maior número de cardeais eleitores (são 51 em 133, já que outros dois estarão ausentes por razões de saúde), mas já não faz maioria absoluta; e nunca a Ásia teve tantos: são 23, incluindo no Iraque (Louis Sako) ou em Jerusalém (Pierbattista Pizzaballa, outro dos nomes apontados em várias listas de papabile, também demasiado novo para o que se prevê que possa sair do fumo branco). Já agora, acrescentem-se os números de eleitores oriundos da América Central e do Sul (21), África (18), América do Norte (16) e Oceânia (4).

Será difícil que a eleição recaia de novo num latino-americano ou em alguém da metade Norte das Américas. Há, no entanto, nomes que ali se destacam como podendo influenciar o rumo da votação: o argentino Angel Fernandez Artime (pró-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada), o norte-americano Robert Prevost, responsável do Dicastério para os Bispos e que trabalhou largos anos no Peru; o também argentino Victor Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, ou Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus, defensor dos indígenas da Amazónia e que não hesitou a opor-se às políticas anti-vacinas do então presidente Bolsonaro, durante a pandemia.

Prevost, da linha de Francisco mas moderado, além de gestor rigoroso e hábil, poderia garantir a resolução do grave problema financeiro da Santa Sé, afundada em défices nos últimos anos. E há magnatas dos Estados Unidos – que pretendem um catolicismo imobilista – que quereriam muito um “papa certo”, como dizia um deles a um jornalista do Sunday Times. [ver 7MARGENS]

 

A China, promessa e esperança

China

Santuário dedicado a Nossa Senhora nas montanhas, China, Maio-Junho 2014. Foto © ACN-Portugal

Regressemos à Ásia, porque ali há outro factor de peso: a China e o seu regime brutalmente violador dos direitos humanos e da liberdade é um desafio para quem suceda a Francisco, seja asiático ou não. João Paulo II e Bento XVI tentaram jogar no fio da navalha com o regime, de modo a conseguir alguma margem de acção para os católicos chineses e a poder criar um corpo de padres e leigos para servir as comunidades.

Francisco foi mais longe e conseguiu, apesar das críticas, que o Vaticano e Pequim assinassem em 2018 um acordo para a nomeação de bispos, mediado por Parolin e que já foi prorrogado por três vezes, até 2028. Apesar disso, a China não enviou nenhuma delegação ao funeral de Francisco – terá sido porque a Santa Sé recusou “expulsar” Taiwan, como Pequim pretenderia, escreveu Michel Chambon na UCANews. No funeral, contrariando a ausência chinesa, a última “oração universal” foi lida em chinês.

Em Setembro, ao regressar da viagem ao Sudeste asiático, o Papa dizia aos jornalistas: “A China é uma promessa e uma esperança para a Igreja. Gostaria muito de visitar a China” – o desejo ficou por concretizar. No conclave, e pela primeira vez, um dos cardeais eleitores vem da China (Hong Kong): Stephen Chow Sau-yan, jesuíta como Francisco, foi provincial da Companhia de Jesus na China entre 2018 e 2021.

Muito dificilmente seria ele o escolhido para suceder a Francisco. Mas a sua voz pode levar a que o sucessor consiga estabelecer relações diplomáticas mais “robustas e prósperas”, como escrevia Jonathan Y. Tan, outro analista da UCANews. Se o eleito for um asiático, a proximidade geográfica poderia vir a desempenhar um papel semelhante ao de João Paulo II com a abertura dos regimes do Leste europeu no final do século passado: mesmo se o regime chinês é de outra rigidez, um Papa asiático poderia conseguir pelo menos um abrandamento das violações de direitos humanos e um maior grau de liberdade religiosa no país.

Seria pouco. Mas, só isso, seria muito.

 

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Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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