Cardeal Becciu implicado

“O maior julgamento em matéria criminal da história do Vaticano”

| 27 Jul 21

Já lhe chamam “o maior julgamento em matéria criminal da história do Vaticano”, aquele que se inicia nesta terça-feira, 27, e que envolve o cardeal Angelo Becciu (ver no 7MARGENS), ex-chefe de gabinete da Secretaria de Estado, assim como nove outras pessoas, entre funcionários e consultores, acusados de corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e abuso de poder.

Cardeal Becciu começa a ser julgado esta terça-feira. Foto © Claude Truong-Ngoc / Wikimedia Commons

 

O julgamento decorre num espaço adaptado para o efeito na zona dos Museus do Vaticano. Culmina um trabalho que começou em outubro de 2019, quando a polícia do Vaticano irrompeu pelos escritórios da Secretaria de Estado, em busca de documentos e dados. A investigação prolongou-se por dois anos e teve como foco o investimento, em 2014, na aquisição de um imóvel em Chelsea, uma zona chique de Londres, que os especialistas e conselheiros da Secretaria de Estado pretendiam transformar em habitações de luxo. O investimento de 200 milhões de euros foi feito num fundo operado por um empresário italiano, mas em 2018 já tinha perdido 18 milhões.

Os observadores reconhecem a complexidade que este caso reveste e admitem que venham a conhecer-se desenvolvimentos, com o andar das sessões. Um deles diz respeito à ignorância dos negócios realizados, por parte do Secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin, que não foi indiciado, mas cujo depoimento alguns dos acusados poderão vir a requerer.

Lendo aspetos que vieram a público dos documentos de acusação, ganha força a ideia de que algumas das decisões assumidas por responsáveis do Vaticano podem ter sido condicionadas por ignorância, ingenuidade e falta de competência para lidar com este tipo de matérias e mesmo por discrepâncias e lutas internas no interior da máquina da Cúria Romana.

Um pormenor que será seguido atentamente é sobre o papel desempenhado por Angelo Giovanni Becciu em todo o processo. Este cardeal foi já severamente punido pelo Papa Francisco, quando lhe retirou o cargo que ocupava na Cúria e cancelou as suas prerrogativas cardinalícias, em especial o direito de participar no conclave e de escolher o novo Papa. A veemência com que Becciu tem combatido quer as acusações dos promotores de justiça quer declarações de outros atores deste processo leva a admitir que não deixará de fazer valer os direitos que entende assistirem-lhe.

 

Contas do Vaticano tornadas públicas pela primeira vez

Vaticano deu mais um passo no sentido da transparência ao publicitar as suas contas de 2020. Foto © Marzacas

 

Foi neste contexto que o Vaticano decidiu há dias divulgar informação pormenorizada sobre os seus bens imobiliários, em documentos que surpreenderam os jornalistas, não só por ser a primeira vez que tal acontece como por os dados virem ilustrados e apresentados em numerosos gráficos e tabelas.

Ficou-se, assim, a saber que o Vaticano possui perto de 5.200 propriedades, em diversas partes do mundo, cerca de 75% das quais em Itália. São, em boa parte, imóveis ocupados com serviços na área da educação, saúde e ação social. Estes dados não incluem os edifícios das nunciaturas (equivalentes a embaixadas) da Santa Sé.

Segundo a informação disponibilizada, apenas 14% destes edifícios se encontram alugados a preços de mercado. Os restantes estão arrendados a instituições socioeducativas, religiosas e de saúde, a valores substancialmente inferiores aos correntes.

Um dos documentos que a Administração do Património da Sé Apostólica (APSA) publicou pela primeira vez desde a sua fundação em 1967 foi o balanço das contas, no caso, referentes a 2020.

Algumas vezes, no passado, a APSA elaborou balanços e apresentou-se aos órgãos de controlo. A novidade, neste caso, esteve mesmo na publicitação. “É certamente um passo em frente em termos de transparência”, observou Nunzio Galantino, presidente daquela Administração.

Recorde-se que o Papa Francisco transferiu fundos e propriedades da esfera da Secretário de Estado para a APSA através de um motu proprio datado de 28 de dezembro de 2020. O chefe do Dicastério salienta que este processo não é apenas “uma transferência de materiais e de competências”, mas “uma nova cultura, não apenas administrativa”.

O clima de pandemia fez-se sentir nas contribuições para a Cúria, que passaram praticamente para metade, de 41 para 20 milhões de euros, entre 2019 e 2020. Reduziram-se também as rubricas de faturação e de investimentos financeiros.

 

Julgamento marca “viragem” para uma cultura de transparência

Padre Juan Antonio Guerrero, responsável pela Secretaria da Economia do Vaticano. Foto © Vatican News

 

Neste prestar de contas esteve igualmente envolvida a Secretaria de Economia do Vaticano, desde há pouco mais de um ano dirigida pelo padre Juan Antonio Guerrero. Em entrevista a Andrea Tornielli, do Vatican News, este responsável reconheceu que 2020 registou uma situação bastante deficitária, mas muito menor do que os cenários que foram sendo desenhados ao longo daquele ano.

Interrogado sobre o impacto dos escândalos, nomeadamente financeiros, que são associados ao julgamento que agora se inicia no Vaticano, António Guerrero começa por anotar que “quando há interesse em falar sobre a economia da Santa Sé, geralmente é porque algo não funcionou como deveria. E isso tira a credibilidade da sua missão”.

“No caso específico deste julgamento – acrescenta o responsável pela Secretaria de Economia – creio que ele marca uma viragem que pode resultar numa maior credibilidade da Santa Sé em questões económicas.”

O julgamento incide sobre algo que já passou, sendo para Guerrero “muito difícil que o que aconteceu se repita”. Por outro lado, o facto de esse julgamento ocorrer significa que alguns controlos internos funcionaram: “as reclamações vieram de dentro do Vaticano”.

A mudança que está em curso, acicatada também pela pandemia e pelos escândalos, apostam numa cultura de maior transparência, de prestação de contas, responsabilização dos que assumem responsabilidades e um aspeto que tem faltado: “Ter bons consultores, para nós, que não nos dedicamos à atividade económica, é muito importante; nisso errámos no passado, como se pode ver”, acentuou Antonio Guerrero.

 

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