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Javier Cercas. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Javier Cercas recorda o Papa Francisco

O louco de Deus foi ao fim do mundo e levou um escritor ateu para contar o que viu

| 20/04/2026

Sem o esperar, o escritor espanhol Javier Cercas foi convidado pelo Vaticano para acompanhar o Papa Francisco na sua viagem à Mongólia entre 31 de Agosto e 4 de Setembro de 2023. Uma viagem ao fim do mundo, por parte do “louco de Deus” que, um mês depois de ter estado em Lisboa a presidir à JMJ com mais de um milhão de jovens de todo o mundo, foi ao encontro de uma das mais pequenas comunidades católicas, com cerca de 1500 membros num país com mais de três milhões e meio de pessoas.

Apresentando-se como “ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado”, o autor de Soldados de Salamina aceita o desafio dos responsáveis do Vaticano, também (sobretudo) para perguntar ao Papa Francisco se a sua mãe, em fim de vida, veria o seu pai depois da morte. No final, levaria à mãe a resposta de Francisco, que morreu há um ano, completado nesta terça-feira, 21. “Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo.”

O Louco de Deus no Fim do Mundo (Porto Editora), o livro que resulta dessa viagem, cruza a crónica de viagem com perguntas existenciais, entrevistas, reportagens, diálogos humorísticos, observações de uma profunda ternura e humanidade sobre a espiritualidade, o transcendente e o desejo de imortalidade. O livro tem sido um sucesso em vários países – incluindo Portugal, onde vai em sexta edição, a precisar de pequenas correcções à tradução (“leigos” em vez de “laicos”, “irmã” em vez de “soror” e outros detalhes que não retiram o brilho à obra nem à edição). 

É sobre todos aqueles temas que Javier Cercas fala nesta entrevista. Onde também conta o que foi a viagem, a conversa com o Papa Francisco, a alegria da vida da mãe e outros pequenos segredos. Depois da entrevista com o sociólogo francês Dominique Wolton, esta é uma nova conversa que ajuda a compor o retrato do Papa argentino para os leitores do 7MARGENS.

7MARGENS – É comovente ler a descrição do último encontro com a sua mãe, quando lhe contou a conversa que tinha tido com o Papa sobre ela. Que sentimento o dominou quando contou à sua mãe?

JAVIER CERCAS – [silêncio comovido] É muito difícil para mim contar isso. Eu estava concentrado no facto em si, sabia que aquilo era importante. Estava tão concentrado em fazer entender à minha mãe o que estava a acontecer, que quem estava falando era o Papa, que estava falando para ela, que tentei afastar os sentimentos…

Há muito tempo que eu estava a despedir-me da minha mãe. Este livro é a despedida da minha mãe. E eu não me despedi da minha mãe com tristeza. Estou a dizer a verdade. A minha mãe teve uma vida fantástica. E eu estive com ela. O que mais se pode pedir?

Não era um sentimento de tristeza… Não sei se ela entendeu o que estava a acontecer. Acho que sim, mas não tenho a certeza. No final, digo que não sei se ela me reconhece: a doença de Alzheimer é assim, às vezes as pessoas vão, voltam…

 

7M – Não se despediu dela com tristeza – este livro e o encontro com o Papa tiveram alguma influência?

Pode ser. Sei que isso era importante para ela. Portanto, era importante para mim. A última vez que ela falou comigo – conto-o no epílogo – falou-me sobre a humildade. Fiquei muito emocionado quando, em Assis, o cardeal Zuppi leu em voz alta as últimas palavras da minha mãe. Fiquei muito emocionado. Bem, o cardeal Zuppi é uma grande personalidade, um homem muito inteligente, muito valioso. Não me teria importado que fosse ele papa. Tolentino também não me importaria…

 

7M – Se eu dissesse que, além de uma belíssima crónica de viagem, de excelentes entrevistas e uma excelente reportagem jornalística, este livro é um fantástico livro de teologia? Dou alguns exemplos: a misericórdia, a palavra que definiu o pontificado; Deus como o nome que damos à nossa fragilidade; a teologia missionária, com as histórias que conta e a admiração que manifesta pelos missionários; o discernimento; até o extraordinário diálogo sobre erotismo com o cardeal Victor Fernández.

Ele é uma personagem incrível.

 

7M – Podemos ler este como um livro de teologia?

Não é o primeiro a dizer isso. Os teólogos leram assim. Enzo Bianchi, por exemplo: em Turim tivemos um encontro e ele falou deste livro como um tratado de teologia escrito por um não-crente. E disse coisas muito bonitas, como a de que eu lembrava aos cristãos coisas que eles tinham esquecido. Essa era a ideia que o Vaticano tinha quando me ofereceu a possibilidade de escrever um livro: que eu poderia contar coisas que um cristão talvez não tenha muito presentes.

O coração deste livro é o coração do cristianismo, que alguns cristãos esqueceram: o coração do cristianismo é uma loucura. E não sou eu que digo, é o Papa Francisco.

Javier Cercas em Lisboa: “Este livro é, antes de mais nada, uma novela, embora não seja ficção.” Foto © António Marujo/7MARGENS.

7M – Quando pergunta a uma catequista mongol sobre a ressurreição da carne e a vida eterna, ela diz: “Quero viver a vida agora e depois preocupar-me com isso mais tarde.”

Sim… Muitas coisas me comovem. E uma delas é a humildade dessas pessoas. Que dizem: “Ainda não sei o que é a vida eterna. Não consigo pensar nisso, mas considero-me cristão” – na verdade, ensina catolicismo. E diz: “espero chegar lá algum dia, mas ainda não sei; estou muito preocupado com a vida terrena para me ocupar com isso.” É muito comovente.

Já me aconteceu com outros livros meus: jornalistas que me dizem que é uma crónica; historiadores que me dizem que é um livro de história; filósofos que me dizem que é um ensaio de filosofia; encontro teólogos… E a todos digo que sim, que têm razão.

 

7M – E para si que livro é este?

Este livro é, antes de mais nada, uma novela. Embora não seja ficção – nada é inventado, tudo é verdade, inclusive o facto de eu ficar preso num elevador, em Ulan Bator, a 14 andares de altura, tudo é verdade. Mas o romance tem essa capacidade extraordinária e genial de abranger tudo, é assim que eu entendo. Pode ser lido, tem sido lido como um tratado de teologia, porque todos os temas são teológicos, fala-se constantemente de teologia.

Há um mestre nisso, que é [Jorge Luis] Borges, que se interessou pela teologia de um ponto de vista agnóstico, de uma forma genial. Para mim estes temas têm sido apaixonantes, tento que também o sejam para o leitor: a fé, a razão, o discernimento, o que é ser cristão, o que significa o cristianismo…

 

7M – Essa era uma ideia importante?

O meu esforço fundamental tem sido limpar o meu olhar de preconceitos, porque todos nós estamos saturados de preconceitos em relação à Igreja. Preconceitos contra, a favor, meio indecisos. Todos, especialmente nos nossos países, mas em todo o mundo.

Sobre o Vaticano, sobre o cristianismo, todos acham que sabem tudo… O que tentei foi limpar o meu olhar e ir ao coração do Vaticano para ver o que realmente ali acontece, o que estão realmente a discutir. Não o que eu imagino que estejam a discutir, o que gostaria que discutissem, o que eu pensava quando era criança. Não: o que estão realmente a discutir, quem são as pessoas que estão no comando da Igreja, quem era o Papa Francisco, etc.

Com um olhar limpo, sem preconceitos. É isso que qualquer pessoa deve fazer diante de um tema. Mas aqui era muito mais difícil: estamos a falar de algo absolutamente central. Não há nada nem remotamente parecido com a Igreja Católica no mundo. Nunca houve. Ela dura há mais de dois mil anos, não há nada semelhante. Todos os impérios caíram. O Império Romano ia durar para sempre. Tudo caiu, mas a Igreja continua.

 

7M – O Império Mongol também caiu…

Tudo, tudo caiu. Não há nenhuma instituição universal que seja ao mesmo tempo uma e muitas, e a Igreja é. Claro que há o Vaticano, que é o centro, que lança o dogma, que tem o controlo. Mas cada Igreja é completamente diferente e, às vezes, totalmente oposta.

E na Igreja convivem pessoas diversas. Desde a extrema-direita que se diz católica, nos nossos países, até aos zapatistas mexicanos, que são católicos, profundamente católicos. E acredito que eles estão mais próximos do espírito de Jesus Cristo do que a extrema-direita.

Foi isso que tentei fazer: aproximar-me de algo que temos aqui, que sempre tivemos, mas com olhos limpos. Ver o que há. E tudo é surpreendente para mim, desde o início, quando me fazem uma proposta que a Igreja nunca tinha feito: em dois mil anos, nunca disseram a um escritor “venha, acompanhe o Papa, faça as perguntas que quiser, fale com quem quiser e depois conte.”

Desde aí até ao fim. Se eu fosse crente, diria no final que foi um pequeno milagre. O Papa telefonar-me… Para mim, tudo foi surpreendente.

Cardeal Victor Fernandez na Sala de Imprensa da Santa Sé. Foto Vatican Media

“Nunca teria imaginado que o ‘grande inquisidor’ seria o cardeal Victor Fernández.” Foto © Vatican Media

7M – Também encontrou pessoas muito interessantes.

O cardeal Fernández: nunca teria imaginado que o grande inquisidor seria o cardeal Fernández. É incrível, o “porno-cardeal”, como lhe chamam alguns. Quem poderia imaginar uma coisa assim? Quem poderia imaginar Paolo Ruffini, o prefeito da Comunicação, que era o inimigo público número um de Silvio Berlusconi? Quem poderia imaginar uma figura como Tolentino? Um grande poeta, talvez o maior poeta da língua portuguesa actualmente, amigo de Mário Cesariny?

 

7M – Sim, esse encontro também é muito interessante, começando por Mário Cesariny…

E quando falamos de teologia, há uma referência logo no início, ao falar da angústia da existência, que no seu caso diz ter superado com a ajuda também da literatura, Nietzsche e Unamuno, por exemplo. Quase no fim do livro, fala da ética cristã e da ética ateia. Elas podem ajudar a superar essa angústia da existência que a todos nos toca?

São duas coisas distintas. Descobri a angústia quando deixei de acreditar, quando perdi a fé. Não me lembro da angústia na infância, mas lembro-me dela na adolescência.

Tentei combatê-la com a literatura, tem sido o meu instrumento para isso. Substituí a crença em Deus, a fé, pela literatura. Foi o meu sucedâneo. Recorri à literatura a partir dos 14 anos em busca de certezas, de serenidade, das respostas que até então a fé me tinha dado.

Claro que isso era um erro: a verdadeira literatura nunca dá certezas nem respostas, dá mais perguntas e mais inquietação. Mas era isso que eu procurava. E eu achava que o meu caso era excepcional, mas na verdade é bastante normal.

 

7M – Ou seja?…

Muitos escritores, desde o final do século XIX, quando começámos a tomar consciência de que vivemos num mundo sem Deus – Nietzsche viu-o primeiro – muitos foram procurar na literatura o sucedâneo da religião. Flaubert falava do seu trabalho como um sacerdócio e do escritor como um sacerdote.

Quanto aos dois tipos de ética que resumo em dois versos – um versículo de Lucas e um verso de Borges –, não dou respostas. O romance nunca dá respostas, faz perguntas, torna as coisas mais complexas.

Eu sempre opus essas duas éticas. Isso também é muito nietzschiano, embora eu, graças a este livro, tenha mudado de visão em relação à visão que Nietzsche [tinha] do cristianismo: sempre me pareceu superior a ética ateia desde que sou ateu ou agnóstico. “Bem-aventurados os puros de coração, porque vêem a Deus”, diz o versículo de Borges. Ou seja, a recompensa por agir bem é agir bem, diz a ética ateísta, não há recompensa posterior. Em contrapartida, “bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”, significa que se faz o bem e em troca receberá uma recompensa: ver a Deus, a vida eterna.

“É preciso ajudar o próximo porque é bom ajudar o próximo.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS

7M – Mas não é bem a posição de Borges que aparece…

O que proponho no livro não é necessariamente assim; um poema anónimo do barroco espanhol diz “não me move o meu Deus para te amar o céu que me prometeste”; ou seja: eu não te amo, Deus, porque me vais dar uma recompensa; eu amo-te porque te amo. Nesse ponto, a ética ateia e a ética religiosa igualam-se. O mérito é fazer as coisas porque é bom fazê-las – e eu acredito nessa ética. É preciso ajudar o próximo porque é bom ajudar o próximo. É preciso fazer o que é certo porque é bom em si mesmo. Não gosto da ideia da recompensa, penso que é eticamente inferior.

Nietzsche diz: o cristianismo desvaloriza o valor da existência humana. Porquê? Porque diz que esta vida não é importante, esta vida é um vale de lágrimas, a vida importante é a seguinte; é preciso comportar-se bem porque na próxima haverá uma recompensa. E essa é a importante. Mas se a vida ultraterrena é a importante, esta é de segunda categoria. E isso é imperdoável, diz Nietzsche, porque esta é o que temos. Isso é terrível, é fatal.

Essa é uma das coisas que Nietzsche reprovava ao cristianismo, que estava desvalorizando o valor da vida. Penso que esse é um erro de Nietzsche.

 

7M – Porque não é assim…

Porquê? Porque o que Cristo diz não é isso. O que Cristo diz é: “Se vocês me seguirem, eu vos darei, aqui, cem vezes mais. E depois, a eternidade.” Ou seja, a eternidade começa aqui.

Mais ainda (isso parece-me o mais importante e uma das coisas que mais me atrai no cristianismo agora): obviamente, Jesus Cristo era um revolucionário.

Permita-me um parêntese. A grande revolução que Francisco tenta é a grande revolução que a Igreja tenta desde o Concílio Vaticano II, que é voltar ao cristianismo de Cristo. O cristianismo de Cristo não se parece em nada com o cristianismo que conhecemos. Isto é evidente, muito importante para mim e isto é muito claro. Cristo era um homem perigoso, muito perigoso para o poder. Era um revolucionário.

 

7M – Também para o poder religioso.

Para todo o poder. Era um subversivo. Era um revolucionário, um homem que dizia coisas perigosas: não vim trazer paz, mas a espada; somos todos iguais – num mundo dominado pela escravatura… Andava rodeado não de pessoas ricas e poderosas, mas de pessoas pobres, que não tinham onde cair mortas, de prostitutas…

Crucificaram-no porque era um homem perigoso, esse era o castigo reservado aos mais perigosos. Esse é o cristianismo de Cristo. Charles Péguy dizia uma coisa muito acertada: o mais contrário ao espírito burguês é o cristianismo. O mais contrário. Isso parece-me exacto. Mas o cristianismo que conhecemos é o cristianismo burguês, dos ricos, dos poderosos, dos instalados. Pode-se ler a história da Igreja Católica como a história da perversão do cristianismo.

A primeira entrevista a Francisco é feita pelo padre [Antonio] Spadaro, uma personagem deste livro, muito próximo dele, jesuíta como ele, diretor da [revista] Civiltà Cattolica, que lhe pergunta: “O que quer fazer com a Igreja? Qual é o seu projecto?” E Francisco responde imediatamente: “Quero tirar Cristo da sacristia e colocá-lo no centro.”

O Papa Francisco num encontro com pessoas em situação de pobreza: “É preciso voltar ao cristianismo de Cristo.” Foto: Direitos reservados.

7M – Foi uma ideia fundamental do Papa Francisco…

E é impossível ouvir isto sem lembrar a parábola do Grande Inquisidor, de Dostoiévski, de que falo no livro: o Grande Inquisidor, a encarnação de todos os males da Igreja, do constantinismo, do clericalismo, um homem assustador, que lança fogo pelos olhos, rodeado de escravos. De repente, aparece Cristo, que saiu da sacristia com as suas feridas, nu, e diz o Grande Inquisidor: “O que fazes aqui? Volta para a sacristia. Tu não tens nada a fazer aqui. Tu vieste para libertar os homens, mas os homens não querem a liberdade. Quando os homens recebem liberdade, o que pedem imediatamente é escravidão, e nós damos o que eles querem. Volta para a sacristia e nós administraremos o nosso legado.”

O que Dostoiévski está a contar é a história da Igreja Católica, da perversão do cristianismo. O que Francisco está a dizer e o que acredito que a Igreja diz desde o Concílio Vaticano II, é que é preciso voltar ao cristianismo de Cristo, que não se parece nada com o cristianismo da Igreja. Mas há algo mais: ele era também e acima de tudo um revolucionário metafísico. O que Cristo diz, o que o cristianismo diz – e está no coração deste livro – é “não à morte”. O que há no cristianismo é uma rebelião contra a morte, como diz São Paulo: “Ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, a nossa fé é vã.”

O que Cristo diz, o que o cristianismo diz não é o que Nietzsche dizia, que esta vida é de segunda categoria. Não; é: queremos mais. Quando a minha mãe dizia que iria ver o meu pai após a morte, o que ela dizia era que não tinha tido o suficiente, que queria ainda mais vida. Essa rebelião contra a morte, esse espírito antiburguês, revolucionário, que é o espírito do cristianismo de Cristo, parece-me muito simpático e reconcilia-me com o cristianismo.

 

7M – E é também uma confirmação do que Espinosa dizia sobre o desejo de continuar a viver, da fobia que todos temos da morte, da ansiedade da mortalidade?

Totalmente. Espinosa dizia que o que define os seres humanos é o ser que quer persistir no seu ser. É isso que nos define como seres humanos. Ninguém quer morrer. O que há no cristianismo é a capacidade de reformular essa rebelião contra a necessidade. A necessidade é a morte. E Cristo decide não morrer e, além disso, promete que nós também não vamos morrer. Uau, eu aceito.

O problema da Igreja – e isso Francisco compreendeu bem, como tinham compreendido Péguy e outros – é o seu espírito burguês e conformista. É esse espírito antiburguês, anticonformista, que os missionários têm. Por isso Francisco falava de uma Igreja missionária, de uma Igreja em saída.

Os missionários representam o verdadeiro cristianismo de Cristo. Sem esse espírito não há cristianismo. Sem essa radicalidade não há cristianismo.

 

7M – Em que se concretiza ela?

Francisco – e a Igreja hoje – insiste muito em algo que acredito ser verdade: que o essencial é o exemplo; o que atraía os discípulos de Cristo é o seu exemplo. O próprio Nietzsche fica fascinado por ele. Diz: sim, sim, o cristianismo está errado, mas o exemplo de Cristo é extraordinário.

Ver um comportamento tão extraordinário é impossível de explicar em termos comuns.

 

7M – Há um diálogo no livro com Andrea Tornielli sobre isto.

Podes conhecer alguém excecional… Mas isso não te leva necessariamente à fé.

“O verdadeiro cristão é o missionário, é aquele que está louco.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS.

7M – Mas nem sempre isso é suficiente para…

Não funciona sempre. Podes conhecer alguém excecional e isso não te levar necessariamente à fé. Francisco dizia que para ser missionário é preciso estar louco. Este livro é uma defesa da loucura. Eu concordo.

O verdadeiro cristão é o missionário, é aquele que está louco. Por exemplo, [ir para] a Mongólia com 50 graus abaixo de zero [no Inverno], é preciso estar louco. Na lógica em que todos vivemos, o que faz sentido é ganhar dinheiro, trabalhar com ambição, tornar-se alguém importante. Os missionários vão para lá, onde ninguém sabe o que é o cristianismo, ajudar os pobres e os infelizes, com 50 graus abaixo de zero.

Outra loucura: acreditar no que o cristão acredita; a fé é algo extraordinário, é uma loucura. Eu disse ao Papa que a ideia da ressurreição da carne e da vida eterna é uma loucura. E ele diz: é um escândalo – também São Paulo o diz. Há aí um salto tremendo. Eu não me consideraria cristão, não me consideraria crente, se não acreditasse no que a minha mãe acreditava. Para isso é preciso acreditar de verdade que Cristo não era apenas uma figura histórica incontestável, era também o Filho de Deus. Isto é muito forte. Mas é preciso acreditar no outro. E o outro é o problema – e a maravilha também.

 

7M – O humor é um tema recorrente no livro, inclusive com Francisco. Todas as pessoas que falam sobre o assunto dizem que o cristianismo sem humor não funciona. Mas desde o barroco que temos uma religião sacrificial: vamos a Málaga ou a Sevilha para a Semana Santa e tudo é sacrifício, dor…

Uma das coisas que me afastou do cristianismo foi isso. Há uma frase de [Emil] Cioran que se repete no livro e na qual eu acreditava: “Toda a religião é uma cruzada contra o sentido de humor.” Para mim, isto era catastrófico, porque o sentido de humor é a coisa mais séria que existe. Não há romances sem sentido de humor.

 

7M – E no livro há coisas que nos fazem rir…

Surpreendeu as pessoas o facto de ser um livro cómico. Para mim, os grandes romances são cómicos. Os mais sérios são o Dom Quixote, o Ulisses, etc.

A ironia é o principal instrumento de conhecimento do romance. O catolicismo, não sei se desde o barroco ou antes, é como diz Nietzsche: os vossos rostos de funeral e de tristeza são a principal acusação contra vós. Porque se as vossas crenças fossem certas, estaríeis contentes.

Francisco era um Papa anticlerical, que faz uma reivindicação radical do sentido de humor. A melhor frase de Francisco é uma que ele nunca escreveu, e que diz a[o jornalista italiano Lucio] Brunelli: o que mais se aproxima da graça divina é o sentido de humor.

 

7M – Jogamos com os mesmos significados em português e em espanhol.

Exatamente. Graça e ter graça. Também um ateu sente que, quando ri, alguém vem visitá-lo. De repente, compreendemos tudo, todas as tristezas passam.

Certa vez, uma pessoa foi visitar o Papa e disse-lhe: “Santidade, sou um seminarista de Valladolid.” E o Papa respondeu: “E que culpa tenho eu, filho?” A João XXIII, que era o modelo de Francisco, perguntaram uma vez: “Quantas pessoas trabalham no Vaticano?” E João XXIII respondeu: “Mais ou menos metade.” Isto é uma revolução inesperada.

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O Papa Francisco num encontro sinodal com estudantes através de vídeo: “Era o Papa da alegria, do riso e das brincadeiras com toda a gente.” Foto © Universidade Loyola. 

7M – Também por causa de Francisco.

Tento fazer um retrato dele o mais complexo e fiel possível. E tenho a alegria que este livro me deu: muitas pessoas que o conheciam muito bem disseram-me que o retrato é exacto. Escreveu-me um padre, Quique Bianchi, que trabalhou com ele muitos anos que me dizia que, no retrato, estão Bergoglio e Francisco. Bergoglio foi muitas pessoas ao longo da sua vida, como todos nós – os portugueses sabem isso muito bem, com Fernando Pessoa. Francisco era o melhor Bergoglio possível. E quem reivindica o sentido de humor não é Bergoglio, é Francisco.

Quando era arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio estava sempre muito sério. E as pessoas que o conheciam diziam que era muito taciturno. De repente, aparece na Basílica de São Pedro a sorrir e transforma-se noutra pessoa. De repente, era o Papa da alegria, do riso e das brincadeiras com toda a gente. Um padre argentino explicou [a mudança, dizendo:] “Isso é o Espírito Santo.”

 

7M – Dentro da Igreja olham-nos aos jornalistas com desconfiança, mas também há preconceitos por parte dos jornalistas em relação à Igreja: como é possível que os jornalistas só se interessassem pela questão da China ou um jornal como El País não tenha publicado uma notícia sobre uma viagem como esta?…

Há uma enorme quantidade de preconceitos. O que tenho observado é que, na imensa maioria dos jornais generalistas, quando se fala da Igreja, fala-se é de política. A imensa maioria dos vaticanistas que iam, iam pela China, pela questão política, não pela questão religiosa.

 

7M – Isso revela um jornalismo desatento às realidades que estão à margem, na periferia…

É um facto. Quando comecei a investigar sobre o Papa, surpreendia-me haver imensos documentários e entrevistas que só falavam de política. O documentário de [Gianfranco] Rossi [A Viagem de Papa Francisco] era excelente, mas nem uma palavra [além da política]. Se um marciano o visse, diria: “E este senhor vestido de branco, porque lhe dão as pessoas tanta atenção? Quem é ele? Nem sequer o vêem a rezar. Os jornalistas acham que isso não é interessante para os seus leitores e, por outro lado, não têm linguagem para falar destas coisas – esse é o problema. Por isso não sabemos tantas coisas que acontecem dentro da Igreja porque não se fala disso nos grandes meios de comunicação [generalistas].

Há um paradoxo incrível: o Papa tem o direito de falar de política, mas não tem poder político. Leão XIV disse três vezes: “Basta de guerras.” Nenhuma guerra parou, nem uma única. Mas Netanyahu pode parar a guerra em Gaza amanhã, porque ainda há guerra em Gaza, ou Putin [com a Ucrânia].

 

7M – No início do livro, apresenta-se como ateu, anticlerical, laicista militante, tudo isso… O que foi mais impressionante, pessoalmente, nesta experiência?

Os missionários! Estas pessoas são impressionantes. Seja-se católico ou não, é impressionante. Um homem como o padre Ernesto é uma figura extraordinária, muito culto, muito jovem, com 77 anos…

Talvez aquele que mais me impressiona seja o padre Giovanni, lembra-se? Esse é o cristão autêntico, aquele que se revolta contra Roma, e depois é o primeiro na igreja. Este é talvez o tipo mais impressionante. E tenho a suspeita de que ele não disse tudo. Os chineses que estavam lá, digo-lhes que são como guerrilheiros. Com os rostos cobertos… Tenho a suspeita de que ele os trouxe… Representa o cristianismo de Cristo a viver meio na clandestinidade…

 

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